Autor desconhecido,
Arquivo Municipal do Porto
17 março 2026
Efeméride - data incerta de 1726
11 março 2026
Dilemas éticos no tratamento da dor em doentes idosos frágeis e em fim de vida
Dilemas éticos no tratamento da dor em doentes idosos frágeis e em
fim de vida: conciliar o alívio, a autonomia e a incerteza clínica
Idahor C O, Okeleke S I,
Aghahowa O M, et al.
Tradução espontânea para distribuição sem
fins lucrativos do artigo publicado em novembro de 2025 na revista Cureus
Ethical
Dilemmas in Pain Management for Frail and End-of-Life Elderly Patients:
Balancing Relief, Autonomy, and Clinical Uncertainty
Ver o artigo original, referências e afiliações AQUI
Resumo
O tratamento da dor em doentes idosos frágeis e em fim de vida representa um desafio ético e clínico significativo nos cuidados de saúde modernos. As tendências demográficas para uma população envelhecida e a prevalência crescente de fragilidades e multimorbilidades amplificaram a dificuldade de proporcionar analgesia segura e compassiva. A farmacocinética alterada, a polimedicação e o comprometimento cognitivo muitas vezes tornam a avaliação e o tratamento da dor incertos, enquanto as barreiras de comunicação contribuem tanto para o sub-reconhecimento como para o subtratamento. Os princípios éticos de autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça cruzam-se frequentemente de formas que geram tensão, particularmente quando se considera a prescrição de opioides, a sedação paliativa ou a interpretação de diretivas antecipadas. Os médicos devem orientar-se nestes dilemas dentro de diversos quadros jurídicos e culturais, onde políticas restritivas e atitudes sociais em relação ao sofrimento e à morte influenciam fortemente a prática. A colaboração interdisciplinar, envolvendo equipas de cuidados paliativos, geriatras, enfermeiros, especialistas em ética e prestadores de cuidados espirituais, melhora as decisões partilhadas e apoia os cuidados centrados no doente, embora ainda existam lacunas significativas na formação. Inovações recentes, incluindo ferramentas validadas de avaliação observacional da dor, plataformas de monitorização digital e avaliação assistida por inteligência artificial, são promissoras para melhorar a precisão e a capacidade de resposta na gestão da dor, mas levantam novas questões éticas relativas à despersonalização e ao acesso equitativo. Para enfrentar esses desafios, são necessárias orientações éticas claras, políticas de apoio e investigação contínua que integre perspetivas clínicas, jurídicas e culturais. Esta revisão enfatiza a necessidade de abordagens compassivas, individualizadas e eticamente rigorosas, garantindo que os doentes idosos frágeis e terminais recebam cuidados que preservem a dignidade, aliviem o sofrimento e correspondam aos seus valores no fim da vida.
Introdução e Contexto
O
gestão da dor em idosos frágeis e terminais é uma preocupação central na
medicina geriátrica e paliativa, pois encontra-se na intersecção entre a
complexidade clínica e a responsabilidade ética. A dor não é apenas um sintoma,
mas um determinante da qualidade de vida, da dignidade e do sentido de
identidade do doente no fim da vida. A fragilidade, que é marcada pela perda de
reserva fisiológica e maior vulnerabilidade a fatores de tensão, amplifica os
riscos associados tanto à dor não tratada como à intervenção farmacológica[1].
A necessidade clínica de controlar a dor nesta população é, portanto,
inseparável das obrigações morais que ultrapassam o alívio dos sintomas para
abranger o respeito pela autonomia, a justiça no acesso aos cuidados e a
minimização dos danos.
As
tendências demográficas agravam este desafio. A população global está a
envelhecer rapidamente e as projeções sugerem que, até 2050, uma em cada seis
pessoas terá 65 anos ou mais[2]. A prevalência da fragilidade
aumenta com a idade e estima-se que afete 10% a 15% dos idosos que vivem em
comunidade, chegando a quase metade dos que estão em instituições de cuidados[3].
A dor crónica é relatada em quase 50% dos idosos que vivem em comunidade e é
ainda mais comum naqueles que residem em lares de idosos ou recebem cuidados
paliativos[4]. Entre os doentes que se aproximam do fim da vida,
particularmente aqueles com cancro avançado, insuficiência cardíaca ou doença
neurodegenerativa, a prevalência de dor moderada a grave permanece elevada,
muitas vezes excedendo 70%[5]. Estas realidades epidemiológicas
destacam que o problema da dor em doentes idosos frágeis é generalizado e
profundamente enraizado, com implicações para os sistemas de saúde, bem como
para a prática clínica individual.
O
subtratamento da dor em doentes idosos frágeis e terminais continua a ser um
problema persistente, moldado por fatores clínicos e éticos. As preocupações
com os efeitos secundários relacionados com os opioides, tais como a depressão
respiratória, a confusão mental e a obstipação, muitas vezes impedem os médicos
de prescrever analgesia eficaz, mesmo quando o sofrimento é significativo[6].
O receio de escrutínio regulatório, potencial utilização indevida ou
responsabilidade profissional aumenta ainda mais a hesitação[7]. O
resultado é que muitos idosos suportam dores evitáveis nos seus últimos meses
de vida, uma falha que compromete a beneficência e o compromisso ético mais
amplo com a dignidade. Por outro lado, o tratamento excessivo acarreta os seus
próprios riscos. A sedação excessiva, o declínio acelerado e a perda de
interação significativa com a família podem resultar de regimes farmacológicos
agressivos, levantando questões de não-maleficência[8]. É difícil
alcançar o equilíbrio entre estes dois extremos, especialmente em doentes com
comorbilidades que reduzem a margem de segurança.
O
princípio da autonomia complica ainda mais o quadro clínico. Muitos idosos
expressam fortes preferências sobre os cuidados no fim da vida, com alguns a
darem prioridade à lucidez e à interação social significativa em detrimento da
analgesia completa. Outros preferem o máximo alívio da dor, mesmo que isso
implique uma redução da consciência[9]. Respeitar essas escolhas
exige que os médicos identifiquem e honrem os valores dos doentes,
equilibrando-os com os deveres profissionais e as expectativas familiares. A
situação é particularmente complexa em doentes com comprometimento cognitivo,
em que a capacidade de decidir está afetada e é necessário recorrer a
apreciações por representantes ou critérios de melhor interesse[10].
Esses dilemas ilustram como os princípios éticos podem entrar em conflito,
forçando os médicos a lidar com imperativos concorrentes, em vez de aplicá-los
isoladamente.
A
equidade no tratamento da dor acrescenta outra dimensão ao debate ético. O
acesso a cuidados paliativos e analgesia adequada continua a ser distribuído de
forma desigual, tanto dentro dos países como entre eles. Nos países de
rendimento elevado, persistem disparidades entre as populações urbanas e
rurais, bem como entre aqueles que têm e aqueles que não têm acesso a serviços
paliativos especializados[11]. Nos países de rendimento baixo e
médio, as barreiras são ainda mais profundas. Regulamentações restritivas sobre
opioides, infraestrutura de saúde inadequada e formação insuficiente de médicos
combinam-se para criar o que tem sido chamado de “abismo de acesso” aos
cuidados paliativos[12]. Essas desigualdades revelam falhas na
justiça, já que o alívio da dor e do sofrimento não deveria depender da
localização geográfica ou da condição socioeconómica. O reconhecimento do
alívio da dor como um direito humano fundamental ganhou força internacionalmente,
mas o progresso continua lento e inconsistente[13].
A interação entre tendências epidemiológicas, desafios clínicos e princípios normativos molda, portanto, a importância ética do tratamento da dor em doentes idosos frágeis e terminais. O envelhecimento da população garante que a prevalência da fragilidade e da dor crónica aumentará, enquanto as vulnerabilidades fisiológicas desses doentes tornam as intervenções arriscadas e necessárias. A tarefa dos médicos é conciliar autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça na sua prática clínica, reconhecendo que esses princípios muitas vezes apontam em direções diferentes.
Dor em idosos frágeis e terminais
As
alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento influenciam
significativamente a perceção da dor e a resposta analgésica em doentes idosos
frágeis. As alterações na função dos nociceptores periféricos e na modulação
central da dor contribuem para a variabilidade na forma como a dor é sentida,
com alguns idosos a demonstrarem uma sensibilidade aumentada e outros uma
diminuição da perceção dos estímulos dolorosos[14]. Estas variações
tornam a avaliação difícil, uma vez que a apresentação clínica da dor pode não
corresponder à carga objetiva da doença. As alterações farmacocinéticas
complicam ainda mais o tratamento. A redução da depuração renal e do
metabolismo hepático retardam a eliminação de muitos medicamentos, aumentando o
risco de acumulação e toxicidade[15]. As alterações na composição
corporal, particularmente uma diminuição na massa magra e um aumento na relação
gordura/água, alteram a distribuição de medicamentos lipofílicos e
hidrofílicos, modificando ainda mais os seus efeitos[16]. Alterações
farmacodinâmicas, como o aumento da sensibilidade dos recetores aos opioides e
benzodiazepínicos, aumentam a probabilidade de sedação e depressão
respiratória, mesmo em doses padrão[17]. Essas alterações
relacionadas com a idade sublinham por que razão os doentes frágeis e terminais
são particularmente vulneráveis tanto ao subtratamento como ao tratamento
excessivo da dor.
A
multimorbilidade é comum em idosos frágeis e complica a avaliação e o
tratamento da dor. Condições crónicas, como osteoartrite, diabetes,
insuficiência cardíaca e doenças neurodegenerativas, costumam coexistir,
criando múltiplas fontes potenciais de desconforto que se sobrepõem[18].
Muitas vezes, é difícil distinguir se a dor se origina da degeneração
musculoesquelética, de processos neuropáticos ou de patologias viscerais. A
polimedicação, altamente prevalente nesta população, agrava ainda mais o
problema, aumentando o risco de interações medicamentosas e eventos adversos[19].
Por exemplo, o uso concomitante de opioides com benzodiazepínicos ou
anticolinérgicos pode exacerbar o comprometimento cognitivo, quedas e depressão
respiratória. Os médicos muitas vezes hesitam em aumentar a analgesia por medo
de agravar esses riscos. No entanto, o tratamento inadequado deixa os doentes
com dor persistente que prejudica a função e o bem-estar. Esse equilíbrio
destaca os desafios clínicos e éticos de tratar a dor em doentes idosos frágeis
e terminais.
As
barreiras de comunicação continuam a ser um dos obstáculos mais significativos
para uma avaliação precisa da dor neste grupo. O comprometimento cognitivo é
altamente prevalente em cuidados de fragilidade e cuidados em fim de vida, com
demência e confusão mental a reduzirem a capacidade dos doentes de relatarem os
sintomas de forma confiável[20]. Mesmo entre idosos cognitivamente
intactos, é comum a subnotificação da dor. Alguns minimizam os sintomas devido
a normas culturais de estoicismo, preocupações em ser um fardo ou equívocos de
que a dor é inevitável com o envelhecimento[21]. Esses fatores
resultam no sub-reconhecimento sistemático da dor e da sua gravidade. Foram
concebidas ferramentas de avaliação observacional da dor, como a escala Pain Assessment in
Advanced Dementia
(PAINAD), para colmatar esta lacuna e baseiam-se em indicadores como expressão
facial, vocalização e movimentos corporais[22]. No entanto, tais
ferramentas são subutilizadas em muitos contextos de cuidados, deixando a dor
em doentes não comunicativos mal gerida. Esta incerteza diagnóstica complica as
decisões éticas, uma vez que os médicos devem encontrar um equilíbrio entre o
risco de tratamento excessivo e o risco igualmente premente de negligência.
As consequências do tratamento inadequado da dor em doentes idosos frágeis e terminais vão além do desconforto físico. A dor persistente está associada à depressão, ansiedade e distúrbios do sono, que, por sua vez, agravam a fragilidade e reduzem a resiliência aos fatores de risco[23]. Funcionalmente, a dor prejudica a mobilidade e contribui para quedas, descondicionamento físico e dependência de cuidadores. Psicossocialmente, leva ao isolamento social, perda de envolvimento e diminuição da qualidade de vida. Em contextos de fim de vida, a dor adquire significado existencial, minando a dignidade e intensificando o sofrimento tanto dos doentes como das famílias[24]. Do ponto de vista ético, a presença de dor não aliviada representa uma falha de beneficência e justiça, pois priva os indivíduos do direito de viver os seus últimos dias livres de sofrimento evitável. Por outro lado, o controlo agressivo da dor pode embotar a cognição e a interação significativa, reduzindo as oportunidades de despedida dos entes queridos e levantando preocupações sobre proporcionalidade e danos[25]. Os médicos enfrentam a difícil tarefa de adaptar a terapêutica para aliviar o sofrimento, preservando ao máximo a funcionalidade, a dignidade e a personalidade.
Resenha
Princípios éticos fundamentais e suas tensões
O
respeito pela autonomia é um princípio fundamental da ética médica moderna. No
entanto, no cuidado de doentes idosos frágeis e terminais, esse princípio fica
muitas vezes comprometido pelo declínio cognitivo, pelas barreiras de
comunicação e pelos conflitos de interesses. A autonomia exige que os doentes
tenham capacidade para tomar decisões informadas sobre o seu tratamento e que
as suas preferências sejam respeitadas e honradas. Os idosos que se aproximam
do fim da vida frequentemente enfrentam decisões sobre aceitar ou recusar
analgesia que pode reduzir a lucidez ou acelerar o declínio. Alguns dão
prioridade ao estado de alerta para manter a comunicação com a família,
enquanto outros valorizam o alívio da dor, independentemente dos efeitos
sedativos[7]. Em doentes com demência ou confusão mental, a
capacidade de decidir está comprometida e os médicos devem basear-se em
diretivas antecipadas, julgamento por representante ou padrões de melhor
interesse[26]. Esses cenários ilustram como o respeito pela
autonomia está frequentemente envolvido com impulsos paternalistas e
expectativas familiares, forçando os médicos a lidar com situações em que
honrar desejos passados ou presentes está repleto de incertezas.
O
princípio da beneficência obriga os médicos a aliviar o sofrimento e, no
tratamento da dor, isso normalmente significa administrar analgesia eficaz. No
entanto, a beneficência deve ser equilibrada com a não-maleficência, o dever de
evitar danos. Os doentes idosos frágeis são fisiologicamente menos capazes de
lidar com efeitos adversos relacionados com os opioides, como sedação,
confusão, obstipação e depressão respiratória[15,17]. A margem
terapêutica entre o alívio adequado da dor e a toxicidade perigosa é
frequentemente estreita. Os médicos são, portanto, forçados a considerar se os
benefícios do alívio agressivo da dor superam os riscos de efeitos secundários
que podem diminuir a qualidade de vida ou precipitar a deterioração clínica. A
doutrina do duplo efeito é por vezes aplicada em tais casos, justificando o uso
de opioides em doses elevadas ou sedação paliativa se a intenção principal é o
alívio dos sintomas e não a aceleração da morte[27]. Embora
influente na prática clínica, esta doutrina é contestada do ponto de vista
ético, especialmente quando é praticamente impossível distinguir a intenção do
resultado.
A
justiça introduz uma perspetiva sistémica, chamando a atenção para as
desigualdades no acesso ao alívio da dor. Em muitos países de rendimento
elevado, os serviços de cuidados paliativos estão concentrados nos centros
urbanos, deixando as populações rurais com menos opções de apoio especializado[11].
Nos países de rendimento baixo e médio, regulamentações rigorosas sobre
opioides, formação inadequada e restrições de recursos perpetuam o
subtratamento generalizado da dor[12]. Doentes idosos frágeis,
particularmente aqueles com deficiência cognitiva ou proteção social limitada,
são desproporcionalmente afetados por essas desigualdades[28]. O
princípio da justiça exige que todos os doentes tenham acesso equitativo ao
tratamento da dor; no entanto, a realidade global é de disparidades gritantes
na disponibilidade e qualidade dos cuidados. Essas desigualdades levantam
questões éticas urgentes sobre se os sistemas de saúde e os governos estão a
cumprir suas obrigações de proteger as populações vulneráveis do sofrimento
evitável.
As
tensões entre autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça raramente são
resolvidas de forma direta. Um médico pode respeitar a recusa de um doente em
tomar opioides, honrando assim a autonomia, mas correndo o risco de deixar o
doente com dores intensas, o que entra em conflito com a beneficência. Por
outro lado, ignorar a relutância de um doente em aceitar sedação pode estar
alinhado com a beneficência, mas comprometer a autonomia. As tentativas de
minimizar os danos ao negar opioides a doentes frágeis podem inadvertidamente
levar a um sofrimento prolongado, entrando em conflito com a beneficência e a
justiça. As desigualdades estruturais complicam ainda mais estas tensões
éticas, uma vez que os médicos que trabalham em ambientes com poucos recursos
podem ser incapazes de proporcionar um alívio adequado da dor, apesar de
reconhecerem a sua necessidade[29]. O resultado é um ambiente de
prática clínica onde os princípios éticos colidem em vez de se alinharem,
exigindo uma negociação caso a caso em vez de uma aplicação prescritiva.
Esses conflitos demonstram que o principialismo fornece uma estrutura útil para identificar tensões éticas, mas é insuficiente por si só para resolvê-las. A prática ética no tratamento da dor em doentes idosos frágeis e terminais requer um julgamento contextual que integre os princípios de autonomia, beneficência, não-maleficência e justiça com sensibilidade às realidades clínicas, aos valores dos doentes e às restrições de recursos. Ao compreender como esses princípios se cruzam e entram em conflito, os médicos estão mais bem equipados para lidar com a complexidade moral inerente ao tratamento da dor no fim da vida.
Dilemas éticos na prática clínica
A
prescrição de opioides para doentes idosos frágeis e terminais continua a ser
um dos dilemas éticos mais visíveis e controversos na prática clínica. Os
médicos lutam frequentemente para equilibrar a necessidade legítima de
analgesia eficaz com as preocupações sobre o uso indevido, a dependência e a
supervisão regulamentar. No contexto dos cuidados em fim de vida, os receios de
dependência são frequentemente menos relevantes do que o risco de sedação
excessiva, quedas e comprometimento respiratório[30]. Apesar disso,
os programas de gestão de opioides e o aumento do escrutínio público sobre o
uso de opioides criaram um ambiente clínico em que os prescritores podem
hesitar em aumentar as doses, mesmo quando a dor continua mal controlada[31].
As famílias podem reforçar essa hesitação, expressando receios de que os
opioides acelerem a morte ou tornem o doente indiferente, complicando assim a
decisão partilhada. Essas preocupações, embora compreensíveis, muitas vezes
levam ao subtratamento da dor e destacam a tensão ética entre beneficência,
não-maleficência e autonomia.
As
diretivas antecipadas e o consentimento informado representam outra área de
dificuldade ética no tratamento da dor em doentes idosos que se aproximam do
fim da vida. Quando os doentes mantêm a capacidade de decisão, podem articular
claramente as suas preferências em relação ao grau de analgesia ou sedação que
estão dispostos a aceitar. Na prática, porém, o declínio cognitivo, a confusão
mental e a capacidade oscilante muitas vezes prejudicam a capacidade de tomar
decisões plenamente informadas[10,26]. Em tais situações, as
diretivas antecipadas previamente documentadas servem de orientação, mas esses
documentos podem ser vagos, desatualizados ou inexistentes[32]. As
famílias e os médicos devem então confiar no julgamento por representante
substitutivo ou nos critérios do melhor interesse, os quais podem gerar
conflitos quando os valores do doente são incertos ou interpretados de forma
diferente pelos familiares e profissionais de saúde. O desafio ético reside em
respeitar a autonomia num contexto em que a autonomia é diminuída ou
inacessível e em que intervenções paternalistas podem parecer necessárias para
evitar o sofrimento.
A
discordância familiar é um dilema ético recorrente no tratamento da dor no fim
da vida. Os conflitos surgem frequentemente quando alguns familiares defendem
cuidados focados no máximo conforto, enquanto outros exigem o aumento das
intervenções de suporte à vida, apesar da deterioração do estado do doente.
Essas disputas podem atrasar a tomada de decisões clínicas e pôr os médicos no
papel de mediadores, tentando equilibrar perspetivas concorrentes com o que
consideram ser o melhor para o doente[33]. As diferenças culturais
influenciam ainda mais as expectativas da família, com alguns a verem a
administração de opioides como sinónimo de desistência, enquanto outros
interpretam a ausência de alívio agressivo da dor como negligência. Os médicos
devem, portanto, envolver-se numa comunicação cuidadosa, muitas vezes sob
pressão de tempo, para conciliar valores conflitantes e garantir que a
dignidade e o conforto do doente são a prioridade.
O
uso da sedação paliativa no fim da vida apresenta alguns dos desafios éticos
mais profundos da prática clínica. A sedação paliativa, definida como o uso
controlado de medicamentos para reduzir intencionalmente a consciência do
doente, com o objetivo de aliviar o sofrimento intratável, é considerada
apropriada nos casos em que os sintomas não podem ser controlados por outros
meios[34]. A justificação ética repousa frequentemente na doutrina
do duplo efeito, que sustenta que a intenção principal é o alívio dos sintomas,
mesmo que uma consequência indesejada possa ser o encurtamento da vida[27].
No entanto, os críticos argumentam que é difícil distinguir a intenção do
resultado previsível e que a sedação paliativa corre o risco de ser confundida
com a eutanásia, tanto na prática clínica como na perceção pública[35].
As famílias podem ter dificuldade em lidar com a redução visível da interação à
medida que a sedação se intensifica, percebendo-a como uma perda do doente
antes da morte ter ocorrido. Os médicos enfrentam a dupla responsabilidade de
proporcionar alívio compassivo e, ao mesmo tempo, manter a integridade ética em
contextos em que as fronteiras sociais, legais e culturais nem sempre são
claras.
Esses dilemas éticos destacam a complexidade inerente ao equilíbrio entre o alívio do sofrimento e o respeito pela autonomia, a prevenção de danos e o reconhecimento dos valores familiares e sociais em doentes idosos frágeis e terminais. Cada encontro clínico envolve uma negociação entre prioridades concorrentes, moldadas pela fisiologia do doente, pela dinâmica familiar, pelo julgamento profissional e por restrições externas, como leis e políticas.
Considerações jurídicas e culturais
As
leis nacionais e regionais influenciam fortemente a disponibilidade e a
aceitabilidade das estratégias de gestão da dor em doentes idosos frágeis e
terminais. Em muitos países de rendimento elevado, os quadros regulamentares
que regem a prescrição de opioides são concebidos para limitar o desvio e o uso
indevido, mas muitas vezes têm consequências indesejadas para os cuidados
paliativos. Os médicos podem sentir-se limitados pelos requisitos de
documentação detalhada, pelos limites ao aumento da dose e pelo receio de
escrutínio regulamentar[36]. Nos Estados Unidos, a Lei de
Substâncias Controladas e as diretrizes subsequentes para a prescrição de
opioides foram elaboradas em resposta ao aumento do uso indevido de opioides,
mas contribuíram para a relutância dos médicos em fornecer analgesia adequada a
doentes terminais[37]. Em contrapartida, alguns países europeus,
como os Países Baixos e a Bélgica, adotam políticas mais permissivas,
integrando explicitamente os cuidados paliativos nos sistemas nacionais de
saúde e proporcionando maior flexibilidade na prescrição para situações de fim
de vida[38]. Estas variações legais influenciam não só a
disponibilidade de analgésicos, mas também a cultura profissional em torno do
tratamento da dor.
Em
países de rendimento baixo e médio, leis restritivas combinadas com barreiras
logísticas criam profundas desigualdades no acesso ao alívio da dor. Muitas
nações mantêm regulamentações altamente restritivas sobre opioides,
influenciadas por estruturas internacionais de controlo de narcóticos, exigindo
várias etapas de aprovação para a prescrição de morfina, mesmo em casos de
doença avançada[39]. As preocupações com o uso indevido muitas vezes
justificam tais restrições, mas resultam num tratamento insuficiente da dor em
doentes terminais. Um relatório do International Narcotics Control Board
indicou que mais de 80% da população global tem pouco ou nenhum acesso a
medicamentos controlados para o alívio da dor[40]. Para doentes
idosos frágeis, essas restrições exacerbam o sofrimento e levantam questões
éticas urgentes sobre se os governos estão a cumprir suas obrigações de
proteger os cidadãos de dores evitáveis.
As
atitudes culturais em relação à dor e à morte complicam ainda mais o panorama
jurídico e ético. Em algumas sociedades, suportar a dor é interpretado como um
sinal de força ou virtude moral, levando os doentes e as famílias a
subnotificar os sintomas ou a resistir às intervenções farmacológicas[41].
Noutras, o alívio da dor é visto como parte essencial de uma morte digna, com
as famílias a defenderem veementemente o controlo agressivo dos sintomas, mesmo
que isso implique sedação[42]. Esses valores culturais moldam não só
as preferências dos doentes e das famílias, mas também as práticas
profissionais, uma vez que os médicos estão inseridos nos mesmos quadros
culturais. O desalinhamento entre as recomendações médicas e as crenças
familiares pode levar a tensões, com os médicos presos entre respeitar as
normas culturais e prestar cuidados baseados em dados científicos.
O
aparecimento de legislação sobre a ajuda médica na morte intensificou o debate
sobre a relação entre o tratamento da dor e as decisões no fim da vida. Países
como o Canadá, a Bélgica e os Países Baixos permitem alguma forma de ajuda
médica na morte, enquanto outros a proíbem estritamente[43]. Em
jurisdições onde a morte assistida é legal, a disponibilidade dessa opção pode
alterar o contexto dos cuidados paliativos, levantando preocupações sobre se os
doentes estão a optar por uma morte antecipada devido ao controlo inadequado da
dor ou à perda de dignidade[44]. Para doentes idosos frágeis, cujo
sofrimento é muitas vezes multifacetado e não apenas físico, a linha entre o
alívio da dor e a facilitação da morte torna-se eticamente complexa. Os
críticos argumentam que serviços robustos de cuidados paliativos devem preceder
a legalização da assistência médica à morte, enquanto os defensores sustentam
que ambos devem coexistir para maximizar a autonomia e a escolha[45].
Essas considerações legais e culturais demonstram que o tratamento da dor em doentes frágeis e idosos que se aproximam do fim da vida é moldado não apenas pelo conhecimento clínico e pelos princípios éticos, mas também por forças sociais mais amplas.
Perspetivas interdisciplinares
O
tratamento eficaz da dor em doentes frágeis e idosos que se aproximam do fim da
vida depende da coordenação de várias disciplinas. As equipas de cuidados
paliativos desempenham um papel central neste processo, integrando médicos,
enfermeiros, assistentes sociais e prestadores de cuidados espirituais para
abordar a natureza multidimensional do sofrimento[46]. A sua
abordagem holística garante que a dor seja tratada não apenas como um sintoma
físico, mas também em relação ao sofrimento psicológico, ao isolamento social e
às preocupações espirituais. Os geriatras contribuem avaliando comorbilidades,
otimizando a polimedicação e adaptando os regimes analgésicos às
vulnerabilidades fisiológicas dos idosos frágeis[47]. Os
especialistas em dor trazem conhecimentos especializados em estratégias
farmacológicas complexas, bloqueios nervosos e outras modalidades
intervencionais, proporcionando opções quando os regimes padrão são ineficazes.
Os especialistas em ética ajudam a navegar pelos conflitos entre a autonomia do
doente, as expectativas da família e os deveres profissionais, enquanto os
capelães e conselheiros espirituais oferecem apoio orientado por valores que
pode aliviar as dimensões existenciais da dor[48]. Esta estrutura
colaborativa realça a importância de considerar a gestão da dor como uma
responsabilidade partilhada, em vez de uma tarefa delegada a uma única
disciplina.
A
comunicação dentro e entre disciplinas é a base dos cuidados éticos e eficazes.
As estruturas de tomada de decisão partilhada incentivam o diálogo aberto entre
médicos, doentes e famílias, permitindo que os planos de tratamento reflitam
tanto as comprovações médicas como os valores dos doentes[49].
Ferramentas de comunicação estruturadas, como o protocolo SPIKES para transmitir notícias
difíceis, ajudam os médicos a discutir o prognóstico, os objetivos do
tratamento e as opções analgésicas com sensibilidade[50]. As
reuniões de equipas interdisciplinares proporcionam um espaço para discutir
casos complexos, alinhar perspetivas e garantir que opiniões conflitantes não
comprometam os cuidados. A falha na comunicação pode levar a um tratamento
fragmentado, duplicação de esforços ou omissão de aspetos importantes, como
necessidades psicossociais ou preferências de cuidados antecipados. O diálogo
interdisciplinar garante que as decisões são eticamente fundamentadas e
clinicamente coerentes, mesmo quando se enfrenta incerteza.
As
lacunas na formação em raciocínio ético continuam a ser um obstáculo
significativo à colaboração interdisciplinar eficaz. Muitos médicos da linha da
frente recebem uma formação formal insuficiente em ética. São obrigados a
confiar no seu julgamento pessoal quando confrontados com dilemas como aumentar
as doses de opioides ou iniciar a sedação paliativa[51]. Esta
variabilidade na competência ética pode levar a práticas inconsistentes e
exacerbar as tensões entre os membros da equipa. Programas de educação
interprofissional que enfatizam princípios éticos, sensibilidade cultural e
competências de comunicação podem fortalecer decisões coletivas e reduzir o
sofrimento moral entre os médicos[52]. Na prática, integrar serviços
de consulta ética aos cuidados paliativos e geriátricos de rotina permite que
as equipes tenham um apoio estruturado ao enfrentar decisões difíceis sobre
proporcionalidade, consentimento informado ou desacordo familiar[53].
O
papel dos enfermeiros é particularmente crítico, pois eles são frequentemente o
principal ponto de contacto para os doentes e suas famílias. Os enfermeiros
avaliam continuamente a dor, administram medicamentos e monitorizam os efeitos
secundários, colocando-os assim na interface entre as decisões clínicas e a
experiência do doente[54]. As suas perceções sobre as preferências
dos doentes e a dinâmica familiar frequentemente informam deliberações éticas
mais amplas dentro da equipa. Da mesma forma, os assistentes sociais
desempenham um papel vital na abordagem das barreiras financeiras, logísticas e
emocionais ao tratamento eficaz da dor, ajudando as famílias a lidar com o
sistema de saúde e facilitando o acesso aos recursos[55]. Os
capelães contribuem atendendo às dimensões espirituais do sofrimento, que
muitas vezes se tornam mais pronunciadas no fim da vida. O reconhecimento
destas funções garante que o tratamento da dor não seja definido de forma
restrita pela farmacologia, mas situado dentro de uma abordagem abrangente dos
cuidados.
As perspetivas interdisciplinares também facilitam a resolução de conflitos que surgem com frequência nos cuidados em fim de vida. Os desacordos entre famílias e médicos, ou entre os próprios membros da equipa, podem atrasar as decisões e contribuir para o sofrimento moral. Mecanismos como reuniões familiares, consultas éticas e estratégias estruturadas de resolução de conflitos ajudam a mediar desacordos e a redirecionar a atenção para resultados centrados no doente[56]. Esses processos são essenciais ao lidar com intervenções eticamente delicadas, como sedação paliativa contínua ou suspensão de tratamentos de suporte à vida. Ao incorporar múltiplas perspetivas, as equipas ficam mais bem posicionadas para equilibrar princípios éticos conflituantes e prestar cuidados que respeitem a dignidade do doente, minimizando o sofrimento.
Inovações e orientações futuras
A
avaliação da dor em doentes idosos frágeis e com deficiência cognitiva tem
tradicionalmente dependido de autoavaliação, mas essa abordagem muitas vezes
não é confiável em casos de demência avançada ou confusão mental. Para resolver
isso, foram aperfeiçoadas ferramentas de observação validadas, como a escala PAINAD
e o Doloplus-2, para detetar
indicadores comportamentais, incluindo expressões faciais, movimentos corporais
e vocalizações[22,57]. Esses instrumentos permitem que os médicos
detetem e quantifiquem a dor em doentes incapazes de verbalizar as suas
experiências. O seu uso sistemático melhora o reconhecimento do sofrimento e
ajuda a orientar a dosagem de analgésicos; no entanto, a implementação
permanece inconsistente entre os diferentes contextos de cuidados. A integração
mais ampla dessas ferramentas nos cuidados geriátricos e paliativos de rotina
representa uma inovação prática com importância ética significativa, pois reduz
o risco de dor não tratada em grupos vulneráveis.
As
tecnologias de monitorização digital também estão a transformar o panorama do
tratamento da dor em populações idosas. Os dispositivos vestíveis podem
rastrear indicadores fisiológicos de desconforto, como alterações na
variabilidade da frequência cardíaca, padrões de movimento e perturbações do
sono, que podem servir como indicadores da intensidade da dor[58].
As plataformas de monitorização remota permitem uma avaliação contínua fora dos
ambientes clínicos, fornecendo aos médicos dados longitudinais que podem
informar as decisões de tratamento. Para doentes frágeis que recebem cuidados
domiciliários ou em lares, estas tecnologias permitem detetar mais cedo o
agravamento dos sintomas e ajustar a terapêutica sem necessidade de visitas
incómodas ao hospital[59]. O desafio reside em garantir que essas
ferramentas sejam acessíveis, fáceis de usar e validadas em populações idosas
com comorbilidades.
A
inteligência artificial (IA) é cada vez mais aplicada à avaliação da dor e é
promissora em contextos em que as barreiras de comunicação complicam a
avaliação. Algoritmos de aprendizagem automática treinados em dados
multimodais, incluindo reconhecimento facial, análise de vocalização e métricas
baseadas em sensores, podem identificar padrões indicativos de dor, mesmo em
indivíduos não-verbais[60]. Estudos iniciais sugerem que os sistemas
baseados em IA podem superar os observadores humanos na deteção de sinais
subtis de desconforto em doentes com demência[61]. No entanto, estas
tecnologias levantam questões éticas importantes. Embora possam aumentar a
precisão do diagnóstico, existe o risco de que a dependência excessiva das
avaliações algorítmicas possa despersonalizar os cuidados, reduzindo assim a
atenção dos médicos às narrativas individuais e aos fatores contextuais. A
integração ética da IA no tratamento da dor geriátrica requer, portanto,
salvaguardas que garantam a supervisão humana e preservem os aspetos
relacionais dos cuidados[62].
O
futuro do tratamento da dor em doentes idosos frágeis e terminais também
depende do desenvolvimento de diretrizes éticas adaptadas ao contexto
geriátrico. Os quadros atuais muitas vezes extrapolam a partir de populações
mais jovens ou da oncologia, negligenciando as vulnerabilidades específicas dos
idosos com fragilidade e multimorbilidade[8]. Estudos recentes
exigem diretrizes que abordem explicitamente o equilíbrio entre o alívio da dor
e a preservação da função cognitiva, a proporcionalidade da sedação paliativa e
a alocação equitativa de recursos em contextos com financiamento insuficiente[63].
Essas diretrizes devem integrar conhecimentos da medicina paliativa, geriatria,
ética e saúde pública para fornecer aos médicos uma base estruturada, mas
flexível, para a tomada de decisões.
As
orientações futuras também devem abordar a formação do pessoal. A integração da
monitorização digital e das ferramentas de IA exigirá que os médicos adquiram
novas competências na interpretação e aplicação dos resultados tecnológicos de
forma eticamente sensível. A educação interdisciplinar que combina competências
clínicas, literacia tecnológica e raciocínio ético será crucial para evitar a
adoção fragmentada ou o uso indevido[64]. Além disso, as
disparidades globais no acesso à tecnologia e aos opioides exigem colaboração
internacional para garantir que as inovações não aumentem as desigualdades,
mas, em vez disso, ampliem o alcance do alívio eficaz da dor a populações
carenciadas. A investigação sobre estratégias de implementação culturalmente
sensíveis será essencial, uma vez que as atitudes em relação à tecnologia,
autonomia e cuidados em fim de vida variam amplamente entre as sociedades[65].
Ao juntar os progressos nas ferramentas de avaliação, monitorização digital e IA com o desenvolvimento de diretrizes éticas, o mundo está a caminhar para um modelo de gestão da dor mais reativo e centrado no doente.
Conclusões
O
tratamento da dor em doentes idosos frágeis e terminais é marcado por profundos
dilemas éticos, em que a necessidade imperativa de aliviar o sofrimento deve
ser equilibrada com os riscos de danos, perda de autonomia e cuidados iníquos.
O subtratamento corrói a dignidade, enquanto o tratamento excessivo pode levar
à sedação e à diminuição da qualidade de vida restante. A complexidade clínica,
os desacordos familiares e os quadros legais restritivos complicam ainda mais
as decisões, exigindo abordagens sensíveis e baseadas na ética. As inovações na
avaliação da dor e na monitorização digital representam ferramentas valiosas,
mas devem ser aplicadas com cautela para preservar a dimensão humana dos
cuidados. O futuro da clínica reside em políticas e diretrizes que integrem o
raciocínio ético com as provas clínicas, apoiadas por investigação e educação
contínuas.
A
colaboração multidisciplinar entre cuidados paliativos, geriatria, ética e
serviços psicossociais é essencial para garantir que o alívio da dor no fim da
vida continue sendo compassivo, personalizado e eticamente correto. Para
avançar nesse objetivo, as instituições de saúde e os decisores políticos devem
intensificar a educação ética, promover a tomada de decisões baseadas em dados
concretos e alocar recursos adequados para apoiar o acesso equitativo aos
cuidados paliativos. O estabelecimento de quadros jurídicos e profissionais
mais claros pode capacitar os médicos a agir com confiança dentro dos limites
éticos, garantindo que os doentes frágeis e idosos recebem cuidados que
respeitem o seu conforto e autonomia. O compromisso sustentado com estes princípios
ajudará a moldar um sistema de saúde que defenda a dignidade, minimize o
sofrimento e afirme o valor de cada vida até ao seu fim natural. <
Ver o artigo original, referências e afiliações AQUI
01 março 2026
Efeméride - 1 de março de 1926
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22 fevereiro 2026
Prevalência de Alzheimer
Tradução espontânea para
distribuição sem fins lucrativos de partes do
Relatório da Alzheimer Europe sobre a Prevalência de Demência em 2025
[para ver o Relatório completo clicar AQUI]
1. Prefácio
É com grande satisfação que apresento este relatório, que mostra estimativas da prevalência do número de pessoas que vivem com demência na Europa.
A
Alzheimer Europe publicou pela última vez um relatório deste tipo em
2019 (sob a forma de um Anuário sobre a Demência na Europa), que previa que o
número de pessoas que vivem com demência duplicasse até 2050. Estes números
continuam a ser amplamente partilhados e citados, não só pelas nossas
organizações nacionais afiliadas, mas também pelos meios de comunicação social,
pelos círculos académicos e pelos governos nacionais.
No
decorrer desse período, ocorreram muitos factos que tiveram implicações
significativas tanto no panorama das políticas como no da investigação. Por
exemplo, a pandemia da COVID-19 teve um impacto devastador nos sistemas de
saúde e de assistência social, além de afetar desproporcionadamente as
populações mais idosas e as pessoas com problemas de saúde prévios, incluindo
as pessoas que vivem com demência. Os efeitos colaterais da pandemia,
particularmente nos serviços de saúde e assistência social, ainda são sentidos
muitos anos depois.
De
forma mais positiva, houve um progresso considerável no desenvolvimento de
tratamentos modificadores da doença de Alzheimer, trazendo esperança e
mostrando grande potencial para garantir que as pessoas com a doença tenham uma
melhor qualidade de vida por mais tempo. No entanto, sabemos, pelo nosso
trabalho noutras áreas, que os países não estão preparados para disponibilizar
estes novos tratamentos.
Como
tal, há uma necessidade evidente de rever as nossas estimativas de prevalência,
para garantir que os números utilizados no nosso trabalho estejam atualizados e
sejam precisos. Em particular, é essencial que as decisões políticas para
melhorar os serviços de cuidados, os investimentos em infraestruturas de saúde
para diagnóstico e tratamento, bem como o apoio às famílias, cuidadores e
apoiantes de pessoas com demência, sejam informadas por projeções exatas da
prevalência da demência.
A
Alzheimer Europe utilizará estes dados atualizados sobre a prevalência
no seu trabalho de defesa e capacitação, fundamentando as suas contribuições em
matéria de políticas a nível global, europeu e nacional.
O
nosso relatório:
- Mostra que o número de pessoas que vivem
com demência continuará a aumentar significativamente nos próximos anos.
- Aponta estimativas atualizadas das taxas
de prevalência, com base em informações de estudos comunitários, envolvendo
mais de 43 000 participantes.
- Destaca as alterações nas taxas de
prevalência específicas por idade, em comparação com as nossas estimativas de
2019.
Em
conjunto, estas conclusões reforçam a nossa mensagem de que a dimensão do
desafio colocado pela demência em toda a Europa é substancial e é impulsionada
pelo envelhecimento demográfico.
A
Alzheimer Europe espera que estes números atualizados incentivem os
decisores políticos, tanto a nível europeu como nacional, a dar prioridade à
demência, nos domínios da saúde, investigação, políticas para pessoas com
deficiência e apoio a cuidadores informais. O nosso Manifesto de Helsínquia
estabelece um plano de ação para estas áreas e instamos os decisores políticos
a darem ouvidos a estes apelos. Entre eles, destaca-se a necessidade de um
Plano de Ação Europeu sobre a Demência e de uma missão de investigação dedicada
à demência, ambos com financiamento específico, para coordenar estes esforços
em toda a Europa.
Por
fim, gostaria de agradecer a todos aqueles que nos aconselharam sobre a nossa
abordagem a este trabalho e que dedicaram o seu tempo a partilhar os seus dados
connosco para permitir que este trabalho fosse concluído. Gostaria também de
agradecer especificamente o trabalho de Lukas Duffner, responsável pelo
projeto; Owen Miller, responsável pelas políticas; Christophe Bintener,
responsável pelo projeto; e Angela Bradshaw, diretora de investigação, pelo seu
trabalho na compilação e redação deste relatório.
Jean Georges, Diretor Executivo, Alzheimer Europe
2.
Introdução
2.1. Contexto e objetivos desta
publicação
Em
2019, a Alzheimer Europe publicou o seu Anuário sobre a Demência na
Europa, que continha estimativas atualizadas sobre a prevalência da demência na
Europa. Este relatório baseia-se no trabalho realizado nas últimas três
décadas, incluindo:
- O estudo EURODEM no início dos anos 80
(atualizado em 2000)
- Projeto da Alzheimer Europe,
Colaboração Europeia sobre Demência – EuroCoDe (2006–2008)
- A 1.ª Ação Conjunta da UE sobre Demência
– ALCOVE (2011–2013).
O
relatório de 2019 seguiu a metodologia utilizada no projeto EuroCoDe, além de
utilizar dados populacionais das Projeções da População Mundial das Nações
Unidas, permitindo o fornecimento de estimativas por país para os anos de 2018,
2025 e 2050.
Esta publicação tornou-se um dos
relatórios mais citados da Alzheimer Europe e continua a ser utilizada
pelas nossas organizações afiliadas, investigadores e decisores políticos,
tanto a nível nacional como europeu. Nos anos que se seguiram ao lançamento do
relatório, a Alzheimer Europe recebeu vários pedidos de diferentes
partes interessadas para atualizar estes dados, para que pudessem ser
utilizados nos seus respetivos domínios.
2.2. Relevância no contexto político
europeu e internacional
Desde
a publicação do Anuário da Demência na Europa 2019, houve uma série de
acontecimentos com particular importância para as pessoas que vivem com
demência e os seus cuidadores. Entre eles, destaca-se a pandemia da COVID-19,
que afetou de forma desproporcionada as populações mais idosas, especialmente
as pessoas que vivem em instituições residenciais de longa permanência. Não só
as taxas de mortalidade desta população foram significativamente mais elevadas,
como o efeito em cadeia na esperança de vida europeia foi substancial.
Para
contextualizar, os dados do Eurostat mostram que a esperança de vida à nascença
na UE diminuiu em 2020 e 2021 devido à pandemia da COVID-19. No entanto, os
valores da esperança de vida recuperaram em 2023, atingindo 81,4 anos — valores
superiores aos de 2019 e os mais elevados registados desde 2002, refletindo um
aumento total da esperança de vida de 3,8 anos. Para as mulheres na UE, a
esperança de vida à nascença atingiu 84,0 anos em 2023 (um aumento de 0,7 em
comparação com 2022 e o mesmo valor de 2019). Para os homens, a esperança de
vida à nascença em 2023 era de 78,7 anos (+0,8 em comparação com 2022 e +0,2 em
comparação com 2019).
Além
disso, após um declínio em 2020 e 2021, a população da UE aumentou pelo segundo
ano consecutivo, passando de 447,6 milhões em 1 de janeiro de 2023 para 449,2
milhões de pessoas em 1 de janeiro de 2024. A variação natural negativa (ou
seja, um número maior de mortes do que nascimentos) foi compensada pela
migração líquida positiva. Este crescimento populacional pode ser atribuído em
grande parte ao aumento dos movimentos migratórios após a pandemia, bem como à
chegada de pessoas deslocadas da Ucrânia, que receberam o estatuto de proteção
temporária nos países da UE, em consequência da guerra de agressão russa
iniciada em fevereiro de 2022.
Como
o principal fator de risco para a demência é a idade, o aumento contínuo da
esperança de vida aumenta a probabilidade de mais pessoas desenvolverem a
doença. Além disso, em 2024, foi publicada uma atualização das Projeções da
População Mundial da ONU, revendo as estimativas populacionais nacionais, conforme
às mudanças ocorridas nos últimos anos. Assim, para garantir que os países
respondessem de forma adequada, surgiu uma boa oportunidade para a Alzheimer
Europe atualizar as suas estimativas de prevalência sobre o número de
pessoas com demência na Europa.
A
nível regional, nacional e internacional, o planeamento estratégico das
políticas de saúde e serviços sociais depende da estimativa precisa da dimensão
da população que será afetada. Da mesma forma, os nossos membros nacionais
devem estar cientes do número de pessoas nos seus países, para informarem as
suas atividades de sensibilização e apoiarem o envolvimento com os decisores
políticos. Em particular, é importante notar que um número considerável de
países na Europa não tem estratégias nacionais ativas para a demência ou outras
atividades políticas relevantes específicas para a demência. A este respeito, é
útil considerar que o Plano de Ação Global da Organização Mundial da Saúde
sobre a Resposta da Saúde Pública à Demência 2017-25 foi prorrogado até 2031 na
78.ª Assembleia Mundial da Saúde, com a recomendação do Conselho Executivo que revelou
que nenhuma das metas nas sete áreas políticas gerais está a caminho de ser
cumprida.
Outro
desenvolvimento significativo nos últimos anos foi o avanço das terapias
modificadoras da doença de Alzheimer (e, em particular, as terapêuticas
antiamiloide). Embora ainda em fase inicial, estas novas terapêuticas
mostram-se bastante promissoras para o tratamento e gestão da doença nos
próximos anos. No entanto, além dos debates em curso sobre a relação
custo-eficácia desses tratamentos, existem outras barreiras; o preço dos
tratamentos não é a única barreira ao acesso aos tratamentos antiamiloide. Esses
tratamentos dependem de um diagnóstico atempado e preciso, com confirmação da Demência
de Alzheimer por biomarcadores. Além disso, dados os potenciais efeitos
secundários e as condições rigorosas para a sua utilização na Europa, há custos
adicionais associados aos cuidados prestados aos doentes, por exemplo, a
necessidade de exames de ressonância magnética.
Num
nível básico, obter um diagnóstico preciso e atempado da demência continua a
ser um desafio na prática clínica, o que impede muitas pessoas de aceder a
apoio, cuidados e tratamentos centrados no doente. Para proporcionar o nível de
exatidão diagnóstica necessário para permitir a utilização de tratamentos
antiamiloide, ainda há muito trabalho a fazer para melhorar as infraestruturas
de saúde em toda a Europa, bem como para melhorar as competências dos médicos
para administrarem estes tratamentos de forma eficaz e segura. É necessária uma
mudança de paradigma fundamental nos sistemas de saúde europeus para garantir
que estão preparados para as mudanças que se avizinham.
À
medida que a UE inicia o processo de negociações para o Quadro Financeiro
Plurianual (QFP), é imperativo que os decisores políticos tenham em conta as
alterações demográficas em todo o continente e o número crescente de pessoas
que vivem com demência. As prioridades políticas e as linhas orçamentais devem
refletir estas mudanças e prever financiamento específico para a demência nos
domínios da saúde, da investigação, da política em matéria de deficiência e do
apoio aos cuidadores informais.
Por todas estas razões, é essencial que as
estimativas sobre a prevalência da demência sejam atualizadas para incluir os
estudos mais recentes e os dados populacionais atualizados, a fim de demonstrar
a dimensão dos desafios colocados pela demência, agora e no futuro, para que
haja uma clara obrigação de os decisores políticos agirem.
2.3. Revisão da literatura
Abordagem
Ao
elaborar este relatório, realizámos uma pesquisa bibliográfica e uma revisão
dos estudos europeus sobre prevalência publicados desde a última vez que
realizámos este trabalho, em 2019, para o Anuário da Demência na Europa. Para
os estudos adequados, os dados brutos foram recolhidos contactando os autores,
antes de os adicionar aos dados já recolhidos em 2019. A partir daí, foi
possível calcular as taxas de prevalência atualizadas. Estas taxas foram então
aplicadas às Projeções da População Mundial da ONU para 2024 (o último ano para
o qual existem estimativas populacionais disponíveis), o que permitiu obter
estimativas do número de pessoas com demência nos países europeus.
A
fim de garantir a comparabilidade com o Anuário de 2019, a Alzheimer Europe
adotou a abordagem originalmente utilizada no projeto «EuroCoDe», com a mesma
metodologia de pesquisa e processo de triagem utilizados na nossa pesquisa
bibliográfica. Esta abordagem também foi utilizada no Anuário da Demência na
Europa de 2019. Os estudos acima mencionados utilizaram a seguinte sequência de
pesquisa:
«Demência/Prevalência/Incidência/Epidemiologia» ou «Doença de Alzheimer/Demência vascular, Doença de corpos de Lewy/Demência frontotemporal/Incidência/Prevalência Epidemiologia».
Utilizando
esta sequência na PubMed entre os dias 10 de julho de 2019 e 3 de fevereiro de
2025, foram identificadas 3588 publicações, as quais foram compiladas numa base
de dados Rayyan. Foram utilizados critérios de qualidade pré-determinados, definidos
no âmbito do projeto EuroCoDe, para selecionar títulos e resumos, a fim de
determinar se os estudos deveriam ser incluídos.
A
Tabela 1 descreve os critérios de inclusão utilizados para selecionar quais as publicações
a analisar.
Artigos revistos na íntegra
Após
esta triagem inicial, foram incluídos 37 artigos para revisão completa do
texto. Além disso, as suas listas de referências foram analisadas para
identificar estudos adicionais relevantes.
Quatro novos artigos publicados entre
julho de 2019 e fevereiro de 2025 foram considerados elegíveis para inclusão na
análise (somando-se aos 16 utilizados no Anuário de 2019). Foram contactados os
principais autores de cada artigo, solicitando os dados brutos do seu estudo,
para incorporação no conjunto de dados de 2019. Três dos autores responderam e
forneceram os dados solicitados. No entanto, verificou-se que uma das
publicações tinha utilizado dados de um estudo anteriormente incluído no
Anuário de 2019. Este artigo foi, portanto, excluído da nossa análise.
Análise
Os
dados brutos de cada artigo forneceram-nos o número de participantes no estudo
e o número de pessoas com demência, estratificados por faixas etárias de 5 anos
(de 60 a >90 anos) e por sexo.
Os dados para todos os casos acima de 90
anos foram combinados numa única faixa etária de 90+ (o EuroCoDe fez isso para
95+), refletindo a apresentação dos dados na maioria dos estudos identificados.
A prevalência específica por idade e sexo foi calculada usando o número total
de casos de prevalência de todos os estudos como numerador e a população total
do estudo examinada como denominador. Dessa forma, a ponderação foi obtida pelo
tamanho da amostra de cada estudo.
Taxas de prevalência de estudos
individuais
O nosso relatório de prevalência utilizou
um total de 18 estudos. Destes estudos, 16 foram identificados no Anuário da
Demência na Europa 2019. No total, a nossa análise incluiu dados brutos de
43 995 pessoas, das quais 13 732 provinham dos estudos recentemente
incluídos.
[…]
2.4. Advertências/Limitações do relatório
e das suas conclusões
Metodologia
O
Alzheimer Europe Dementia Prevalence Report 2025 é uma publicação que
procura mostrar uma visão geral do número estimado de pessoas com demência na
Europa, estabelecendo estimativas atualizadas da prevalência com base nas
publicações mais recentes e de maior qualidade. Para garantir a coerência com o
projeto EuroCoDe e a sua metodologia, bem como com o Anuário da Demência na
Europa 2019, que utilizou esta metodologia, analisámos apenas os estudos que
cumpriam os critérios de inclusão previamente definidos.
Como resultado da decisão de adotar esta
abordagem, um número considerável de estudos foi excluído da nossa análise,
muitas vezes por não serem estudos baseados na comunidade. Além disso, optámos
por realizar uma atualização cumulativa dos estudos baseados na comunidade
sobre a prevalência da demência, em vez de restringir a nossa análise apenas às
publicações recentes, pois isso teria reduzido substancialmente tanto o tamanho
geral da amostra como a representatividade geográfica dos dados.
Demência de início precoce
Em
consonância com as nossas conclusões do Anuário da Demência na Europa 2019,
existem relativamente poucos estudos publicados sobre a prevalência da demência
de início precoce (ou seja, pessoas com menos de 60 anos que vivem com alguma
forma de demência). Embora outros projetos (incluindo o EURODEM e o EuroCoDe)
tenham demonstrado, de um modo geral, que a prevalência nesta população é
substancialmente inferior à da população com mais de 60 anos, como se pode ver
na Tabela 2, apenas um estudo que cumpriu os nossos critérios incluiu
participantes com menos de 60 anos, nenhum dos quais era novo nesta análise.
Como tal, mais uma vez não foi possível atualizar as estimativas de prevalência
para a população com idades compreendidas entre os 30 e os 59 anos. Em vez
disso, continuámos a utilizar a taxa de prevalência de Hofman et al.,
1991, para este grupo etário, tal como foi utilizada no EuroCoDe, e aplicámo-la
aos dados populacionais mais recentes.
Da
mesma forma, apenas um pequeno número de estudos incluiu pessoas com idades
entre 60 e 64 anos, em comparação com faixas etárias mais elevadas. Portanto,
não tivemos a certeza de que seríamos capazes de apresentar estimativas de
prevalência confiáveis para esse grupo demográfico e, como resultado, as
estimativas de prevalência para a faixa etária de 60 a 64 anos em cada tabela
foram obtidas do estudo EuroCoDe.
A
Alzheimer Europe reconhece a fragilidade subjacente a uma abordagem que
se baseia em dados de um estudo publicado em 1991. Acreditamos que estes
números podem subestimar a população com menos de 65 anos que vive com
demência. Para mitigar esta limitação, procurámos fontes de dados alternativas
sobre a prevalência da demência de início precoce. No entanto, não conseguimos
identificar uma fonte de dados adequada para este fim. Se tais fontes tivessem
sido encontradas e utilizadas, isso teria criado um desafio adicional de
metodologias inconsistentes entre as faixas etárias.
Esta questão também foi abordada no
Anuário da Demência na Europa 2019 e reforça a necessidade de mais investigação
sobre a prevalência da demência em pessoas com menos de 65 anos e, mais
especificamente, a necessidade de estudos realizados na comunidade que incluam
este grupo etário.
Taxas de prevalência para tipos
específicos de demência
Nos
últimos anos, a investigação melhorou a entendimento sobre as doenças
subjacentes que causam a demência, em particular a doença de Alzheimer, o que
permite aos médicos fazerem diagnósticos mais específicos da demência, tanto em
relação ao tipo de demência como à fase da doença.
Especificamente,
a identificação de pessoas nas fases pré-sintomática ou de défice cognitivo
ligeiro da doença de Alzheimer está a tornar-se cada vez mais importante, à
medida que são exploradas intervenções de prevenção primária, secundária e
terciária. Além disso, a necessidade de um diagnóstico rigoroso torna-se
particularmente importante, dadas as condições prévias restritivas para a
utilização de tratamentos antiamiloide, por exemplo, exigindo um diagnóstico
específico da doença de Alzheimer, genótipo APOE, etc.
Como tal, esperávamos que estudos mais
recentes incluíssem informações sobre o tipo e o grau de demência na população
e que pudéssemos, assim, refletir isso no nosso trabalho, fornecendo
estimativas de prevalência dos tipos mais comuns de demência. No entanto, esses
dados não foram universalmente relatados em estudos baseados na comunidade e,
quando presentes, não foram suficientes para permitir uma estimativa fiável das
taxas de prevalência por tipos e/ou fases de demência em toda a Europa. O
presente relatório reflete, assim, estimativas globais da prevalência da
demência, sem referência ao tipo específico.
3. Principais
conclusões
Taxas de prevalência por idade e sexo
Utilizando
os dados brutos dos 18 estudos descritos na secção anterior, a Alzheimer
Europe conseguiu calcular as seguintes taxas de prevalência na Europa,
discriminadas por idade e sexo. Conforme explicado na secção anterior, devido à
falta de dados para a faixa etária dos 60 aos 64 anos, a Alzheimer Europe
utilizou a taxa de prevalência do estudo EuroCoDe. Da mesma forma, para a faixa
etária dos 30 aos 59 anos, a Alzheimer Europe não identificou nenhum
estudo que cumprisse os critérios de inclusão. Assim, em consonância com o
estudo EuroCoDe anterior, continuámos a utilizar o estudo de Hofman et al.,
1991, para as estimativas relativas a esta faixa etária.
A
Tabela 3 apresenta uma visão geral das taxas de prevalência calculadas para
cada faixa etária, discriminadas por sexo.
Tabela 3 – Taxas de prevalência estimadas,
estratificadas por idade e sexo
|
Faixa etária |
Prevalência
nas mulheres |
Prevalência
nos homens |
|
30-59 |
0,1 |
0,2 |
|
60-64 |
0,9 |
0,2 |
|
65-69 |
1,4 |
1,1 |
|
70-74 |
3,7 |
3,7 |
|
75-79 |
8,0 |
7,2 |
|
80-84 |
13,2 |
11,1 |
|
85-89 |
24,4 |
16,9 |
|
90+ |
44,7 |
30,8 |
Os
números relativos à prevalência são semelhantes aos apresentados no nosso
Anuário da Demência na Europa de 2019, com algumas diferenças evidentes em
termos de faixa etária e sexo (descritas mais detalhadamente abaixo).
Por sua vez, as nossas estimativas para
2019 foram amplamente consistentes com os estudos EuroCoDe e EURODEM. Isto pode
refletir a metodologia consistente utilizada pela Alzheimer Europe e
pelo EuroCoDe. No entanto, os estudos adicionais incluídos na nossa análise
indicam que a prevalência da demência continua a ser amplamente semelhante
dentro das faixas etárias (embora reconhecendo as ressalvas anteriormente
expressas para pessoas com menos de 65 anos).
Prevalência aplicada às estimativas
populacionais
Ao
aplicar as taxas de prevalência da Tabela 3 aos dados das Projeções da
População Mundial da ONU para 2024 relativos aos anos de 2025 e 2050, a Alzheimer
Europe conseguiu estimar o número de pessoas que vivem com demência em cada
país da Europa.
Na
secção 6, cada país tem um perfil próprio, estratificando o número de pessoas
que vivem com demência por idade e sexo, bem como a percentagem de pessoas que
vivem com demência na população total.
Para
as tabelas desta secção, apresentamos os números gerais, ou seja, o número
estimado de pessoas que vivem com demência, estratificado por sexo, bem como o
número estimado de pessoas com demência como percentagem da população total do
país. Para cada ano, 2025 e 2050, criámos uma tabela para:
- Países da UE27
- 12 países não pertencentes à UE (Arménia,
Bósnia e Herzegovina, Islândia, Israel, Montenegro, Macedónia do Norte,
Noruega, Sérvia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Reino Unido (estes países representam
aqueles em que a Alzheimer Europe tem organizações afiliadas ou
organizações de contacto)
Deve-se atender a que os números nas tabelas ao longo do relatório são arredondados e, portanto, podem não corresponder exatamente às somas.
Tabela 4 – Número estimado de pessoas que
vivem com demência em 2025 – países da UE27
|
País |
Homens |
Mulheres |
Total |
% do
total da população |
|
Alemanha |
644
122 |
1
203 355 |
1 847 478 |
2,20 |
|
Áustria |
59
746 |
112
389 |
172 136 |
1,89 |
|
Bélgica |
77
108 |
144
620 |
221 728 |
1,89 |
|
Bulgária |
36
826 |
78
375 |
115 201 |
1,72 |
|
Chéquia |
60
365 |
118
283 |
178 648 |
1,68 |
|
Chipre |
6
131 |
10
138 |
16 268 |
1,19 |
|
Croácia |
22
417 |
51
385 |
73 801 |
1,92 |
|
Dinamarca |
40
684 |
67
345 |
108 029 |
1,80 |
|
Eslováquia |
24
267 |
51
601 |
75 869 |
1,39 |
|
Eslovénia |
13
235 |
26
507 |
39 742 |
1,88 |
|
Espanha |
332
305 |
651
615 |
983 920 |
2,05 |
|
Estónia |
6
850 |
19
954 |
26 803 |
1,99 |
|
Finlândia |
40
868 |
76
689 |
117 556 |
2,09 |
|
França |
471
780 |
946
015 |
1 417 794 |
2,13 |
|
Grécia |
80
562 |
155
911 |
236 473 |
2,38 |
|
Hungria |
48
939 |
113
178 |
162 117 |
1,68 |
|
Irlanda |
26
998 |
42
951 |
69 949 |
1,32 |
|
Itália |
491
187 |
945
672 |
1 436 859 |
2,43 |
|
Letónia |
8
922 |
27
179 |
36 102 |
1,95 |
|
Lituânia |
13
058 |
38
354 |
51 412 |
1,82 |
|
Luxemburgo |
3
350 |
5
855 |
9 205 |
1,35 |
|
Malta |
3
483 |
5
993 |
9 476 |
1,74 |
|
Países Baixos |
117
838 |
194
791 |
312 628 |
1,70 |
|
Polónia |
191
414 |
426
766 |
618 180 |
1,62 |
|
Portugal |
79
857 |
158
544 |
238 401 |
2,29 |
|
Roménia |
94
271 |
194
560 |
288 831 |
1,53 |
|
Suécia |
76
579 |
124
522 |
201 100 |
1,89 |
|
Total |
3
073 159 |
5
992 547 |
9 065 706 |
2,02 |
4. Discussão e conclusões
Prevalência prevista de demência em 2050
Para
2025, os nossos números relativos à prevalência, 9 065 706 para os 27
países da UE e 12 122 979 para os países da UE e não pertencentes à
UE, são impressionantes e dão uma ideia da dimensão do desafio que a demência
representa.
Olhando
para 2050, queríamos fornecer uma projeção potencial de como a situação pode
evoluir e, como indicação da necessidade de ação, garantir que as pessoas com
demência e os seus cuidadores recebam apoio para viver bem, com os serviços e
apoios necessários disponíveis.
Com base nas nossas análises atuais,
estimamos que, até 2050, haverá 14 335 788 pessoas com demência nos
27 países da UE e 19 905 856 pessoas com demência nos países da UE e
fora da UE. Em termos simples: o número de pessoas que vivem com demência
aumentará 58 % na UE e 64 % nos países da UE e fora da UE como um todo até
2050.
Diferenças entre as estimativas da
Alzheimer Europe
A
semelhança nas nossas estimativas gerais de prevalência entre as faixas etárias
foi notável entre este relatório e o nosso Anuário de 2019. O Anuário observou
uma ligeira diferença nas taxas de prevalência, quando comparado com estudos
anteriores (EuroCoDe e EURODEM). É possível que as semelhanças metodológicas na
nossa abordagem a este trabalho expliquem esta consistência. Por outro lado, os
dois estudos adicionados à nossa análise não alteraram substancialmente as
nossas estimativas de prevalência nas faixas etárias. No âmbito deste trabalho,
não nos é possível fornecer uma explicação definitiva para estes resultados.
No entanto, observámos algumas variações
específicas por idade. Por exemplo, as taxas de prevalência para pessoas com
idades entre 70 e 74 anos (especialmente homens) são ligeiramente superiores às
anteriormente relatadas, representando a maior parte do aumento no número de
casos nessa faixa etária. Em contrapartida, as estimativas de prevalência para
a faixa etária de 75 a 79 anos (especialmente mulheres) são ligeiramente
inferiores em comparação com o Anuário de 2019. Além disso, observámos algumas
diferenças dentro dos países na proporção de pessoas com demência em relação à
população total entre o Anuário de 2019 e o relatório atual. Estas diferenças
foram particularmente pronunciadas nas projeções para 2050 e provavelmente
refletem mudanças demográficas, como o declínio geral da população, a partir
dos dados atualizados das Projeções da População Mundial 2024 da ONU.
Implicações decorrentes destes números
Estes
números reforçam um apelo que a Alzheimer Europe e os seus membros têm
vindo a fazer há muitos anos: o número de pessoas que vivem com demência
continua a crescer e os governos devem tomar medidas para garantir que a
sociedade esteja preparada para apoiar as pessoas com estas doenças, as suas
famílias e cuidadores, para que possam viver bem com a doença.
Do
ponto de vista das políticas, os sistemas de saúde e assistência social
precisam ter a capacidade e as infraestruturas necessárias para prestar
cuidados e apoios de alta qualidade às pessoas que vivem com a doença, desde o
diagnóstico até os cuidados paliativos. Além disso, as sociedades devem mudar
para eliminar o estigma associado à demência e devem adaptar-se para garantir
que as pessoas com a doença possam permanecer na comunidade pelo maior tempo
possível. O trabalho da Alzheimer Europe nesta área, incluindo o European
Dementia Monitor 2023, destacou muitas das lacunas na disponibilidade e
acessibilidade dos serviços de saúde e de assistência social.
Dado
o potencial demonstrado pelos tratamentos antiamiloide para a doença de
Alzheimer, há uma necessidade evidente de os decisores políticos em toda a
Europa garantirem que os contextos clínicos disponham das infraestruturas
necessárias para diagnosticarem, tratarem e monitorizarem os doentes, com os
médicos a possuírem as competências e a capacidade necessárias para prestar
cuidados e apoio de alta qualidade às pessoas que vivem com esta doença.
Além
disso, as agendas de investigação devem, prioritariamente, atribuir à demência
o estatuto que ela merece, dando prioridade à investigação básica para
compreender melhor a doença, aos estudos clínicos para desenvolverem
diagnósticos e tratamentos e à investigação demográfica para compreender melhor
as populações afetadas, permitindo melhores respostas do sistema.
Por fim, há um foco crescente na prevenção
da demência, por exemplo, através do trabalho de grande visibilidade da Comissão Lancet sobre Demência, que estimou que até 45% dos casos de
demência podem ser atribuídos a 14 fatores de risco modificáveis, incluindo
poluição atmosférica, má alimentação, falta de exercício físico e perda
auditiva. Como tal, há uma margem considerável para intervenções específicas
que reduzam significativamente a incidência da demência. No entanto, isso
exigirá esforços políticos sustentados no campo da Saúde Pública, para abordar
os fatores de risco associados à demência por meio de programas dedicados, bem
como para aumentar a consciencialização entre a população em geral.
A necessidade de mais estudos de
prevalência sobre tipos específicos de demência
Conforme
identificado na secção sobre limitações, há relativamente pouca investigação e
dados disponíveis sobre pessoas mais jovens com demência (ou seja, com menos de
65 anos), o que impossibilitou o desenvolvimento de novas estimativas de
prevalência para essa faixa etária. A Alzheimer Europe explorou
alternativas potenciais para apresentar números atualizados, mas nenhuma das
opções era adequada.
À
medida que o conhecimento clínico e científico sobre a demência se desenvolveu
ao longo da última década, foi realizado um trabalho extensivo para garantir
que as pessoas recebessem um diagnóstico mais preciso e específico da sua
condição. Embora alguns estudos tenham incluído esses dados nos seus artigos
(incluindo nos dados brutos), permitindo o cálculo da prevalência de cada tipo
de doença, isso não foi universal e, quando presente, foi insuficiente para nos
permitir gerar novas estimativas de prevalência por doença.
Portanto, é imperativo que futuros estudos
de investigação abordem essas lacunas. Para que os governos e os decisores
políticos possam responder adequadamente aos desafios que surgem com o aumento
do número de pessoas com demência, eles devem ter estimativas precisas,
incluindo o número de pessoas com demência de início precoce e informações
sobre o tipo específico de demência que foi diagnosticado.
Observações finais
Durante
o trabalho realizado para esta publicação, a 78.ª Assembleia Mundial da Saúde
votou a favor da aprovação da prorrogação do “Plano de Ação Global da
Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Resposta de Saúde Pública à Demência
2017-2025”, prolongando a vigência da estratégia até 2031. Esta decisão foi
tomada em resposta ao facto de nenhuma das metas do Plano de Ação Global estar
a caminho de ser cumprida. Embora a Região Europeia da OMS fosse a que mais
progressos fez em relação às metas, ainda não estava no bom caminho para as
atingir.
É
de notar que, nos últimos anos, a demência tenha perdido prioridade como
questão política, com muitos países sem uma estratégia para a demência e outros
optando por não renovar uma estratégia que já expirou. Além disso, ao nível da
UE, a demência tem recebido consideravelmente menos atenção no âmbito do
trabalho da UE em matéria de saúde, em comparação com o cancro e outras doenças
não transmissíveis.
Uma
faceta do trabalho da Alzheimer Europe nos últimos anos tem sido apoiar
as nossas associações afiliadas na campanha para que a demência seja
considerada uma prioridade política nacional, ao mesmo tempo que trabalhamos
para garantir que a demência seja incluída em diferentes políticas a nível da
UE. Uma parte fundamental deste trabalho é o Manifesto de Helsínquia, que estabelece as principais exigências
para os decisores políticos, tanto a nível da UE como nacional, para os
próximos cinco anos, em matéria de saúde, investigação, direitos das pessoas
com deficiência e apoio a cuidadores informais.
Este
relatório surge num momento em que o futuro orçamento da UE, o próximo Quadro
Financeiro Plurianual (QFP) 2028-2034, está a ser discutido. Já se verifica que
as propostas se estão a afastar do forte compromisso com a saúde, os assuntos
sociais e a investigação que se encontrava no atual QFP, em favor de uma maior
ênfase em áreas como a defesa e as atividades económicas, no âmbito da
competitividade.
A mensagem da Alzheimer Europe aos decisores políticos ao nível da UE e nacional é clara. O número de pessoas que vivem com demência continuará a crescer nas próximas décadas. Se não agirmos agora, investindo suficientemente nos sistemas de saúde, cuidados e proteção social, prestando apoio adequado à investigação sobre a doença e implementando intervenções preventivas fortes, corremos o risco de agravar os desafios que temos pela frente.
[…]
6.29. Portugal
|
Faixas etárias |
População total |
Homens |
Homens com demência |
Mulheres |
Mulheres com demência |
Número total de pessoas com demência |
|
30-59 |
4 116 743 |
1 992 374 |
3 149 |
2 124 369 |
1 947 |
5 096 |
|
60-64 |
732 495 |
339 211 |
678 |
393 284 |
3 540 |
4 218 |
|
65-69 |
683 273 |
313 359 |
3 473 |
369 914 |
5 021 |
8 493 |
|
70-74 |
620 493 |
280 377 |
10 571 |
340 116 |
12 536 |
23 108 |
|
75-79 |
531 863 |
232 937 |
16 954 |
298 926 |
23 878 |
40 832 |
|
80-84 |
377 003 |
155 089 |
17 140 |
221 915 |
29 285 |
46 426 |
|
85-89 |
242 049 |
88 245 |
14 939 |
153 804 |
37 572 |
52 511 |
|
90+ |
142 305 |
42 056 |
12 952 |
100 249 |
44 765 |
57 717 |
|
População 30-90+ |
7 446 222 |
3 443 646 |
79 857 |
4 002 575 |
158 544 |
238 401 |
|
População total |
10 411 834 |
% da população total 2,29 |
||||
|
Faixas etárias |
População total |
Homens |
Homens com demência |
Mulheres |
Mulheres com demência |
Número total de pessoas com demência |
|
30-59 |
3 213 841 |
1 596 142 |
2 522 |
1 617 698 |
1 483 |
4 005 |
|
60-64 |
536 166 |
256 751 |
514 |
279 416 |
2 515 |
3 028 |
|
65-69 |
617 623 |
287 030 |
3 181 |
330 593 |
4 487 |
7 668 |
|
70-74 |
691 181 |
313 336 |
11 814 |
377 846 |
13 927 |
25 741 |
|
75-79 |
659 573 |
290 549 |
21 148 |
369 025 |
29 478 |
50 625 |
|
80-84 |
544 595 |
229 869 |
25 405 |
314 726 |
41 533 |
66 938 |
|
85-89 |
409 278 |
161 275 |
27 302 |
248 003 |
60 584 |
87 886 |
|
90+ |
305 931 |
106 048 |
32 661 |
199 883 |
89 255 |
121 916 |
|
População 30-90+ |
6 978 187 |
3 240 997 |
124 546 |
3 737 189 |
243 261 |
367 807 |
|
População total |
9 770 271 |
% da população total 3,76 |
||||
Número de pessoas com demência em Portugal
em 2025 e 2050
Número de pessoas com demência em Portugal
em 2025 e 2050 por faixa etária





