Tradução espontânea para
distribuição sem fins lucrativos de partes do
Relatório da Alzheimer Europe sobre a Prevalência de Demência em 2025
[para ver o Relatório completo clicar AQUI]
1. Prefácio
É com grande satisfação que apresento este relatório, que mostra estimativas da prevalência do número de pessoas que vivem com demência na Europa.
A
Alzheimer Europe publicou pela última vez um relatório deste tipo em
2019 (sob a forma de um Anuário sobre a Demência na Europa), que previa que o
número de pessoas que vivem com demência duplicasse até 2050. Estes números
continuam a ser amplamente partilhados e citados, não só pelas nossas
organizações nacionais afiliadas, mas também pelos meios de comunicação social,
pelos círculos académicos e pelos governos nacionais.
No
decorrer desse período, ocorreram muitos factos que tiveram implicações
significativas tanto no panorama das políticas como no da investigação. Por
exemplo, a pandemia da COVID-19 teve um impacto devastador nos sistemas de
saúde e de assistência social, além de afetar desproporcionadamente as
populações mais idosas e as pessoas com problemas de saúde prévios, incluindo
as pessoas que vivem com demência. Os efeitos colaterais da pandemia,
particularmente nos serviços de saúde e assistência social, ainda são sentidos
muitos anos depois.
De
forma mais positiva, houve um progresso considerável no desenvolvimento de
tratamentos modificadores da doença de Alzheimer, trazendo esperança e
mostrando grande potencial para garantir que as pessoas com a doença tenham uma
melhor qualidade de vida por mais tempo. No entanto, sabemos, pelo nosso
trabalho noutras áreas, que os países não estão preparados para disponibilizar
estes novos tratamentos.
Como
tal, há uma necessidade evidente de rever as nossas estimativas de prevalência,
para garantir que os números utilizados no nosso trabalho estejam atualizados e
sejam precisos. Em particular, é essencial que as decisões políticas para
melhorar os serviços de cuidados, os investimentos em infraestruturas de saúde
para diagnóstico e tratamento, bem como o apoio às famílias, cuidadores e
apoiantes de pessoas com demência, sejam informadas por projeções exatas da
prevalência da demência.
A
Alzheimer Europe utilizará estes dados atualizados sobre a prevalência
no seu trabalho de defesa e capacitação, fundamentando as suas contribuições em
matéria de políticas a nível global, europeu e nacional.
O
nosso relatório:
- Mostra que o número de pessoas que vivem
com demência continuará a aumentar significativamente nos próximos anos.
- Aponta estimativas atualizadas das taxas
de prevalência, com base em informações de estudos comunitários, envolvendo
mais de 43 000 participantes.
- Destaca as alterações nas taxas de
prevalência específicas por idade, em comparação com as nossas estimativas de
2019.
Em
conjunto, estas conclusões reforçam a nossa mensagem de que a dimensão do
desafio colocado pela demência em toda a Europa é substancial e é impulsionada
pelo envelhecimento demográfico.
A
Alzheimer Europe espera que estes números atualizados incentivem os
decisores políticos, tanto a nível europeu como nacional, a dar prioridade à
demência, nos domínios da saúde, investigação, políticas para pessoas com
deficiência e apoio a cuidadores informais. O nosso Manifesto de Helsínquia
estabelece um plano de ação para estas áreas e instamos os decisores políticos
a darem ouvidos a estes apelos. Entre eles, destaca-se a necessidade de um
Plano de Ação Europeu sobre a Demência e de uma missão de investigação dedicada
à demência, ambos com financiamento específico, para coordenar estes esforços
em toda a Europa.
Por
fim, gostaria de agradecer a todos aqueles que nos aconselharam sobre a nossa
abordagem a este trabalho e que dedicaram o seu tempo a partilhar os seus dados
connosco para permitir que este trabalho fosse concluído. Gostaria também de
agradecer especificamente o trabalho de Lukas Duffner, responsável pelo
projeto; Owen Miller, responsável pelas políticas; Christophe Bintener,
responsável pelo projeto; e Angela Bradshaw, diretora de investigação, pelo seu
trabalho na compilação e redação deste relatório.
Jean Georges, Diretor Executivo, Alzheimer Europe
2.
Introdução
2.1. Contexto e objetivos desta
publicação
Em
2019, a Alzheimer Europe publicou o seu Anuário sobre a Demência na
Europa, que continha estimativas atualizadas sobre a prevalência da demência na
Europa. Este relatório baseia-se no trabalho realizado nas últimas três
décadas, incluindo:
- O estudo EURODEM no início dos anos 80
(atualizado em 2000)
- Projeto da Alzheimer Europe,
Colaboração Europeia sobre Demência – EuroCoDe (2006–2008)
- A 1.ª Ação Conjunta da UE sobre Demência
– ALCOVE (2011–2013).
O
relatório de 2019 seguiu a metodologia utilizada no projeto EuroCoDe, além de
utilizar dados populacionais das Projeções da População Mundial das Nações
Unidas, permitindo o fornecimento de estimativas por país para os anos de 2018,
2025 e 2050.
Esta publicação tornou-se um dos
relatórios mais citados da Alzheimer Europe e continua a ser utilizada
pelas nossas organizações afiliadas, investigadores e decisores políticos,
tanto a nível nacional como europeu. Nos anos que se seguiram ao lançamento do
relatório, a Alzheimer Europe recebeu vários pedidos de diferentes
partes interessadas para atualizar estes dados, para que pudessem ser
utilizados nos seus respetivos domínios.
2.2. Relevância no contexto político
europeu e internacional
Desde
a publicação do Anuário da Demência na Europa 2019, houve uma série de
acontecimentos com particular importância para as pessoas que vivem com
demência e os seus cuidadores. Entre eles, destaca-se a pandemia da COVID-19,
que afetou de forma desproporcionada as populações mais idosas, especialmente
as pessoas que vivem em instituições residenciais de longa permanência. Não só
as taxas de mortalidade desta população foram significativamente mais elevadas,
como o efeito em cadeia na esperança de vida europeia foi substancial.
Para
contextualizar, os dados do Eurostat mostram que a esperança de vida à nascença
na UE diminuiu em 2020 e 2021 devido à pandemia da COVID-19. No entanto, os
valores da esperança de vida recuperaram em 2023, atingindo 81,4 anos — valores
superiores aos de 2019 e os mais elevados registados desde 2002, refletindo um
aumento total da esperança de vida de 3,8 anos. Para as mulheres na UE, a
esperança de vida à nascença atingiu 84,0 anos em 2023 (um aumento de 0,7 em
comparação com 2022 e o mesmo valor de 2019). Para os homens, a esperança de
vida à nascença em 2023 era de 78,7 anos (+0,8 em comparação com 2022 e +0,2 em
comparação com 2019).
Além
disso, após um declínio em 2020 e 2021, a população da UE aumentou pelo segundo
ano consecutivo, passando de 447,6 milhões em 1 de janeiro de 2023 para 449,2
milhões de pessoas em 1 de janeiro de 2024. A variação natural negativa (ou
seja, um número maior de mortes do que nascimentos) foi compensada pela
migração líquida positiva. Este crescimento populacional pode ser atribuído em
grande parte ao aumento dos movimentos migratórios após a pandemia, bem como à
chegada de pessoas deslocadas da Ucrânia, que receberam o estatuto de proteção
temporária nos países da UE, em consequência da guerra de agressão russa
iniciada em fevereiro de 2022.
Como
o principal fator de risco para a demência é a idade, o aumento contínuo da
esperança de vida aumenta a probabilidade de mais pessoas desenvolverem a
doença. Além disso, em 2024, foi publicada uma atualização das Projeções da
População Mundial da ONU, revendo as estimativas populacionais nacionais, conforme
às mudanças ocorridas nos últimos anos. Assim, para garantir que os países
respondessem de forma adequada, surgiu uma boa oportunidade para a Alzheimer
Europe atualizar as suas estimativas de prevalência sobre o número de
pessoas com demência na Europa.
A
nível regional, nacional e internacional, o planeamento estratégico das
políticas de saúde e serviços sociais depende da estimativa precisa da dimensão
da população que será afetada. Da mesma forma, os nossos membros nacionais
devem estar cientes do número de pessoas nos seus países, para informarem as
suas atividades de sensibilização e apoiarem o envolvimento com os decisores
políticos. Em particular, é importante notar que um número considerável de
países na Europa não tem estratégias nacionais ativas para a demência ou outras
atividades políticas relevantes específicas para a demência. A este respeito, é
útil considerar que o Plano de Ação Global da Organização Mundial da Saúde
sobre a Resposta da Saúde Pública à Demência 2017-25 foi prorrogado até 2031 na
78.ª Assembleia Mundial da Saúde, com a recomendação do Conselho Executivo que revelou
que nenhuma das metas nas sete áreas políticas gerais está a caminho de ser
cumprida.
Outro
desenvolvimento significativo nos últimos anos foi o avanço das terapias
modificadoras da doença de Alzheimer (e, em particular, as terapêuticas
antiamiloide). Embora ainda em fase inicial, estas novas terapêuticas
mostram-se bastante promissoras para o tratamento e gestão da doença nos
próximos anos. No entanto, além dos debates em curso sobre a relação
custo-eficácia desses tratamentos, existem outras barreiras; o preço dos
tratamentos não é a única barreira ao acesso aos tratamentos antiamiloide. Esses
tratamentos dependem de um diagnóstico atempado e preciso, com confirmação da Demência
de Alzheimer por biomarcadores. Além disso, dados os potenciais efeitos
secundários e as condições rigorosas para a sua utilização na Europa, há custos
adicionais associados aos cuidados prestados aos doentes, por exemplo, a
necessidade de exames de ressonância magnética.
Num
nível básico, obter um diagnóstico preciso e atempado da demência continua a
ser um desafio na prática clínica, o que impede muitas pessoas de aceder a
apoio, cuidados e tratamentos centrados no doente. Para proporcionar o nível de
exatidão diagnóstica necessário para permitir a utilização de tratamentos
antiamiloide, ainda há muito trabalho a fazer para melhorar as infraestruturas
de saúde em toda a Europa, bem como para melhorar as competências dos médicos
para administrarem estes tratamentos de forma eficaz e segura. É necessária uma
mudança de paradigma fundamental nos sistemas de saúde europeus para garantir
que estão preparados para as mudanças que se avizinham.
À
medida que a UE inicia o processo de negociações para o Quadro Financeiro
Plurianual (QFP), é imperativo que os decisores políticos tenham em conta as
alterações demográficas em todo o continente e o número crescente de pessoas
que vivem com demência. As prioridades políticas e as linhas orçamentais devem
refletir estas mudanças e prever financiamento específico para a demência nos
domínios da saúde, da investigação, da política em matéria de deficiência e do
apoio aos cuidadores informais.
Por todas estas razões, é essencial que as
estimativas sobre a prevalência da demência sejam atualizadas para incluir os
estudos mais recentes e os dados populacionais atualizados, a fim de demonstrar
a dimensão dos desafios colocados pela demência, agora e no futuro, para que
haja uma clara obrigação de os decisores políticos agirem.
2.3. Revisão da literatura
Abordagem
Ao
elaborar este relatório, realizámos uma pesquisa bibliográfica e uma revisão
dos estudos europeus sobre prevalência publicados desde a última vez que
realizámos este trabalho, em 2019, para o Anuário da Demência na Europa. Para
os estudos adequados, os dados brutos foram recolhidos contactando os autores,
antes de os adicionar aos dados já recolhidos em 2019. A partir daí, foi
possível calcular as taxas de prevalência atualizadas. Estas taxas foram então
aplicadas às Projeções da População Mundial da ONU para 2024 (o último ano para
o qual existem estimativas populacionais disponíveis), o que permitiu obter
estimativas do número de pessoas com demência nos países europeus.
A
fim de garantir a comparabilidade com o Anuário de 2019, a Alzheimer Europe
adotou a abordagem originalmente utilizada no projeto «EuroCoDe», com a mesma
metodologia de pesquisa e processo de triagem utilizados na nossa pesquisa
bibliográfica. Esta abordagem também foi utilizada no Anuário da Demência na
Europa de 2019. Os estudos acima mencionados utilizaram a seguinte sequência de
pesquisa:
«Demência/Prevalência/Incidência/Epidemiologia» ou «Doença de Alzheimer/Demência vascular, Doença de corpos de Lewy/Demência frontotemporal/Incidência/Prevalência Epidemiologia».
Utilizando
esta sequência na PubMed entre os dias 10 de julho de 2019 e 3 de fevereiro de
2025, foram identificadas 3588 publicações, as quais foram compiladas numa base
de dados Rayyan. Foram utilizados critérios de qualidade pré-determinados, definidos
no âmbito do projeto EuroCoDe, para selecionar títulos e resumos, a fim de
determinar se os estudos deveriam ser incluídos.
A
Tabela 1 descreve os critérios de inclusão utilizados para selecionar quais as publicações
a analisar.
Artigos revistos na íntegra
Após
esta triagem inicial, foram incluídos 37 artigos para revisão completa do
texto. Além disso, as suas listas de referências foram analisadas para
identificar estudos adicionais relevantes.
Quatro novos artigos publicados entre
julho de 2019 e fevereiro de 2025 foram considerados elegíveis para inclusão na
análise (somando-se aos 16 utilizados no Anuário de 2019). Foram contactados os
principais autores de cada artigo, solicitando os dados brutos do seu estudo,
para incorporação no conjunto de dados de 2019. Três dos autores responderam e
forneceram os dados solicitados. No entanto, verificou-se que uma das
publicações tinha utilizado dados de um estudo anteriormente incluído no
Anuário de 2019. Este artigo foi, portanto, excluído da nossa análise.
Análise
Os
dados brutos de cada artigo forneceram-nos o número de participantes no estudo
e o número de pessoas com demência, estratificados por faixas etárias de 5 anos
(de 60 a >90 anos) e por sexo.
Os dados para todos os casos acima de 90
anos foram combinados numa única faixa etária de 90+ (o EuroCoDe fez isso para
95+), refletindo a apresentação dos dados na maioria dos estudos identificados.
A prevalência específica por idade e sexo foi calculada usando o número total
de casos de prevalência de todos os estudos como numerador e a população total
do estudo examinada como denominador. Dessa forma, a ponderação foi obtida pelo
tamanho da amostra de cada estudo.
Taxas de prevalência de estudos
individuais
O nosso relatório de prevalência utilizou
um total de 18 estudos. Destes estudos, 16 foram identificados no Anuário da
Demência na Europa 2019. No total, a nossa análise incluiu dados brutos de
43 995 pessoas, das quais 13 732 provinham dos estudos recentemente
incluídos.
[…]
2.4. Advertências/Limitações do relatório
e das suas conclusões
Metodologia
O
Alzheimer Europe Dementia Prevalence Report 2025 é uma publicação que
procura mostrar uma visão geral do número estimado de pessoas com demência na
Europa, estabelecendo estimativas atualizadas da prevalência com base nas
publicações mais recentes e de maior qualidade. Para garantir a coerência com o
projeto EuroCoDe e a sua metodologia, bem como com o Anuário da Demência na
Europa 2019, que utilizou esta metodologia, analisámos apenas os estudos que
cumpriam os critérios de inclusão previamente definidos.
Como resultado da decisão de adotar esta
abordagem, um número considerável de estudos foi excluído da nossa análise,
muitas vezes por não serem estudos baseados na comunidade. Além disso, optámos
por realizar uma atualização cumulativa dos estudos baseados na comunidade
sobre a prevalência da demência, em vez de restringir a nossa análise apenas às
publicações recentes, pois isso teria reduzido substancialmente tanto o tamanho
geral da amostra como a representatividade geográfica dos dados.
Demência de início precoce
Em
consonância com as nossas conclusões do Anuário da Demência na Europa 2019,
existem relativamente poucos estudos publicados sobre a prevalência da demência
de início precoce (ou seja, pessoas com menos de 60 anos que vivem com alguma
forma de demência). Embora outros projetos (incluindo o EURODEM e o EuroCoDe)
tenham demonstrado, de um modo geral, que a prevalência nesta população é
substancialmente inferior à da população com mais de 60 anos, como se pode ver
na Tabela 2, apenas um estudo que cumpriu os nossos critérios incluiu
participantes com menos de 60 anos, nenhum dos quais era novo nesta análise.
Como tal, mais uma vez não foi possível atualizar as estimativas de prevalência
para a população com idades compreendidas entre os 30 e os 59 anos. Em vez
disso, continuámos a utilizar a taxa de prevalência de Hofman et al.,
1991, para este grupo etário, tal como foi utilizada no EuroCoDe, e aplicámo-la
aos dados populacionais mais recentes.
Da
mesma forma, apenas um pequeno número de estudos incluiu pessoas com idades
entre 60 e 64 anos, em comparação com faixas etárias mais elevadas. Portanto,
não tivemos a certeza de que seríamos capazes de apresentar estimativas de
prevalência confiáveis para esse grupo demográfico e, como resultado, as
estimativas de prevalência para a faixa etária de 60 a 64 anos em cada tabela
foram obtidas do estudo EuroCoDe.
A
Alzheimer Europe reconhece a fragilidade subjacente a uma abordagem que
se baseia em dados de um estudo publicado em 1991. Acreditamos que estes
números podem subestimar a população com menos de 65 anos que vive com
demência. Para mitigar esta limitação, procurámos fontes de dados alternativas
sobre a prevalência da demência de início precoce. No entanto, não conseguimos
identificar uma fonte de dados adequada para este fim. Se tais fontes tivessem
sido encontradas e utilizadas, isso teria criado um desafio adicional de
metodologias inconsistentes entre as faixas etárias.
Esta questão também foi abordada no
Anuário da Demência na Europa 2019 e reforça a necessidade de mais investigação
sobre a prevalência da demência em pessoas com menos de 65 anos e, mais
especificamente, a necessidade de estudos realizados na comunidade que incluam
este grupo etário.
Taxas de prevalência para tipos
específicos de demência
Nos
últimos anos, a investigação melhorou a entendimento sobre as doenças
subjacentes que causam a demência, em particular a doença de Alzheimer, o que
permite aos médicos fazerem diagnósticos mais específicos da demência, tanto em
relação ao tipo de demência como à fase da doença.
Especificamente,
a identificação de pessoas nas fases pré-sintomática ou de défice cognitivo
ligeiro da doença de Alzheimer está a tornar-se cada vez mais importante, à
medida que são exploradas intervenções de prevenção primária, secundária e
terciária. Além disso, a necessidade de um diagnóstico rigoroso torna-se
particularmente importante, dadas as condições prévias restritivas para a
utilização de tratamentos antiamiloide, por exemplo, exigindo um diagnóstico
específico da doença de Alzheimer, genótipo APOE, etc.
Como tal, esperávamos que estudos mais
recentes incluíssem informações sobre o tipo e o grau de demência na população
e que pudéssemos, assim, refletir isso no nosso trabalho, fornecendo
estimativas de prevalência dos tipos mais comuns de demência. No entanto, esses
dados não foram universalmente relatados em estudos baseados na comunidade e,
quando presentes, não foram suficientes para permitir uma estimativa fiável das
taxas de prevalência por tipos e/ou fases de demência em toda a Europa. O
presente relatório reflete, assim, estimativas globais da prevalência da
demência, sem referência ao tipo específico.
3. Principais
conclusões
Taxas de prevalência por idade e sexo
Utilizando
os dados brutos dos 18 estudos descritos na secção anterior, a Alzheimer
Europe conseguiu calcular as seguintes taxas de prevalência na Europa,
discriminadas por idade e sexo. Conforme explicado na secção anterior, devido à
falta de dados para a faixa etária dos 60 aos 64 anos, a Alzheimer Europe
utilizou a taxa de prevalência do estudo EuroCoDe. Da mesma forma, para a faixa
etária dos 30 aos 59 anos, a Alzheimer Europe não identificou nenhum
estudo que cumprisse os critérios de inclusão. Assim, em consonância com o
estudo EuroCoDe anterior, continuámos a utilizar o estudo de Hofman et al.,
1991, para as estimativas relativas a esta faixa etária.
A
Tabela 3 apresenta uma visão geral das taxas de prevalência calculadas para
cada faixa etária, discriminadas por sexo.
Tabela 3 – Taxas de prevalência estimadas,
estratificadas por idade e sexo
|
Faixa etária |
Prevalência
nas mulheres |
Prevalência
nos homens |
|
30-59 |
0,1 |
0,2 |
|
60-64 |
0,9 |
0,2 |
|
65-69 |
1,4 |
1,1 |
|
70-74 |
3,7 |
3,7 |
|
75-79 |
8,0 |
7,2 |
|
80-84 |
13,2 |
11,1 |
|
85-89 |
24,4 |
16,9 |
|
90+ |
44,7 |
30,8 |
Os
números relativos à prevalência são semelhantes aos apresentados no nosso
Anuário da Demência na Europa de 2019, com algumas diferenças evidentes em
termos de faixa etária e sexo (descritas mais detalhadamente abaixo).
Por sua vez, as nossas estimativas para
2019 foram amplamente consistentes com os estudos EuroCoDe e EURODEM. Isto pode
refletir a metodologia consistente utilizada pela Alzheimer Europe e
pelo EuroCoDe. No entanto, os estudos adicionais incluídos na nossa análise
indicam que a prevalência da demência continua a ser amplamente semelhante
dentro das faixas etárias (embora reconhecendo as ressalvas anteriormente
expressas para pessoas com menos de 65 anos).
Prevalência aplicada às estimativas
populacionais
Ao
aplicar as taxas de prevalência da Tabela 3 aos dados das Projeções da
População Mundial da ONU para 2024 relativos aos anos de 2025 e 2050, a Alzheimer
Europe conseguiu estimar o número de pessoas que vivem com demência em cada
país da Europa.
Na
secção 6, cada país tem um perfil próprio, estratificando o número de pessoas
que vivem com demência por idade e sexo, bem como a percentagem de pessoas que
vivem com demência na população total.
Para
as tabelas desta secção, apresentamos os números gerais, ou seja, o número
estimado de pessoas que vivem com demência, estratificado por sexo, bem como o
número estimado de pessoas com demência como percentagem da população total do
país. Para cada ano, 2025 e 2050, criámos uma tabela para:
- Países da UE27
- 12 países não pertencentes à UE (Arménia,
Bósnia e Herzegovina, Islândia, Israel, Montenegro, Macedónia do Norte,
Noruega, Sérvia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Reino Unido (estes países representam
aqueles em que a Alzheimer Europe tem organizações afiliadas ou
organizações de contacto)
Deve-se atender a que os números nas tabelas ao longo do relatório são arredondados e, portanto, podem não corresponder exatamente às somas.
Tabela 4 – Número estimado de pessoas que
vivem com demência em 2025 – países da UE27
|
País |
Homens |
Mulheres |
Total |
% do
total da população |
|
Alemanha |
644
122 |
1
203 355 |
1 847 478 |
2,20 |
|
Áustria |
59
746 |
112
389 |
172 136 |
1,89 |
|
Bélgica |
77
108 |
144
620 |
221 728 |
1,89 |
|
Bulgária |
36
826 |
78
375 |
115 201 |
1,72 |
|
Chéquia |
60
365 |
118
283 |
178 648 |
1,68 |
|
Chipre |
6
131 |
10
138 |
16 268 |
1,19 |
|
Croácia |
22
417 |
51
385 |
73 801 |
1,92 |
|
Dinamarca |
40
684 |
67
345 |
108 029 |
1,80 |
|
Eslováquia |
24
267 |
51
601 |
75 869 |
1,39 |
|
Eslovénia |
13
235 |
26
507 |
39 742 |
1,88 |
|
Espanha |
332
305 |
651
615 |
983 920 |
2,05 |
|
Estónia |
6
850 |
19
954 |
26 803 |
1,99 |
|
Finlândia |
40
868 |
76
689 |
117 556 |
2,09 |
|
França |
471
780 |
946
015 |
1 417 794 |
2,13 |
|
Grécia |
80
562 |
155
911 |
236 473 |
2,38 |
|
Hungria |
48
939 |
113
178 |
162 117 |
1,68 |
|
Irlanda |
26
998 |
42
951 |
69 949 |
1,32 |
|
Itália |
491
187 |
945
672 |
1 436 859 |
2,43 |
|
Letónia |
8
922 |
27
179 |
36 102 |
1,95 |
|
Lituânia |
13
058 |
38
354 |
51 412 |
1,82 |
|
Luxemburgo |
3
350 |
5
855 |
9 205 |
1,35 |
|
Malta |
3
483 |
5
993 |
9 476 |
1,74 |
|
Países Baixos |
117
838 |
194
791 |
312 628 |
1,70 |
|
Polónia |
191
414 |
426
766 |
618 180 |
1,62 |
|
Portugal |
79
857 |
158
544 |
238 401 |
2,29 |
|
Roménia |
94
271 |
194
560 |
288 831 |
1,53 |
|
Suécia |
76
579 |
124
522 |
201 100 |
1,89 |
|
Total |
3
073 159 |
5
992 547 |
9 065 706 |
2,02 |
4. Discussão e conclusões
Prevalência prevista de demência em 2050
Para
2025, os nossos números relativos à prevalência, 9 065 706 para os 27
países da UE e 12 122 979 para os países da UE e não pertencentes à
UE, são impressionantes e dão uma ideia da dimensão do desafio que a demência
representa.
Olhando
para 2050, queríamos fornecer uma projeção potencial de como a situação pode
evoluir e, como indicação da necessidade de ação, garantir que as pessoas com
demência e os seus cuidadores recebam apoio para viver bem, com os serviços e
apoios necessários disponíveis.
Com base nas nossas análises atuais,
estimamos que, até 2050, haverá 14 335 788 pessoas com demência nos
27 países da UE e 19 905 856 pessoas com demência nos países da UE e
fora da UE. Em termos simples: o número de pessoas que vivem com demência
aumentará 58 % na UE e 64 % nos países da UE e fora da UE como um todo até
2050.
Diferenças entre as estimativas da
Alzheimer Europe
A
semelhança nas nossas estimativas gerais de prevalência entre as faixas etárias
foi notável entre este relatório e o nosso Anuário de 2019. O Anuário observou
uma ligeira diferença nas taxas de prevalência, quando comparado com estudos
anteriores (EuroCoDe e EURODEM). É possível que as semelhanças metodológicas na
nossa abordagem a este trabalho expliquem esta consistência. Por outro lado, os
dois estudos adicionados à nossa análise não alteraram substancialmente as
nossas estimativas de prevalência nas faixas etárias. No âmbito deste trabalho,
não nos é possível fornecer uma explicação definitiva para estes resultados.
No entanto, observámos algumas variações
específicas por idade. Por exemplo, as taxas de prevalência para pessoas com
idades entre 70 e 74 anos (especialmente homens) são ligeiramente superiores às
anteriormente relatadas, representando a maior parte do aumento no número de
casos nessa faixa etária. Em contrapartida, as estimativas de prevalência para
a faixa etária de 75 a 79 anos (especialmente mulheres) são ligeiramente
inferiores em comparação com o Anuário de 2019. Além disso, observámos algumas
diferenças dentro dos países na proporção de pessoas com demência em relação à
população total entre o Anuário de 2019 e o relatório atual. Estas diferenças
foram particularmente pronunciadas nas projeções para 2050 e provavelmente
refletem mudanças demográficas, como o declínio geral da população, a partir
dos dados atualizados das Projeções da População Mundial 2024 da ONU.
Implicações decorrentes destes números
Estes
números reforçam um apelo que a Alzheimer Europe e os seus membros têm
vindo a fazer há muitos anos: o número de pessoas que vivem com demência
continua a crescer e os governos devem tomar medidas para garantir que a
sociedade esteja preparada para apoiar as pessoas com estas doenças, as suas
famílias e cuidadores, para que possam viver bem com a doença.
Do
ponto de vista das políticas, os sistemas de saúde e assistência social
precisam ter a capacidade e as infraestruturas necessárias para prestar
cuidados e apoios de alta qualidade às pessoas que vivem com a doença, desde o
diagnóstico até os cuidados paliativos. Além disso, as sociedades devem mudar
para eliminar o estigma associado à demência e devem adaptar-se para garantir
que as pessoas com a doença possam permanecer na comunidade pelo maior tempo
possível. O trabalho da Alzheimer Europe nesta área, incluindo o European
Dementia Monitor 2023, destacou muitas das lacunas na disponibilidade e
acessibilidade dos serviços de saúde e de assistência social.
Dado
o potencial demonstrado pelos tratamentos antiamiloide para a doença de
Alzheimer, há uma necessidade evidente de os decisores políticos em toda a
Europa garantirem que os contextos clínicos disponham das infraestruturas
necessárias para diagnosticarem, tratarem e monitorizarem os doentes, com os
médicos a possuírem as competências e a capacidade necessárias para prestar
cuidados e apoio de alta qualidade às pessoas que vivem com esta doença.
Além
disso, as agendas de investigação devem, prioritariamente, atribuir à demência
o estatuto que ela merece, dando prioridade à investigação básica para
compreender melhor a doença, aos estudos clínicos para desenvolverem
diagnósticos e tratamentos e à investigação demográfica para compreender melhor
as populações afetadas, permitindo melhores respostas do sistema.
Por fim, há um foco crescente na prevenção
da demência, por exemplo, através do trabalho de grande visibilidade da Comissão Lancet sobre Demência, que estimou que até 45% dos casos de
demência podem ser atribuídos a 14 fatores de risco modificáveis, incluindo
poluição atmosférica, má alimentação, falta de exercício físico e perda
auditiva. Como tal, há uma margem considerável para intervenções específicas
que reduzam significativamente a incidência da demência. No entanto, isso
exigirá esforços políticos sustentados no campo da Saúde Pública, para abordar
os fatores de risco associados à demência por meio de programas dedicados, bem
como para aumentar a consciencialização entre a população em geral.
A necessidade de mais estudos de
prevalência sobre tipos específicos de demência
Conforme
identificado na secção sobre limitações, há relativamente pouca investigação e
dados disponíveis sobre pessoas mais jovens com demência (ou seja, com menos de
65 anos), o que impossibilitou o desenvolvimento de novas estimativas de
prevalência para essa faixa etária. A Alzheimer Europe explorou
alternativas potenciais para apresentar números atualizados, mas nenhuma das
opções era adequada.
À
medida que o conhecimento clínico e científico sobre a demência se desenvolveu
ao longo da última década, foi realizado um trabalho extensivo para garantir
que as pessoas recebessem um diagnóstico mais preciso e específico da sua
condição. Embora alguns estudos tenham incluído esses dados nos seus artigos
(incluindo nos dados brutos), permitindo o cálculo da prevalência de cada tipo
de doença, isso não foi universal e, quando presente, foi insuficiente para nos
permitir gerar novas estimativas de prevalência por doença.
Portanto, é imperativo que futuros estudos
de investigação abordem essas lacunas. Para que os governos e os decisores
políticos possam responder adequadamente aos desafios que surgem com o aumento
do número de pessoas com demência, eles devem ter estimativas precisas,
incluindo o número de pessoas com demência de início precoce e informações
sobre o tipo específico de demência que foi diagnosticado.
Observações finais
Durante
o trabalho realizado para esta publicação, a 78.ª Assembleia Mundial da Saúde
votou a favor da aprovação da prorrogação do “Plano de Ação Global da
Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Resposta de Saúde Pública à Demência
2017-2025”, prolongando a vigência da estratégia até 2031. Esta decisão foi
tomada em resposta ao facto de nenhuma das metas do Plano de Ação Global estar
a caminho de ser cumprida. Embora a Região Europeia da OMS fosse a que mais
progressos fez em relação às metas, ainda não estava no bom caminho para as
atingir.
É
de notar que, nos últimos anos, a demência tenha perdido prioridade como
questão política, com muitos países sem uma estratégia para a demência e outros
optando por não renovar uma estratégia que já expirou. Além disso, ao nível da
UE, a demência tem recebido consideravelmente menos atenção no âmbito do
trabalho da UE em matéria de saúde, em comparação com o cancro e outras doenças
não transmissíveis.
Uma
faceta do trabalho da Alzheimer Europe nos últimos anos tem sido apoiar
as nossas associações afiliadas na campanha para que a demência seja
considerada uma prioridade política nacional, ao mesmo tempo que trabalhamos
para garantir que a demência seja incluída em diferentes políticas a nível da
UE. Uma parte fundamental deste trabalho é o Manifesto de Helsínquia, que estabelece as principais exigências
para os decisores políticos, tanto a nível da UE como nacional, para os
próximos cinco anos, em matéria de saúde, investigação, direitos das pessoas
com deficiência e apoio a cuidadores informais.
Este
relatório surge num momento em que o futuro orçamento da UE, o próximo Quadro
Financeiro Plurianual (QFP) 2028-2034, está a ser discutido. Já se verifica que
as propostas se estão a afastar do forte compromisso com a saúde, os assuntos
sociais e a investigação que se encontrava no atual QFP, em favor de uma maior
ênfase em áreas como a defesa e as atividades económicas, no âmbito da
competitividade.
A mensagem da Alzheimer Europe aos decisores políticos ao nível da UE e nacional é clara. O número de pessoas que vivem com demência continuará a crescer nas próximas décadas. Se não agirmos agora, investindo suficientemente nos sistemas de saúde, cuidados e proteção social, prestando apoio adequado à investigação sobre a doença e implementando intervenções preventivas fortes, corremos o risco de agravar os desafios que temos pela frente.
[…]
6.29. Portugal
|
Faixas etárias |
População total |
Homens |
Homens com demência |
Mulheres |
Mulheres com demência |
Número total de pessoas com demência |
|
30-59 |
4 116 743 |
1 992 374 |
3 149 |
2 124 369 |
1 947 |
5 096 |
|
60-64 |
732 495 |
339 211 |
678 |
393 284 |
3 540 |
4 218 |
|
65-69 |
683 273 |
313 359 |
3 473 |
369 914 |
5 021 |
8 493 |
|
70-74 |
620 493 |
280 377 |
10 571 |
340 116 |
12 536 |
23 108 |
|
75-79 |
531 863 |
232 937 |
16 954 |
298 926 |
23 878 |
40 832 |
|
80-84 |
377 003 |
155 089 |
17 140 |
221 915 |
29 285 |
46 426 |
|
85-89 |
242 049 |
88 245 |
14 939 |
153 804 |
37 572 |
52 511 |
|
90+ |
142 305 |
42 056 |
12 952 |
100 249 |
44 765 |
57 717 |
|
População 30-90+ |
7 446 222 |
3 443 646 |
79 857 |
4 002 575 |
158 544 |
238 401 |
|
População total |
10 411 834 |
% da população total 2,29 |
||||
|
Faixas etárias |
População total |
Homens |
Homens com demência |
Mulheres |
Mulheres com demência |
Número total de pessoas com demência |
|
30-59 |
3 213 841 |
1 596 142 |
2 522 |
1 617 698 |
1 483 |
4 005 |
|
60-64 |
536 166 |
256 751 |
514 |
279 416 |
2 515 |
3 028 |
|
65-69 |
617 623 |
287 030 |
3 181 |
330 593 |
4 487 |
7 668 |
|
70-74 |
691 181 |
313 336 |
11 814 |
377 846 |
13 927 |
25 741 |
|
75-79 |
659 573 |
290 549 |
21 148 |
369 025 |
29 478 |
50 625 |
|
80-84 |
544 595 |
229 869 |
25 405 |
314 726 |
41 533 |
66 938 |
|
85-89 |
409 278 |
161 275 |
27 302 |
248 003 |
60 584 |
87 886 |
|
90+ |
305 931 |
106 048 |
32 661 |
199 883 |
89 255 |
121 916 |
|
População 30-90+ |
6 978 187 |
3 240 997 |
124 546 |
3 737 189 |
243 261 |
367 807 |
|
População total |
9 770 271 |
% da população total 3,76 |
||||
Número de pessoas com demência em Portugal
em 2025 e 2050
Número de pessoas com demência em Portugal
em 2025 e 2050 por faixa etária



