22 fevereiro 2016
Suicídio medicamente ajudado na perspetiva de um doente
20 fevereiro 2016
Morrer com Dignidade?
(“A Lei do Kansas sobre Morrer com Dignidade”)
Como
responderia você à seguinte pergunta numa sondagem Gallup?
Quando uma pessoa tem uma doença que não tem cura e está a sofrer dores graves, pensa que os médicos devem ou não devem ser autorizados por lei a ajudar o doente a cometer suicídio se o doente o pedir?
Em meados de
2015, aproximadamente 7 em 19 americanos responderam “Sim” numa sondagem a esta
pergunta, incluindo 48%
dos que frequentam semanalmente a igreja. A grande maioria dos
americanos e 81% dos
jovens adultos com 18-34 anos são atualmente a favor do suicídio medicamente
assistido. Estarão certos? Pode esta grande maioria estar errada?
Os
legisladores de Kansas, como outros de muitos Estados, tiveram oportunidade de
tornar o suicídio medicamente assistido legal. Já é legal, com restrições e
regulamentos, em vários outros Estados, nomeadamente em Oregon, Montana,
Vermont e Washington e, desde este ano, na Califórnia. Com a legalização na
Califórnia temos um assunto que interessa a 1 em cada 10 americanos. A “Lei
sobre a Morte com Dignidade” de Oregon, datada de 1994, serviu de modelo à da
Califórnia e também da Proposta de Lei n.º 2150 do Kansas, apresentada este ano. Não foram
feitas audições.
O Governador
Jerry Brown, cristão católico, assinou recentemente a legislação californiana depois
de muita hesitação. O Governador Brownback do Kansas, também católico, não
parece disposto a assinar o diploma mesmo que passe na comissão e receba apoios
suficientes para ser submetido a ambas as Câmaras legislativas do Kansas. É
esta uma boa política pública? Ou estamos equivocados aqui no centro dos EUA?
Um dos
acontecimentos que se acredita mais influenciou o aumento das percentagens nas sondagens
Gallup, especialmente entre jovens, foi o caso da morte medicamente assistida
de Brittany Maynard – uma jovem de 29 anos.
Brittany vivia
na Califórnia quando lhe foi diagnosticado um glioblastoma multiforme, uma
forma agressiva de tumor cerebral terminal. Depois de muitos exames e debates,
Brittany decidiu mudar-se com o seu marido e a mãe para o Oregon de modo a
poder recorrer ao protocolo “morrer com dignidade”. Depois de fixar residência
e de consultar médicos, Brittany recebeu a sua receita letal de fármacos para
usar ou não de acordo com a sua vontade. Para ser considerado como destinado a
pôr fim à vida, a
lei de Oregon especifica que
os fármacos têm de ser tomados pela mão de Brittany. Ninguém pode fazê-lo no
seu lugar.
Depois de
sofrer múltiplas convulsões e dores relacionadas com o tumor, Ms. Maynard
decidiu tomar a dose letal da medicação prescrita para aquele propósito e,
consequentemente, a sua vida acabou no dia 1 de novembro de 2014. A família
próxima e os amigos acompanharam-na no momento da sua partida. Dizem que teve
uma morte pacífica. Foi uma “morte com dignidade”?
Num grupo de
diálogo em que participo mensalmente, maioritariamente composto de médicos e
capelães, discutimos o caso Brittany Maynard depois de vermos o vídeo
YouTube de seis minutos posto por Brittany antes de morrer. Também fui facilitador da
discussão deste caso com grupos de seminaristas e de estudantes de medicina. De
cada vez, pedi uma votação sobre a opinião dos participantes quanto ao suicídio
medicamente assistido. Em qualquer dos grupos, as percentagens espelharam as da
Gallup. Portanto, no Kansas, deve a maioria prevalecer neste assunto?
Um médico de
cuidados continuados [hospice] meu amigo sugeriu que Brittany
Maynard devia ter utilizado os cuidados paliativos numa unidade de cuidados
continuados. Reconheceu que não podia garantir uma morte sem dores e sofrimento
mas que aqueles cuidados representam um papel valioso para a dignidade das
pessoas doentes que estão a morrer. De facto, certamente representa e muitas
mortes nessas instituições parecem relativamente pacíficas. É isso que eu e a
maioria dos bioeticistas que conheço defendemos – mais do que alargar o acesso
ao suicídio medicamente assistido. Pode bem ser que a maioria dos americanos
esteja iludida e que o melhor caminho para chegar à morte com dignidade seja
promover cuidados paliativos e cuidados continuados – especialmente para grupos
que não têm acesso a cuidados integrados. Aliás, realmente, para todos nós.
Brittany
e pelo menos 859 outros doentes terminais no Oregon escolheram, nos últimos
cerca de 15 anos, uma via diferente para as suas mortes. Mesmo no Oregon continua a ser
uma hipótese remota, afetando apenas cerca de 3 mortes em 1000. Não os condeno
nem os seus médicos assistentes. A condenação não nos leva a nada de bom.
Exorto antes a um diálogo ético respeitoso e refletido.
Defendo um
melhor planeamento de cuidados avançados, conversas sobre fim de vida mais precoces
entre doentes e os seus médicos, assim como debates mais firmes sobre os
objetivos dos cuidados em contextos de crises de saúde. Parece que são
necessários mais financiamentos públicos de modo a treinar mais médicos de
cuidados paliativos e de unidades de cuidados continuados [hospice]. É necessária mais investigação,
e mais financiamento para investigação, para se avaliar mais rigorosamente os
atuais cuidados prestados a doentes que estão a morrer.
Esta parece-me
a melhor via para a morte com dignidade, não só na nossa terra como em qualquer
lugar.
E a si, que
lhe parece?
06 janeiro 2016
Teoria ética e bioética
James Rachels
Capítulo 2 do livro A Companion to Bioethics (páginas
15-23)
Editado por Helga Kuhse e Peter Singer,
Blackwell Publishers. Oxford, 2001.
Blackwell Companions to Philosophy
ver tradução completa AQUI
03 janeiro 2016
Adeus e felicidades!
Adeus e felicidades! Gillian Bennett (*)
Tradução do depoimento Good bye & Good Luck!
18 de agosto de 2014 – A minha vida vai acabar hoje por volta de meio-dia. É a
hora. A demência está a tomar conta de mim e estou quase a perder. Estou quase
perdida mesmo com Jonathan, o mais firme e mais luminoso dos homens, ao meu
lado como testemunha amorosa.
Percebi que tenho demência, uma perda progressiva de
memória e de raciocínio, há cerca de três anos. É uma doença furtiva, obstinada
e muito conhecida. Preferia ter uma enfermidade bizarra com um nome muito
sonante, mas o que tenho é inteiramente banal. Acho que esta é uma doença muito
aborrecida e, apesar de a minha família ser tão gentil e bem-educada, estou
ciente de como eles a acham chata também. E é tão pesada para o meu marido,
Jonathan. Acho que só meu querido gato ainda não reparou, mas não tenho certeza
disso.
A demência não dá descanso e não admite discussões. A
investigação diz-nos que é uma “doença silenciosa” que se pode esconder durante
anos ou mesmo décadas antes de seus sintomas se tornarem óbvios. Gradualmente
no início, muito mais rapidamente depois, e eis-me transformada num vegetal. É
difícil lembrar-me se a minha neta chega daqui a três dias ou hoje. “Onde está
X?” (o café / a batedeira / a tecla de apagar no meu teclado / o livro que
estava a ler), estou sempre a perguntar. Tenho constantemente de verificar o
que digo para ver se não faço asneira.
Há um momento, no decurso da demência, em que se não é
mais capaz de tratar dos próprios assuntos. Espero que me possa aperceber da
situação ou consiga pôr termo à minha vida. Vai chegar o momento em que
simplesmente tenho de decidir perante a deterioração da minha saúde física. Não
gosto de hospitais – são locais sujos. Qualquer médico nos dirá que fiquemos
longe deles desde que possamos. Eu não quereria que uma queda, um acidente
vascular cerebral ou uma qualquer complicação imprevista atrapalhasse a minha
decisão de gastar o menos possível ao meu país nos meus anos de declínio.
Compreendam que não estou a desistir de nada por cometer
suicídio. Tudo o que perco é um número indeterminado de anos como vegetal num
ambiente hospitalar, a gastar o dinheiro do país mas sem ter a mínima ideia de
quem eu sou.
Cada um de nós é único ao nascer e ao morrer. Penso o
morrer como uma aventura final com um final previsível e abrupto. Sei quando é
hora de partir e isso não me assusta.
Há tantas coisas que nos preocupam durante a vida. Parece
que temos necessidade de fazer as coisas certas. Devemos levar uma garrafa de
vinho ou algumas flores para a festa? Visto uns jeans e calço as botas novas ou isso é demasiado informal? Como
hei de encontrar uma nova companhia?
Não falamos muito sobre a forma como vamos morrer.
Enfrentar a morte é, apesar disso, bastante interessante e desafiante. Tenho
escolhas sobre que meditei – algumas acolhi, outras rejeitei. Penso ter
encontrado a escolha certa para mim.
Falei sobre isso com amigos e familiares. Não é um tema
proibido. Antes pelo contrário.
***
Cada dia que passa perco pedaços de mim e é óbvio que
caminho em direção ao ponto onde todos os doentes com demência acabam por
chegar: não saber quem sou e necessitada de cuidados a tempo inteiro. Sei,
enquanto escrevo estas palavras, que dentro de seis ou nove ou doze meses, eu,
Gillian, já não estarei aqui. O que farão com o meu corpo? Ele estará
fisicamente vivo mas não haverá ninguém no seu interior.
Fiz o meu trabalho de casa. Estudei as minhas opções:
Ter cuidados que tratem do meu corpo sem mente. Isto
implica dificuldades financeiras para os que vêm depois de mim ou envolvê-los
numa freima aparentemente interminável de tarefas que poderá perturbar ainda
mais as suas recordações de mim.
1. Pedir qualquer tipo de cuidado que o governo possa
prestar. (Os serviços vão acolher o meu marido, filhos, netos, nas visitas em
que muitas vezes agradecerão aos profissionais quão bem olham pelo meu corpo.
Ainda bem, mas não é o que desejo à minha família.)
2. Terminar a minha própria vida tomando os barbitúricos
adequados antes que a minha mente totalmente se desvaneça. Eticamente,
parece-me a coisa certa a fazer.
Posso viver ou vegetar talvez uns dez anos no hospital a
expensas do Canadá, custando qualquer coisa entre 50.000 e 75.000 dólares por
ano. Mas isto é só o princípio do erro. Os enfermeiros, que pensam ingressar
numa carreira que tinha grande significado, acabam a mudar-me eternamente as
fraldas e a registar as mudanças físicas de uma carcaça vazia. É ridículo,
supérfluo e injusto.
Os meus familiares, que são todos racionais e também
divertidos, não irão visitar-me no hospital, porque sabem que eu não o quero.
***
O mundo está pressionado pelo envelhecimento da
população. Estamos a viver mais tempo e a nossa esperança de vida continuam a
crescer. Em 2045, a proporção de cidadãos em idade de trabalhar face aos seus
dependentes idosos tornar-se-á cada vez mais onerosa em quase todo o mundo. No
Canadá e nos EUA, é esperado haver dezasseis trabalhadores por cada dez idosos
dependentes. É um desastre social e económico.
É assim mesmo que a maioria das pessoas diga que gostaria
de viver 90, 100 anos ou mesmo mais.
Há muitas questões éticas aqui: o prolongamento da vida
altera radicalmente a noção que as pessoas têm do que é um ser humano – e não
no melhor sentido. Como nós, os mais idosos, são submetidos a múltiplas
operações e degradam-se numa cama de hospital, enquanto os nossos netos veem
drasticamente esmagadas as suas oportunidades de escolaridade ou de educação
física e cultural.
O cerne do problema é aritmético: o Estado Social do após
II Guerra Mundial, criado quando os frutos da explosão demográfica ainda
estavam na barriga das suas mães, está construído sobre um esquema geracional
de tipo pirâmide. Com a expectativa de vida a aumentar e as taxas de natalidade
a baixar, a pirâmide populacional está a ficar invertida e em alguns países
está a provocar a ruína da economia.
***
Toda a gente mentalmente capaz, por volta dos cinquenta
anos de idade, devia fazer um Testamento Vital onde estabelecesse como deseja
morrer, as circunstâncias em que não deseja ser reanimado, etc. E acrescentar
uma declaração em que diga: “Se estiver doente e frágil, com uma pneumonia ou
outra infeção, não tentem restaurar-me a vida com antibióticos. Peço que me
deixem partir. Não dou a quaisquer familiares, ou a quaisquer médicos ou
psiquiatras, o direito de se oporem a esta decisão.” Os médicos assistentes,
clínicos gerais, deveriam ter uma cópia deste documento.
Legalmente, todos deviam ter a obrigação de fazer um
testamento que seja guardado eletronicamente, não possa ser apagado e fique
disponível automaticamente para qualquer hospital no mundo.
E se uma pessoa se recusar a fazer um testamento? Deveria
haver um testamento de recurso que se aplicasse a quem não cumpriu o seu dever
cívico. Não tenho todas as respostas, mas acho que estou a levantar questões
que precisam de ser levantadas.
Três grandes instituições – a profissão médica, a lei e a
Igreja – contestam e contrariam qualquer mudança transformadora. Mesmo assim,
todos nós ouvimos falar de alterações em cada uma delas que sugerem uma
abordagem empática mais ampla, orientada e informada. Espero que todas essas
instituições continuem a transformar-se e que a profissão médica permita,
segundo protocolos exigentes e apropriados, a administração de uma dose letal
que acabe com o sofrimento de um paciente terminal, de acordo com a sua vontade
antecipadamente manifestada.
***
A vida parece um pouco como uma festa onde fui parar. No
início, eu estava envergonhada e desajeitada e não conhecia as regras. Tinha
medo de fazer coisas erradas. Depois percebi que estava lá para me divertir e
não sabia o que fazer. Alguém simpático falou comigo e fez-me rir. Comecei a
perceber que realmente tinha de ter as minhas próprias regras e de viver com
elas.
Apercebi-me que precisava de saber quando sair e é agora.
Todos os membros da minha família imediata estão em
Vancouver: filha, filho, duas netas e quatro netos. Todos sabem que é
importante para mim não me tornar uma sobrecarga para eles ou para o Canadá.
Debati a minha situação com todos eles. Na nossa família reconhece-se a
qualquer adulto o direito de tomar as suas próprias decisões.
Caso alguém seja tentado a pensar que tenho de ter
coragem para acabar comigo, quero que saibam que sou uma grande chorona. Tenho
muito medo de ficar sozinha no escuro. Assusto-me com qualquer coisa. Não quero
morrer sozinha. Se o meu gato estivesse a fraquejar do mesmo modo que eu,
gostava de misturar alguns comprimidos para dormir num prato de carne da boa e,
quando estiver bem sonolento, levá-lo amorosamente para o jardim e fazer o
resto. Quem quer morrer rodeado por estranhos, mesmo sob cuidados competentes e
excelentes?
Tive um marido incomparável e filhos e netos que me
superaram largamente. Desde os sete anos tenho amigos maravilhosos, que adorei
e ainda adoro.
Tudo isto é muito mais difícil para o Jonathan do que
devia ser e não queria que ele tivesse de ficar sozinho junto do corpo da sua
esposa. A lei canadiana considera crime que qualquer pessoa ajude outra a
cometer suicídio, por isso Jonathan de modo algum vai ajudar. Os nossos filhos,
Sara e Guy, de bom grado ficarão com o seu pai, mas as leis são o que são e não
os vamos pôr em risco.
Hoje, agora, vou contente e agradecida para essa noite
boa. Jonathan, corajoso, dedicado, autêntico e amoroso, abraça-me com a sua
presença. Não preciso de mais.
É quase meio-dia.
(*) Gillian
Bennett, cujo apelido de solteira era Quentin-Baxter, nasceu em 1930 em
Christchurch, Nova Zelândia. Em Canterbury University, namorou com Jonathan
Bennett, colega como estudante de Filosofia. Em 1954, Gillian recebeu uma bolsa
para estudar em Bona, Alemanha. Jonathan e Gillian casaram em Cambridge,
Inglaterra, em 1957. A Nova Zelândia é um país de beleza selvagem e
profundidade infinita. Muitas vezes tiverem vontade de lá voltar mas, desde
cedo, aceitaram o que as suas carreiras determinaram e o regresso foi sempre
adiado. “Like a toi toi arrow
shot in the air. Never no more. Never no more.” Nos quarenta anos seguintes, Gillian e Jonathan viveram
em Cambridge (Inglaterra), Vancouver (Canadá) e Siracusa (EUA). Em Siracusa,
Gillian fez formação como psicanalista e depois exerceu e ensinou terapia de
grupo e individual. Os principais mentores de Gillian foram Richard Erskine e
Rebecca Trautmann. Em 1996, Gillian e Jonathan, depois de aposentados, foram
para Bowen Island, perto da costa da Colúmbia Britânica. Tiveram dois filhos,
seis netos e dois bisnetos, felizmente todos bem-sucedidos. Gillian Bennett pôs
termo à vida às 11 horas do dia 18 de agosto de 2014.
30 dezembro 2015
Entrevista a David S. Oderberg
Xavier Symons: Na sua opinião, quais são os principais
conceitos filosóficos que os bioeticistas tendem a entender mal?
David S. Oderberg: Há
muitos mal-entendidos na indústria bioética (porque tem algo de indústria),
embora prefira chamar-lhes simplesmente erros ou confusões. Não creio que a
maioria dos bioeticistas não compreenda aquilo em que acredita ou que recomenda
nas suas posições, pois a maioria tem uma agenda óbvia, a qual consiste em acabar
com tantos “tabus” quanto possível, isto é, proibições tradicionais do bom
senso.
Muitas vezes, os fins justificam os meios na medida em
que os bioeticistas hão de usar qualquer argumento que tenham à mão, seja bom,
mau ou indiferente, para cumprir uma agenda predefinida. Nesse sentido, suponho
que se pode dizer que eles entendem mal que a função do argumento, ou seja
alcançar a verdade, não é chegar a uma posição previamente adotada.
Lembro-me de ter lido, há alguns anos, um relatório da
Autoridade Britânica para a Fertilização Humana e o Embrião, produzida por uma
mão-cheia de bioeticistas e dedicada a defender a experimentação com embriões humanos.
No relatório era muito claro que os autores (muitos dos quais nunca tinha
ouvido dizer que fossem filósofos de profissão) pretendiam recomendar ao
governo, como moralmente permissível, a experimentação com embriões e onde
usavam qualquer argumento ou “teoria” para a defender essa recomendação.
O resultado era um pouco de kantismo numa página, de
utilitarismo noutra, de teoria das virtudes mais adiante e um pouco de tudo e
mais alguma coisa de pensamento filosófico, sendo que a maioria era totalmente
incompatível entre si, tudo misturado para alcançar uma conclusão supostamente
racional que, inevitavelmente, não era mais do que um “tudo bem” à
experimentação com embriões, desde que haja cuidado.
Num nível mais conceptual, tenho visto várias confusões
significativas que aparecem recorrentemente. Uma é entre “matar” a doença e
matar o doente, como que pudéssemos curar uma pessoa do seu problema eliminando
a pessoa, por ex., pôr fim a uma dor, pondo fim ao doente. Pode fazer-se isso,
assim como se pode acabar com uma dor de cabeça degolando a pessoa. Mas não
pode chamar-se a isso curar ou cuidar de alguém, que são os deveres primordiais
dos profissionais de saúde.
Se os bioeticistas pensam que podem “curar” alguém dos
seus padecimentos pela eutanásia, então não estão realmente interessados na
cura (ou cuidado), mas em algum outro objetivo.
Isso faz-me pensar na confusão entre o que é bom para uma
pessoa e o que é bom para outrem, seja a sua família, a comunidade ou a
sociedade no seu todo. Dado que cuidar e curar são os deveres primordiais da
medicina e dos cuidados de saúde em geral, o que é melhor para alguém que não o
doente nunca pode ser o objetivo primordial do profissional de saúde enquanto
profissional de saúde.
A ideia de que um doente pode ser um “encargo” para a
sociedade, a sua existência “perturbadora” da sua família ou a sua provação uma
“avaria” do sistema de saúde, nunca pode prevalecer sobre o primordial dever de
cuidar, o que significa proteger o doente e curá-lo quando possível, ou então
dar tanto conforto quanto possível. Infelizmente, sob a influência malévola da
indústria da bioética, há demasiados doentes que são vistos como mercadorias ou
unidades de produção (não encontro tremo melhor) do sistema, tudo menos
indivíduos com direito à vida, a cuidados e à dignidade.
Se tivesse de escolher uma última confusão entre muitas,
seria a medicalização deliberada dos deveres normais de cuidar. O exemplo
clássico é a “hidratação e alimentação artificiais”, em tempos chamada comida e
água. Afinal, dar de comer a quem fome e de beber a quem tem sede era um bom e
antiquado dever humano. Mas desde que os bioeticistas e os seus crentes
colocados na política, na economia e na lei, o medicalizaram – na verdade, desde
que se tornou na sigla HAA – este simples dever humano escondeu-se num jargão e
assim podem debater friamente a “interrupção de HAA”, como se fosse um
procedimento médico e não um mero jejum.
Encontra-se o mesmo tipo de distanciamento no uso de
termos como “feto”, “conceptus”, “término”,
“eutanásia”, “estado vegetativo”, etc. A história está cheia de exemplos.
XS: Como relaciona a área da bioética com a da filosofia
moral?
Oderberg: Não há
bioética sem filosofia moral. A bioética não é mais do que a aplicação grosso
modo da filosofia moral, ou ética, aos problemas da vida e da
morte. Nesse sentido, não se pode conceber a bioética como uma disciplina
autónoma com os seus próprios peritos em princípios bioéticos sui
generis.
Sim, para ser bioeticista é preciso ter conhecimentos em
filosofia moral (algo que muito bioeticistas não têm) e domínio dos assuntos
médicos, científicos e técnicos específicos sobre que se pronunciem. De
preferência, deve ter experiência próxima desses assuntos e não ter uma mera “experiência”
de torre de marfim.
Para ser bioeticista, então, é preciso ser um filósofo
moral e para ser um filósofo moral é preciso ser um filósofo, capaz de
distinguir os bons dos maus argumentos, de separar pensamento justificado de
novidade, moda, pressão social, preconceito e políticas governamentais.
E para ser filósofo é preciso ser um ser humano, com
preocupações humanas, amor pelo próximo, preocupação pela sociedade e seu
futuro e, o que é o mais raro recurso, bom senso. Por outras palavras, a
bioética não é o que se faz quando se arranja um emprego na filosofia “real” e
se pode obter grandes verbas de fundações e grupos de reflexão [think
tanks].
XS: Que tipo de nova contribuição poderia resultar para a
bioética da chamada “abordagem da lei natural”?
Oderberg: Bem, a
bioética da lei natural não está bem desenvolvida, apesar de ser parcialmente
defendida em alguns círculos. Digamos que ser pró-vida não implica ser um
bioeticista da lei natural. Tão pouco preocupar-se com os desenvolvimentos
sinistros da biotecnologia ou com a “cultura da morte”.
Ser um bioeticista da lei natural significa ter um
conhecimento profundo de, e respeitar, a tradição de pensamento que vem dos
antigos Gregos e Romanos e que realça o papel que a natureza tem na orientação
da moralidade. Só sofistas ignorantes pensam que a ética da lei natural
significa que tudo o que é natural é bom ou certo e que tudo o que não é
natural é mau e errado. Pelo contrário, é sobre identificar o que cumpre à
nossa natureza humana, faz-nos ser o que é suposto sermos de acordo com a nossa
natureza de criaturas racionais, corpóreas, contudo finitas.
Penso que podemos estar certos de que, no que se refere
ao cumprimento da nossa natureza, ser assassinado geralmente não ajuda. Assim,
os ataques a vidas inocentes – vidas inocentes, não à vida dos que podiam
perder o ser direito devido aos danos causados a outros – estão proibidos pela
lei natural, independentemente de outras considerações.
Ainda estou para ver um bom argumento para sustentar que
a vida em si não é senão um meio para atingir outros bens e portanto perde o
seu valor quando alguém, digamos, está em coma ou estado vegetativo
persistente.
Quando chegamos a tópicos como a engenharia genética,
mães de substituição, “melhoramento” humano ou qualquer outro tema bioético e a
tecnologia se mostra perante os media, o que é
preciso é ter à mão uma análise cuidadosa e refinada da lei natural. A
orientação tem de vir do que é bom para a natureza humana individual e para a
natureza humana de grupos como a família, comunidade e Estado. Mas o que é bom
para um grupo de humanos depende totalmente do que mais propício à realização
de todos e de cada indivíduo, pelo que sacrificar uma vida inocente para
benefício de outros é errado. O que é bom para o grupo não é o mesmo que o “melhor
resultado” de uma ponderação utilitária ou consequencialista dos bons e maus
efeitos de alguns comportamentos.
Nesse contexto, a teoria da lei natural não pode e não
tem de trabalhar no vácuo: tem de estar informada por trabalho empírico
credível e autêntico sobre a natureza humana e o bem comum, tudo
contrabalançado pelo bom senso. Para dar um exemplo, a automutilação que dá
pelo nome de “cirurgia estética”, quando se não destina a remediar um defeito
que impede a função natural do corpo humano (e talvez também funções humanas
naturais como a amizade e as relações sociais), é muito provavelmente
moralmente errada em qualquer caso.
Hoje, não é isso que faz uma coisa ser “antinatural”, em
sentido lato, mas aquilo que é, só por si, uma inversão antinatural da devida
hierarquia dos valores humanos: a elevação do aperfeiçoamento corporal acima da
aceitação da inevitável imperfeição própria do tipo de criatura que somos – pôr
o bem corporal acima do chamado bem psíquico.
XS: Um conjunto de eticistas católicos (Grisez, Finnis,
George) tentou aplicar uma Nova Teoria da Lei Natural aos modernos problemas da
bioética. Concorda com a abordagem da Nova Lei Natural?
Oderberg: Bem, no geral
não estou de acordo com a abordagem, mas concordo com muitas das posições
éticas, embora nem todas (nem eles defendem todos as mesmas posições éticas). A
abordagem da “nova lei natural” surgiu da revolução cultural dos anos 60,
quando alguns filósofos católicos, considerando muitas das posições contemporâneas
e não-tradicionais de então (muitas das quais persistem), decidiram que a
antiquada metafísica aristotélica-tomista já não “servia” para nada.
Nós, os modernos, por outras palavras, poderíamos ver nas
conceções de Aristóteles e Tomás de Aquino (e seus seguidores) e nos seus “preconceitos”
metafísicos, a perspetiva de que realmente existe uma coisa chamada natureza humana,
e que da natureza humana se pode filosoficamente defender um sistema ético.
Assim, a metafísica da natureza humana, assim como tudo o que a acompanha, foi
lançada pela janela a favor de um foco no ponto de vista subjetivo, da primeira
pessoa, na perspetiva do agente que pensa sobre o que fazer e sobre o que é bom
ou mau.
Ora, como que por milagre, os teóricos da Nova Lei
Natural conseguiram, pelo seu método completamente novo e até aí desconhecido,
chegar a um conjunto de posições largamente coincidentes com as que pretendiam
afirmar. Mesmo assim, tanto quanto posso dizer, as únicas vezes em que pareciam
ter uma posição assente num argumento inatacável e talvez plausível foi quando
aparentemente recorreram à tal metafísica “desatualizada” que pretendiam
condenar.
Assim, a meu ver, o projeto da Nova Lei Natural é, sempre
foi, um falhanço: nunca por nunca persuadiu os bioeticistas liberais a
abandonar uma única das suas posições, seja sobre aborto, eutanásia,
maternidade de substituição, “casamento homossexual”, ou outra qualquer.
Note-se que eu não digo que a abordagem tradicional, metafisicamente orientada,
seja, psicologicamente falando, mais fácil para convencer os bioeticistas
liberais; mas penso que é a única que, intelectualmente falando, dá alguma
esperança de o fazer.
XS: Como vê, nas próximas décadas, o rumo da bioética?
Oderberg: Bem, não
seguirá uma direção nova e maravilhosa em que a ciência e a tecnologia sejam
postas no seu lugar e os valores humanos autênticos voltem a dominar, em que a
sociedade e o governo apenas permitam crescimentos que genuinamente beneficiem
os indivíduos e o bem comum. De facto, as minhas previsões são bastante apocalípticas
a esse respeito, mas não quero ir por aí.
O que digo é que o futuro da bioética está fortemente
ligado ao futuro da sociedade (ou sociedades). Não é de esperar que os
bioeticistas assumam a liderança da recuperação da sanidade de uma sociedade
que no restante está louca. De facto, não espero que os filósofos o façam.
São as forças culturais que dirigem os desenvolvimentos
futuros e, apesar de ser verdade que os bioeticistas têm estado na vanguarda,
eles não são os seus condutores. Temos de olhar para a sociedade num sentido
mais amplo: para onde vai? Como será, digamos, daqui a trinta anos? Responda-se
a esta pergunta e saberemos o que será a bioética.
Estou mais do que ligeiramente preocupado, embora mais
por causa dos meus filhos do que por mim. Se todos mantiverem os seus filhos a
salvo dos efeitos da lavagem ao cérebro dos media e dos amplificadores biotecnológicos (como lhes chama o
grande Wesley Smith), a bioética acabará por se mostrar muito diferente.
A Saúde em tempo de crise
A saúde em tempo de crise (um diálogo do autor consigo mesmo)
in Sobre Saúde, pp. 191-6, ed. APASD, Universidade Fernando Pessoa (2015)
– Afinal o racionamento e ou não é justo?
– Sabes, todas as perguntas podem ter várias respostas.
– Dependem do contexto, claro.
– Não te esqueças que quem quer polemizar costuma usar
apenas uma face ou um aspeto da questão e, focando-se só nisso, tenta
argumentar escamoteando outras perspetivas. Todas as questões podem ser analisadas
de vários ângulos.
– No “caso do racionamento” trata-se, essencialmente, de
saber, havendo poucos recursos, como se deve fazer para que o acesso a cuidados
de saúde respeite o princípio da justiça.
– O problema é um pouco mais vasto e pode ser visto
respondendo a seguinte pergunta: sendo a saúde das pessoas um bem que importa
promover e os cuidados de saúde prestados (e/ou pagos) pelo Estado de acordo
com as necessidades dos cidadãos, como garantir que todos tem acesso aos
melhores cuidados se não há verba para os custear?
– Está bem, mas o princípio da justiça diz isso mesmo (Beauchamp,
TL and Childress, JF. Principles
of Biomedical Ethics. 4th ed, Oxford University Press, 1994): se os recursos são limitados (e são-no
sempre), podem/devem adotar-se medidas cuja aplicação não discrimine com base em
condicionalismos que não dependem da vontade das pessoas.
– A que te referes?
– É injusto que certos cuidados de saúde dispendiosos só
sejam prestados a pessoas que tem maior capacidade económica, por exemplo. É insustentável
que se faca depender a comparticipação estatal nos custos de certos fármacos da
etnia do doente, da sua idade ou mesmo da área da sua residência. É uma questão de equidade. (Daniels, N. Equity and population
health – Toward a broader Bioethics Agenda. Hastings Center Report 36, 2006 Jul-Aug:
22-35)
– Esses exemplos parecem óbvios, sobretudo nos tempos
atuais e numa sociedade democrática. Deixa-me usar outro exemplo. É justo que
se gastem avultadas verbas no tratamento de pessoas que não zelam pela sua própria
saúde, causando dificuldades orçamentais a outros programas destinados, por
exemplo, a vítimas de epidemias ou catástrofes naturais?
– Compreendo que essa é uma questão de difícil resposta,
mas, do modo como a apresentas, parece que estás a sugerir que pode
justificar-se um Estado policial que, antes de tratar quem precisa, classifica
o doente de acordo com o grau de culpa pelas suas doenças. Seria um Estado
moralista, higiénico e até eugénico com consequências que podemos antever
perigosas e, portanto, injustas à partida.
– Mas se não há dinheiro...
– Se não há dinheiro, o que importa é encontrar um
sistema que assegure que as decisões, pois tem de haver decisões por mais difíceis
ou impopulares, sejam as mais justas que é possível.
– Lá vem a conversa da transparência…
– Absolutamente. Essa é uma condição prévia essencial. As
decisões que aparecem do nada são, naturalmente, suspeitas, mesmo que sejam
boas. O simples facto de ser pública a identidade de quem decide, bem como as
razões por que assim se decide, condiciona positivamente a qualidade da decisão.
Mas não basta que o processo de decisão seja transparente…
– Pois, pode haver malvadez transparente e não deixa de
ser malvadez…
– É. A outra condição que ajuda a que se tomem medidas
justas é a existência de regras previamente conhecidas e que seja possível
verificar se foram seguidas.
– Referes-te ao oposto da arbitrariedade?
– Exatamente. Quando um decisor, quer a título individual
ou quer o consideremos como uma entidade (como por exemplo uma comissão de farmácia
hospitalar), opta por um ou por outro fármaco que é necessário disponibilizar
na sua instituição, é forçoso que o faça de acordo com normativos
estabelecidos, legitimamente aprovados e consensualmente aceites. E o primado
da publicidade e da previsibilidade. Há de ser assim que devem fixar-se as
prioridades, os critérios de admissão a certos tratamentos. E que, sendo conhecidos
e fundamentados, não estão feridos de caráter discriminatório – se estiverem
estabelecidos quais os critérios clínicos para as listas de espera de
transplantes, por exemplo, todos compreenderão que não é só a data de inscrição
que conta. Ou, noutro exemplo, não há óbice ético considerar-se que, para colocação
de pontes coronárias, os não fumadores tenham prioridade quando haja igualdade
de outras circunstâncias.
– Então, se há normas, não são precisas comissões –
apliquem-se as normas…
– Não te esqueças que as normas, por mais perfeitas que
sejam, nunca preveem todas as situações e há sempre escolhas a fazer. Não há só
branco e preto, como se costuma dizer. E ainda bem que é assim. Aliás, as
normas, que são adotadas em abstrato para serem aplicadas em concreto,
devem/deveriam ter sempre uma cláusula que permita que, desde que devidamente
fundamentadas, possa haver exceções.
– Mas isso está a um passo da arbitrariedade.
– Não, arbitrárias são as decisões que se tomam sem explicações.
Falamos de razoabilidade (Mitton, CR et al. Centralized
drug review processes: Are they fair? Soc Sci Med. 2006, Jul;63(1):200-11) ou de bom senso, se quiseres.
– E não temes que se abuse do recurso a exceção?
– Pode acontecer, mas chamo a tua atenção para uma outra condição-base para que o princípio da justiça seja respeitado. Refiro-me a
responsabilidade.
– Responsabilidade? Não estou a perceber. Ouço
frequentemente que uma coisa boa e a preservar é os juízes serem irresponsáveis
quando decidem.
– Não confundas! Claro que todos os juízes tem de ter
toda a liberdade para decidir, em sua consciência, o teor das sentenças
proferidas e não podem ser responsabilizados pelas consequências das suas condenações
ou absolvições. Embora, claro, se possam enganar e haja o direito de recurso. A
responsabilidade a que me estava a referir não é do mesmo tipo, pois, quando alguém
decide, a título de exceção, sobre um tratamento que custa milhares de euros
por mês para ser usado numa determinada situação clínica (Bach,
PB et al.
In
Cancer Care, Cost Matters. The New
York Times, 2012, Out) mas, afinal, há um consenso científico que considera
haver uma opção francamente mais barata e igualmente eficaz, o responsável por
essa decisão tem de prestar contas.
– Accountability
– e o
que queres dizer?
– É isso, mas a palavra portuguesa é também
responsabilidade. Os defensores da independência técnica dos prestadores, que é
uma coisa boa em si mesma, não o podem/não o devem fazer, esquecendo a correspondente
responsabilidade.
– Estás a dizer que um médico que invoca uma exceção e
fundamenta mal a decisão deve ser punido?
– Não excluo essa hipótese mas não te esqueças que o
mesmo se aplica também a quem redija as tais normas orientadoras. Todos temos
de responder pelas nossas decisões. Por outro lado, as punições em sede de apuramento
de responsabilidade disciplinar profissional tem muitas cambiantes. Desde logo
pode nem haver processos disciplinares para falarmos em prestação de contas – é o caso das chamadas de atenção próprias das hierarquias técnicas.
– Essas regras ou normas de que falas são muitas vezes
consideradas limitadoras da liberdade técnica. Há quem receie que juízes,
inspetores ou instrutores de processos de averiguações, ou mesmo jornalistas, considerem
sempre que é errado tudo que não esteja contemplado nas normas, contribuindo
assim para que os prescritores se tornem acríticos e as apliquem cegamente.
– É por essas e outras que se costuma dizer que isto não é fácil. Quem escolheu ser profissional de saúde – médico, enfermeiro, psicólogo
ou qualquer outro – pensando que não tinha de, constantemente e para o resto
das suas vidas, estar sempre a tomar decisões difíceis enganou-se.
– Esta conversa está interessante mas ainda não te
referiste abertamente ao polémico Parecer n.º 64 do Conselho Nacional de Ética
para as Ciências da Vida que dizem que aprova o racionamento em saúde. (Parecer
sobre um modelo de deliberação para financiamento do custo dos medicamentos, Parecer
n.º 64/CNECV/2012)
– Esse Parecer foi, de facto, centro de uma polémica
acesa mas felizmente, como sempre, as coisas acalmaram e, fora do “barulho das
luzes”, começa a emergir racionalidade onde ela faltou. O que o Parecer apontou
foi um modelo de apoio a decisões justas em matéria de escolhas difíceis.
– Mas não era sobre as compras de medicamentos inovadores
em oncologia e outras doenças crónicas?
– Era mas não foi. Tudo começou com um pedido do Ministro
da Saude (o CNECV é um órgão criado exatamente para responder a perguntas dos órgãos
de soberania). Sabia-se que 14 hospitais públicos tinham decidido juntar esforços
para reduzir custos na compra de certos medicamentos e que acordaram numa lista
que passaria a conter os únicos medicamentos que os respetivos conselhos de administração
admitiam poderem ser prescritos nas suas instituições.
– A pergunta do Ministro da Saude era para saber se essa decisão
estava eticamente sustentada já que acreditava que favorecia a sustentabilidade
económica do Serviço Nacional de Saúde.
– Exatamente. Contudo, o CNECV não conseguiu em tempo útil
conhecer os fundamentos das escolhas terapêuticas adotadas pelos 14 hospitais.
Decidiu, em alternativa a uma apreciação desses fundamentos, redigir uma
proposta de modelo ético para a decisão. Considerou que, a ser seguido o modelo
proposto, se garantia a justiça das medidas. Considerou, na sua perspetiva, que
as administrações hospitalares, no exercício dos seus poderes de gestão,
podiam/deviam fazer escolhas responsáveis desde que fossem transparentes,
baseadas em pareceres técnicos conhecidos e publicitados, elaborados por
pessoas conhecidas e sem conflitos de interesse. Tais escolhas deveriam, em última
análise, incidir sobre os “mais baratos dos melhores” fármacos em presença no mercado e não sobre os “melhores dos mais baratos”.
– Esse modelo recebeu elogios de gestores hospitalares, não
foi?
– Foi. Ao contrário dos mais altos responsáveis da Ordem
dos Médicos, os gestores hospitalares que se pronunciaram consideraram que a
proposta do CNECV deveria ser seguida.
– Tanto quanto me lembro, a Ordem dos Médicos não só
contestou o modelo, como o considerou perverso, de tal modo que ainda se falou
em averiguar se os membros médicos do CNECV deveriam ser alvo de procedimento
disciplinar para que respondessem pelas suas opiniões. (Conselho
Nacional Executivo da Ordem dos Médicos, Nota
informativa do CNE sobre o parecer 64/2012 do CNECV.
Revista da Ordem dos Médicos, 2012 Out; 134: 57-58 // Silva, JM. A ética teoriza-se, mas também se deve praticar! Revista
da Ordem do Médicos, 2013 Jan-Fev;137:6-9)
– O CNECV reagiu a essas apreciações mas efetivamente não
alcançou o mesmo impacto publico que os seus críticos. As ameaças de perseguição
por delito de opinião acabaram esquecidas e os argumentos ficaram com quem os
enunciou.
– Mas o Parecer defendia o racionamento?
– Quem o ler com isenção e livre de julgamentos
preconceituosos verá que não trata de defender o racionamento. A referência a
esse termo vem a propósito de se considerar que o racionamento, se tiver de ocorrer,
deve ser explicito e não implícito. Explicito e “transparente, em diálogo com os cidadãos que
devem ser informados (porque nada substitui a
participação democrática), que mantenha intacta a confiança dos doentes nos profissionais de saúde e no SNS e maximize a
responsabilidade dos decisores”. A tónica do Parecer é contra o “racionamento” no
sentido aviltante de sistema de distribuição de recursos que afeta a todos
independentemente das suas condições. Tudo no Parecer é a favor de um sistema
racional, adaptativo, fundamentado técnica e cientificamente e… transparente (Tilburt,
JC and Cassel, CK. Why the ethics of parsimonious
medicine is not the ethics of
rationing. JAMA. 2013 Jun 5;309(21):2212).
– Se os gestores apoiaram o modelo, quer dizerem que o
aplicam?
– Não estou certo disso. Na verdade, quando, meses depois
de aprovado o Parecer, se leram os critérios que os 14 hospitais assinaram, a
desapontamento foi grande. Não tinham fundamento técnico ou científico conhecido
ou publicitado, não se conheciam os seus autores ou interesses, não se
compreendia por que se escolheram certos fármacos e não outros, a não ser com
base no preço.
– Então, para ver se compreendo, nos hospitais públicos o
melhor tratamento é o que é posto a disposição de quem dele necessita? As restrições
orçamentais levam a que alguns não sejam tratados como deveriam ser? Havendo limitações,
as escolhas que se fazem tem sustentação ética? Há equidade face à idade, local
de residência, condição patológica?
– Não sei responder. Como no início deste diálogo imaginário,
dir-te-ei que todas as perguntas podem ter várias respostas.
– E não podes tentar dar algumas?
– Estou certo de que, de vários modos e por várias
razoes, haverá quem sofra na pele, melhor dizendo, na sua saúde, as consequências
da crise. Por mais que queiramos que isso não aconteça, muitas pessoas acabam por
não se tratar devidamente em consequência das dificuldades económicas que elas próprias
e as instituições atravessam. Admito que algumas instituições de saúde não
conseguem já dispor de meios suficientes para atender adequadamente a todas as
necessidades e daí só podem resultar iniquidades. Acredito, quero acreditar,
que algumas decisões, apesar de opacas, são as melhores mas este “sentimento” não
serve para as isentar da tal transparência, antes pelo contrário. Entendo que
um órgão consultivo como o CNECV não pode transformar-se num fiscal de boas
práticas já que lhe esta cometida “apenas” a função de dar opiniões. Contudo, não
poderá deixar de as dar mesmo que não lhas peçam ou nem sempre sejam seguidas
ou bem interpretadas. Nesta dinâmica multifatorial, em que tantas decisões se
interinfluenciam, não podemos esperar que todos compreendam todos. Apesar
disso, podemos esperar que todos procurem compreender todos. Seja como for,
convenhamos, há muito a fazer para alcançar melhorias no desempenho tanto das instituições
como dos profissionais individualmente considerados, quando falamos do real
respeito pela dignidade da pessoa doente e vulnerável. E, por maioria de razão,
tudo isto é especialmente importante em tempos de crise económica e social com
a dimensão da que estamos a viver em Portugal.





