https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000218272
Semiologia
Digital
Rui Araújo
Tradução espontânea para divulgação sem fins lucrativos do artigo
O Sr. Pascoal sentia-se bem. Não sentia dores, tinha um apetite normal e estava razoavelmente de bom humor. Foi com surpresa e ceticismo que leu a mensagem que apareceu uma manhã, ao mesmo tempo, no seu telemóvel e no seu relógio:
Caro Pedro, O sistema detetou algumas alterações nos teus movimentos corporais durante a noite. Se quiseres saber mais, clica aqui.
Ignorou a
mensagem estranha durante algum tempo, mas foi ficando cada vez mais inquieto.
A mensagem dizia respeito ao seu corpo, com o qual, como ele próprio admitia,
mantinha uma relação menos próxima do que seria desejável. Uma alteração nos
movimentos corporais — o que poderia ser? Algo benigno, como a coreografia
desajeitada de um bailarino amador? Ou um problema de saúde mais subtil, a
desenvolver-se abaixo do limiar de alerta pessoal dos sintomas clínicos?
Depois de receber
a terceira notificação, acabou por clicar na mensagem, ao mesmo tempo ansioso e
irritado.
Caro Pedro, Reparámos que, à noite, os teus braços se mexem mais do que o habitual. Também reparámos que, por vezes, falas muito, como se estivesses a ter um sonho agitado. Estas situações podem ser normais, mas, por vezes, estão associadas a problemas de saúde específicos. Aconselhamos-te a autorizar o sistema a recolher e analisar mais dados. Para além da tua autorização, não é necessária qualquer outra ação neste momento. Se desejares avançar, clica aqui.
Hesitou. O Sr.
Pascoal teria gostado de ter alguém com quem discutir estas questões. Um amigo
íntimo, um parceiro de confiança. Alguém com quem pudesse falar sobre assuntos
que fossem além das cortesias de rotina. Após alguma reflexão e tendo admitido
o seu desconforto em partilhar esses dados gratuitamente, sem saber exatamente
a quem, e na esperança ingénua de que mais tarde fossem utilizados em seu
benefício pessoal, o Sr. Pascoal acabou por autorizar os dispositivos a
recolher mais dados.
O relógio que
tinha no pulso recolhia continuamente dados sobre os movimentos do seu braço ao
longo do dia, enquanto ele trabalhava, caminhava, comia e dormia. O telemóvel
registava a velocidade a que ele escrevia mensagens, o número de erros
ortográficos e de digitação, a intensidade da sua voz durante as chamadas
telefónicas e a frequência do pestanejar natural, das expressões faciais e das
assimetrias faciais durante as videochamadas.
Após 2 meses, os
dispositivos apresentaram a sua análise. Detetaram movimentos anormais
regulares nos seus membros, que estavam associados a verbalizações frequentes
em momentos específicos durante a noite. Além disso, o Sr. Pascoal cometeu, de
acordo com os critérios do computador, um número de erros de digitação superior
ao normal ao enviar mensagens. A sua voz perdia intensidade à medida que o dia
avançava e as suas pálpebras pestanejavam com menos frequência do que o
esperado. A combinação destes sinais digitais constituía motivo de preocupação,
pelo que o sistema recomendou uma avaliação médica.
O
sistema pode realizar uma avaliação adicional, se assim o desejar. Ser-lhe-á
pedido que responda a algumas perguntas e, em seguida, que realize um conjunto
de tarefas motoras e cognitivas simples perante o seu dispositivo. Em menos de
3 horas, terá os resultados da avaliação neurológica à sua disposição. Se
desejar continuar, por favor, atualize para o serviço Premium por 3,99 $/mês.
Terá também acesso a mais de 150 canais de televisão.
O Sr. Pascoal
ficou inquieto. Despiu-se, olhou-se ao espelho, abriu a boca e analisou a cor
da sua conjuntiva. As suas mãos inexperientes percorreram-lhe o rosto e o
estômago, como cães cegos a farejar aleatoriamente em busca de algum mal
oculto, à espera de encontrar dor ou desconforto, uma textura áspera ou uma cor
anormal que se coadunasse com o resultado inquietante da sua análise digital.
Não conseguia marcar uma consulta com o seu médico a curto prazo, nem com um
neurologista, e mesmo que conseguisse, do que se queixaria? Que o seu telemóvel
e o seu relógio, de forma conspiratória, achavam que ele estava doente? Será
que os médicos tinham sequer recebido formação nesta nova linguagem de sinais
digitais, na ausência de sintomas evidentes?
Acabou por
concordar em avançar com a tal análise mais aprofundada. O telemóvel instruiu-o
a preencher um questionário mais detalhado (olfato, número de evacuações, etc.)
e a realizar várias tarefas motoras, tais como movimentos de pinça com os dedos
e caminhar em linha reta diante da câmara. O veredito surgiu rapidamente. O
sistema concluiu que existiam vários sinais digitais sugestivos da síndrome de
Parkinson, possivelmente da doença de Parkinson, e recomendou vivamente uma
avaliação médica presencial.
Se
não tiver acesso a um médico de família ou a um neurologista, pode dirigir-se
diretamente a um dos nossos centros de avaliação mais próximos da sua
residência. Aí, poderá realizar exames de imagiologia e submeter-se a colheitas
de sangue, urina e pele, que serão analisadas pelos nossos profissionais numa
unidade central. Para aceder a este serviço, subscreva o Premium Plus por 7,99
$/mês.
O Sr. Pascoal
decidiu não subscrever o Premium Plus e, em vez disso, marcou uma consulta com
um neurologista, ao vivo e presencialmente. Com a cabeça cheia de perguntas,
poderia facilmente ter recorrido a um chatbot, que, aparentemente, se
tinha tornado suficientemente «inteligente» para diagnosticar as pessoas de
forma adequada e rápida, mas o Sr. Pascoal sentiu que precisava de outra pessoa
do outro lado dessa interação.
Na sala de
espera, não lhe abriram a porta com a campainha, não lhe deram um bilhete nem
lhe pediram para digitalizar um código QR, o que, apesar de antiquado, pareceu
ao Sr. Pascoal uma mudança agradável. No final da consulta, e embora o exame
presencial tivesse confirmado o que a consulta telefónica tinha sugerido, a
conclusão não pareceu ao Sr. Pascoal assim tão grave. Havia algo no facto de
ter outro ser humano do outro lado da conversa que tornava as más notícias mais
suportáveis. O médico falou devagar enquanto discutia os possíveis tratamentos.
Ao sair do consultório, o Sr. Pascoal questionou-se se, caso as diferentes
opções de tratamento aparecessem simplesmente num ecrã e um drone entregasse o
medicamento selecionado diretamente à sua porta, os comprimidos funcionariam na
mesma. Mesmo que fosse esse o caso, ele não estava disposto a trocar a
interação que acabara de viver por esse tipo de conveniência digital, e marcou
uma consulta de acompanhamento presencial.<















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