02 agosto 2026

Declaração de uso de IA

Normalizar a transparência: argumentos para exigir declaração de utilização de Inteligência Artificial Generativa em todos os artigos — com um pedido de sugestões

 Brian D Earp1, Lucy Frith2, Sebastian Porsdam Mann3, Tsutomu Sawai4, Arianne Shahvisi5, Tenzin Wangmo6

Tradução espontânea sem fins lucrativos da introdução e conclusão do artigo

Normalising transparency: an argument for requiring generative AI use declarations in all manuscripts - with a call for commentaries

1Centro de Ética Biomédica, Universidade Nacional de Singapura, Singapura / 2Centro de Ética Social e Políticas, Universidade de Manchester, Reino Unido / 3Centro de Estudos Avançados em Direito da Inovação em Biociências, Universidade de Copenhaga, Dinamarca / 4Escola de Graduação em Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Hiroshima, Japão / 5Faculdade de Medicina de Brighton e Sussex, Brighton, Reino Unido / 6Instituto de Ética Biomédica, Basileia, Suíça

Este editorial aborda uma proposta de política relativa à utilização da inteligência artificial (IA) que poderemos adotar nos próximos meses, dependendo da resposta da nossa comunidade de autores e revisores e dos desenvolvimentos em curso na nossa editora, o Grupo BMJ. Propomos que todos os artigos submetidos ao Journal of Medical Ethics (JME) e ao JME Practical Bioethics (JMEPB) incluam uma secção específica intitulada Declaração de Utilização de IA Generativa no próprio artigo, colocada antes da lista de referências. Este requisito seria aplicável a todas as submissões, independentemente de ter sido, ou não, utilizada IA generativa – tal como definida na Caixa 1. Os autores afirmam que não foram utilizadas ferramentas de IA generativa (Opção A); afirmam que nenhuma foi utilizada para influenciar substancialmente o conteúdo do manuscrito, com exceção da ‘edição de texto’ I realizada com o auxílio da IA em textos escritos por humanos (Opção B); ou afirmam que foram utilizadas ferramentas de IA generativa, indicando quais foram utilizadas, bem como de que forma e para que fins (Opção C). Consulte a Caixa 2 para mais detalhes.

Caixa 1 Uma definição de inteligência artificial generativa (IA generativa) para facilitar a interpretação desta política: a definição ‘JME’

Por ‘IA generativa’, entendemos sistemas informáticos que produzem novos conteúdos, ou que transformam ou reveem substancialmente conteúdos existentes, tais como texto, códigos ou imagens, em resposta a solicitações do utilizador ou outros fatores. Estes sistemas produzem resultados ao aprenderem com padrões presentes nos dados de treino e ao recombiná-los através de extrapolação preditiva. Incluem, entre outros, os grandes modelos linguísticos. Para efeitos da presente política, não incluem ferramentas determinísticas, tais como calculadoras, software estatístico convencional, gestores de referências ou corretores ortográficos ou gramaticais basea­dos em regras. Todas as referências a ‘IA’ na presente política referem-se à IA generativa no sentido aqui descrito.

Nesta declaração, em conformidade com a política vigente do Grupo BMJ, os autores terão de declarar que deram um contributo substancial para o trabalho (cuja natureza deverá ser descrita no nosso campo ‘Contributos’, já em vigor há muito tempo), de acordo com os critérios de autoria do Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE)1. Além disso, terão de confirmar que pelo menos um dos autores indicados (ou um representante de confiança, como um assistente de investigação) verificou manualmente a exatidão e a relevância de cada referência citada no manuscrito. No futuro, o nosso plano é que todas as referências, no momento da submissão, tenham de incluir – sob a forma de uma hiperligação clicável – o identificador de objeto digital, caso exista, ou, em alternativa, uma hiperligação estável e funcional equivalente, quando disponível. Se não existir uma versão online de uma fonte ou se esta não puder ser razoavelmente localizada, será adicionada a seguinte nota de exoneração de responsabilidade: (sem ligação online disponível).

Estamos atualmente em conversações com o Grupo BMJ sobre a viabilidade de implementar estas alterações. O Grupo BMJ está também a desenvolver políticas atualizadas relacionadas com a IA em todo o seu portfólio de revistas, e esperamos que esta proposta contribua para esse debate mais alargado. Entretanto, solicitamos comentários sobre a política proposta à nossa comunidade de autores e revisores.

A IA generativa está a afetar cada vez mais todas as etapas do processo de publicação em bioética – desde autores que experimentam modelos de linguagem de grande escala (LLM) na redação e edição, passando por revisores que ditam os seus comentários a uma IA e depois solicitam que esta resuma as suas observações, até editores e colaboradores do setor editorial que utilizam a IA para identificar referências inventadas. Todos temos interesse na forma como estas ferramentas são utilizadas (ou não utilizadas, ou mal utilizadas), à medida que trabalhamos em conjunto para construir uma literatura de alta qualidade. Por conseguinte, iremos em breve lançar um apelo à apresentação de comentários sobre este editorial, e incentivamos-vos a fazer ouvir a vossa voz.

Queremos deixar claro, desde já, o que esta política proposta é e o que não é. Não se trata de uma política contra a IA. A nossa intenção não é penalizar os autores por utilizarem, muito menos por declararem que utilizaram, ferramentas de IA generativa nos seus textos. Pelo contrário, o nosso objetivo é normalizar e desestigmatizar as declarações de utilização da IA – tornando-as rotineiras e esperadas –, contribuindo assim para garantir que, caso sejam utilizadas ferramentas de IA generativa, os riscos específicos associados à sua utilização possam ser geridos de forma adequada.

Devemos também salientar que não consideramos o recurso à IA generativa na escrita académica como algo intrinsecamente problemático. Pelo contrário, acreditamos que, quando utilizada de forma responsável, a IA generativa pode potencialmente acrescentar valor ao trabalho académico nas áreas da ética médica e da bioética. Por exemplo, pode ser utilizada para assinalar ambiguidades gramaticais, falhas de lógica e/ou problemas estruturais que exijam uma análise humana mais aprofundada. Pode ajudar autores de diversas origens a traduzir os seus trabalhos e/ou a expressar as suas ideias de forma mais precisa, utilizando a linguagem padrão da área. Pode realizar pesquisas preliminares na literatura, permitindo aos autores verificar a originalidade da contribuição que pretendem apresentar. E, no caso de artigos empíricos, pode ser utilizada para apoiar a análise de dados, por exemplo, mediante a elaboração de programas para a realização de testes estatísticos – embora estes devam, evidentemente, ser verificados manualmente pelos autores (ou por um membro da sua equipa) que possuam os conhecimentos especializados necessários.

Mas cada uma destas utilizações, entre outras, acarreta também riscos para a qualidade e a integridade da investigação académica. Em vez de detetar de forma fiável lacunas lógicas, por exemplo, a IA generativa por vezes provoca-as. Além disso, pode ‘disfarçar’ retoricamente esses problemas com uma verborreia que soa plausível, mas que, em última análise, é incoerente ou enganadora, cujas insuficiências são cognitivamente fáceis de ignorar.2 Em vez de ‘aperfeiçoar’ ligeiramente o inglês de alguém para realçar as suas ideias originais com maior clareza, pode também uniformizar o seu estilo, transformando expressões encantadoramente idiossincráticas numa ‘linguagem académica’ genérica e sem vida.³ Pode ainda ‘introduzir sub-repticiamente’ as ideias de outra pessoa sem lhes atribuir o devido crédito – o chamado problema da ‘proveniência’, discutido mais adiante.4 No que diz respeito às pesquisas bibliográficas, embora as ferramentas de IA possam identificar rapidamente referências relevantes, também podem ‘inventar’ citações que não existem – um problema aparentemente generalizado que, de acordo com uma estimativa recente,5 provavelmente afetou dezenas de milhares de artigos publicados só em 2025. II Por fim, em vez de se limitar a melhorar de forma simples ou direta a investigação empírica, a IA generativa pode, entre outras considerações, permitir que os investigadores produzam códigos funcionais que talvez não tenham os conhecimentos necessários para compreender na íntegra, ao mesmo tempo que oculta escolhas analíticas importantes (por exemplo, com operações do tipo ‘caixa preta’), o que pode comprometer a reprodutibilidade.6

É claro que a probabilidade e a magnitude destes riscos variam consoante o nível de competência do utilizador e o(s) modo(s) específico(s) de utilização, e cada um deles pode, com os conhecimentos adequados, ser substancialmente mitigado (ver tabela 1 e caixa 4 para exemplos selecionados). Estes riscos não tornam a IA generativa categoricamente inutilizável. No entanto, tornam-na significativa de formas que exigem maior atenção, diligência e cuidado, não só por parte do utilizador, mas também por parte daqueles que têm a responsabilidade de avaliar o trabalho resultante.

Uma ferramenta capaz de, simultaneamente, introduzir erros lógicos disfarçando-os numa prosa fluente, ‘ajustar automaticamente’ a voz distintiva, mas eficaz, de um autor, ocultar a fonte original de um argumento ou conceito, inventar referências inexistentes e/ou tornar os métodos opacos é uma ferramenta cuja utilização – e de que forma – os revisores e editores precisam de saber, para que possam direcionar a sua atenção em conformidade. Isto, por sua vez, é um pré-requisito para a capacidade de realizar uma avaliação devidamente calibrada em termos de risco, ajudando assim a garantir que quaisquer questões relacionadas com a IA sejam abordadas antes da publicação. Não só isto aumentará, como é de esperar, a qualidade e a fiabilidade do registo académico, como também deverá reduzir a probabilidade de os autores passarem por situações embaraçosas desnecessárias (por exemplo, se os erros pós-publicação relacionados com a utilização ou uso indevido da IA exigirem a retratação ou correção do manuscrito).

Nas secções seguintes, aprofundamos a fundamentação subjacente às alterações propostas, com especial destaque para a exigência de uma secção separada dedicada à divulgação da utilização de IA em todos os artigos submetidos. Respondemos também a algumas possíveis objeções à política (por exemplo, que esta possa contribuir para o viés de revisores) e explicamos como a declaração funcionaria na prática.

 […]

 CONCLUSÃO

Não temos qualquer ilusão de que uma declaração obrigatória sobre a utilização de IA eliminará a utilização não divulgada destas ferramentas. Esta política proposta deve ser entendida mais como uma tentativa de criar expectativas profissionais do que como uma intervenção comprovada. Se for implementada, iremos monitorizar os seus efeitos, ouvir os comentários dos autores e revisores e rever a nossa abordagem conforme necessário. No entanto, podemos afirmar com alguma confiança que a situação atual – em que o uso da IA é provavelmente generalizado, mas a divulgação é rara, e em que aqueles que são honestos quanto às suas práticas correm o risco de ficar em desvantagem em relação aos que não o são – é insustentável. Convidamos-vos a enviar os vossos comentários críticos e feedback sobre esta proposta, enquanto continuamos a investigar como esta, ou uma versão melhorada da mesma com base nas vossas sugestões, poderá ser implementada futuramente da melhor forma. <

 

Para ler o artigo original, clicar AQUI

 

[I] Adotamos a definição utilizada pelas revistas do portfólio da Nature: ‘Melhorias realizadas com o auxílio da IA em textos gerados por humanos, com vista a melhorar a legibilidade e o estilo e a garantir que os textos estejam isentos de erros gramaticais, ortográficos, de pontuação e de tom. Estas melhorias realizadas com o auxílio da IA podem incluir alterações na formulação e na formatação dos textos, mas não incluem trabalho editorial generativo nem a criação autónoma de conteúdos’.18 Como apontam Hosseini e colegas 14, ao utilizarem a abreviatura GenAI para designar a IA generativa: pode-se argumentar que a diferença entre a assistência à escrita e a criação de texto é gradual, e que a primeira poderia transformar-se na segunda, [mas] ainda é possível distinguir entre as duas. ‘Isto deve-se ao facto de a GenAI fornecer aquilo que os utilizadores solicitam. Se os utilizadores pedirem à GenAI para melhorar a gramática, o estilo e a legibilidade [de um texto que tenham redigido manualmente], esse será o resultado gerado; mas se pedirem à GenAI para criar novas frases ou expandir o texto existente, é isso que irão obter’ (p. 729). No entanto, Hosseini et al referem também que, mesmo no caso da revisão ajudada por IA, ‘podem ainda surgir vieses e erros, sendo da responsabilidade dos autores verificar se o texto revisto é exato, preciso e relevante’ (p. 734).

[I] Não obstante, reconhecemos que a identificação estilométrica de textos influenciados pela IA não é, em geral, fiável.19 E embora não encorajemos especificamente a utilização de ferramentas de IA para editar e/ou gerar texto em manuscritos submetidos às revistas da família JME, também não proibimos tal utilização – desde que sejam respeitadas as condições indicadas na Caixa 4. Por estas razões, não apoiamos, nem temos planos de adotar, a utilização de ferramentas editoriais cujo objetivo principal seja simplesmente ‘detetar’ conteúdo gerado por IA, como se tal fosse, por si só, proibido.

 

27 julho 2026

Efeméride - 27 de julho de 1896

Há 130 anos faleceu Rodrigues de Freitas

José Joaquim Rodrigues de Freitas (1840-1896) 
foi professor catedrático, escritor, jornalista e político português.

Formou-se em Engenharia Civil de Pontes e Estradas na Academia Politécnica do Porto [...] iniciou uma longa carreira universitária na referida Academia, sendo lente de Comércio e Economia Política. [...] A sua carreira parlamentar, sempre marcada por uma vigorosa independência partidária [...] assaz crítica e polémica, seja na defesa intransigente dos interesses do Norte, seja na denúncia dos atos governativos [...] Em 1878, candidato pelo Centro Eleitoral Republicano Democrático do Porto, sendo o primeiro deputado a sê-lo. [Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834-1910, vol. 2, M. Filomena Mónica (coord.), Miguel Bandeira Jerónimo. Coedição do ICS, U.Lisboa e da Assembleia da República, 2005, p. 248]


20 julho 2026

Ressuscitação em Oncologia

Ressuscitação em Oncologia: limites, ética, prática e humanidade

tradução espontânea do resumo do artigo

Resuscitation in Oncology: Limits, Ethics, Practice, and Humanity

Andjelković L, Krnojelac M, Potočnik I

Centro Médico Universitário de Liubliana, Eslovénia

Resumo

Introdução

A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é uma das decisões mais significativas na medicina clínica – um momento crucial entre a vida e a morte, onde a ciência, a ética e a humanidade se cruzam. Embora os progressos nos sistemas de cuidados de saúde, na tecnologia e na formação tenham aperfeiçoado a técnica e a logística, os resultados nem sempre conduzem a uma sobrevivência significativa e com integridade neurológica. Em oncologia – onde as trajetórias da doença são heterogéneas, o peso do tratamento é substancial e a reserva orgânica é frequentemente limitada – estas tensões são especialmente pronunciadas. Métodos e abordagens: Este artigo analisa a ressuscitação como um processo médico, ético e humano, dando especial destaque aos doentes com cancro. Analisamos estratégias contemporâneas para o reconhecimento precoce da deterioração clínica (MEWS, NEWS, ativação do MET), a prontidão da equipa para o Suporte de Vida Imediato e as tomadas de decisões estruturadas sobre os limites da ressuscitação. Abordamos também a comunicação com os doentes e as famílias, o quadro jurídico das ordens de «Não Ressuscitar» (DNR) e as distinções entre a renúncia ao tratamento, a sedação paliativa e a eutanásia, enfatizando considerações específicas da oncologia, tais como a carga metastática, a intenção do tratamento (curativo vs. paliativo), o estado funcional e a reserva orgânica.

Resultados e discussão

A eficácia global da ressuscitação continua a ser modesta (taxa de sobrevivência de aproximadamente 5 a 20 %), o que realça a importância da prevenção e da intervenção precoce. Nos cuidados oncológicos, os limites da ressuscitação são tanto clínicos como éticos, exigindo proporcionalidade entre o benefício provável e os riscos de prolongar o sofrimento, uma atenção cuidadosa ao prognóstico e aos resultados neurológicos esperados, bem como um alinhamento rigoroso com os objetivos dos cuidados. O envolvimento precoce e contínuo dos serviços de cuidados paliativos, a par de cuidados a longo prazo robustos, proporciona alternativas humanas e consentâneas com os valores dos doentes com doença avançada. Os psicoterapeutas e os capelães desempenham papéis essenciais no apoio às famílias e à equipa clínica. As reuniões pós-evento estruturadas e as salvaguardas ao nível do sistema são essenciais para mitigar a exaustão e o sofrimento moral nas equipas de oncologia. Iniciar ou interromper a ressuscitação em oncologia requer especialização, empatia e clareza moral. Os cuidados que preservam a dignidade dependem do alinhamento das intervenções com os valores do doente e com objetivos clínicos realistas. A aceitação do curso natural da morte representa uma componente importante dos cuidados médicos responsáveis e centrados no doente.

                    Para ler o artigo original clicar AQUI 

29 junho 2026

Semiologia digital

https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000218272

Semiologia Digital

Rui Araújo

Tradução espontânea para divulgação sem fins lucrativos do artigo

Digital Semiology

O Sr. Pascoal sentia-se bem. Não sentia dores, tinha um apetite normal e estava razoavelmente de bom humor. Foi com surpresa e ceticismo que leu a mensagem que apareceu uma manhã, ao mesmo tempo, no seu telemóvel e no seu relógio:

Caro Pedro, O sistema detetou algumas alterações nos teus movimentos corporais durante a noite. Se quiseres saber mais, clica aqui.

Ignorou a mensagem estranha durante algum tempo, mas foi ficando cada vez mais inquieto. A mensagem dizia respeito ao seu corpo, com o qual, como ele próprio admitia, mantinha uma relação menos próxima do que seria desejável. Uma alteração nos movimentos corporais — o que poderia ser? Algo benigno, como a coreografia desajeitada de um bailarino amador? Ou um problema de saúde mais subtil, a desenvolver-se abaixo do limiar de alerta pessoal dos sintomas clínicos?

Depois de receber a terceira notificação, acabou por clicar na mensagem, ao mesmo tempo ansioso e irritado.

Caro Pedro, Reparámos que, à noite, os teus braços se mexem mais do que o habitual. Também reparámos que, por vezes, falas muito, como se estivesses a ter um sonho agitado. Estas situações podem ser normais, mas, por vezes, estão associadas a problemas de saúde específicos. Aconselhamos-te a autorizar o sistema a recolher e analisar mais dados. Para além da tua autorização, não é necessária qualquer outra ação neste momento. Se desejares avançar, clica aqui.

Hesitou. O Sr. Pascoal teria gostado de ter alguém com quem discutir estas questões. Um amigo íntimo, um parceiro de confiança. Alguém com quem pudesse falar sobre assuntos que fossem além das cortesias de rotina. Após alguma reflexão e tendo admitido o seu desconforto em partilhar esses dados gratuitamente, sem saber exatamente a quem, e na esperança ingénua de que mais tarde fossem utilizados em seu benefício pessoal, o Sr. Pascoal acabou por autorizar os dispositivos a recolher mais dados.

O relógio que tinha no pulso recolhia continuamente dados sobre os movimentos do seu braço ao longo do dia, enquanto ele trabalhava, caminhava, comia e dormia. O telemóvel registava a velocidade a que ele escrevia mensagens, o número de erros ortográficos e de digitação, a intensidade da sua voz durante as chamadas telefónicas e a frequência do pestanejar natural, das expressões faciais e das assimetrias faciais durante as videochamadas.

Após 2 meses, os dispositivos apresentaram a sua análise. Detetaram movimentos anormais regulares nos seus membros, que estavam associados a verbalizações frequentes em momentos específicos durante a noite. Além disso, o Sr. Pascoal cometeu, de acordo com os critérios do computador, um número de erros de digitação superior ao normal ao enviar mensagens. A sua voz perdia intensidade à medida que o dia avançava e as suas pálpebras pestanejavam com menos frequência do que o esperado. A combinação destes sinais digitais constituía motivo de preocupação, pelo que o sistema recomendou uma avaliação médica.

O sistema pode realizar uma avaliação adicional, se assim o desejar. Ser-lhe-á pedido que responda a algumas perguntas e, em seguida, que realize um conjunto de tarefas motoras e cognitivas simples perante o seu dispositivo. Em menos de 3 horas, terá os resultados da avaliação neurológica à sua disposição. Se desejar continuar, por favor, atualize para o serviço Premium por 3,99 $/mês. Terá também acesso a mais de 150 canais de televisão.

O Sr. Pascoal ficou inquieto. Despiu-se, olhou-se ao espelho, abriu a boca e analisou a cor da sua conjuntiva. As suas mãos inexperientes percorreram-lhe o rosto e o estômago, como cães cegos a farejar aleatoriamente em busca de algum mal oculto, à espera de encontrar dor ou desconforto, uma textura áspera ou uma cor anormal que se coadunasse com o resultado inquietante da sua análise digital. Não conseguia marcar uma consulta com o seu médico a curto prazo, nem com um neurologista, e mesmo que conseguisse, do que se queixaria? Que o seu telemóvel e o seu relógio, de forma conspiratória, achavam que ele estava doente? Será que os médicos tinham sequer recebido formação nesta nova linguagem de sinais digitais, na ausência de sintomas evidentes?

Acabou por concordar em avançar com a tal análise mais aprofundada. O telemóvel instruiu-o a preencher um questionário mais detalhado (olfato, número de evacuações, etc.) e a realizar várias tarefas motoras, tais como movimentos de pinça com os dedos e caminhar em linha reta diante da câmara. O veredito surgiu rapidamente. O sistema concluiu que existiam vários sinais digitais sugestivos da síndrome de Parkinson, possivelmente da doença de Parkinson, e recomendou vivamente uma avaliação médica presencial.

Se não tiver acesso a um médico de família ou a um neurologista, pode dirigir-se diretamente a um dos nossos centros de avaliação mais próximos da sua residência. Aí, poderá realizar exames de imagiologia e submeter-se a colheitas de sangue, urina e pele, que serão analisadas pelos nossos profissionais numa unidade central. Para aceder a este serviço, subscreva o Premium Plus por 7,99 $/mês.

O Sr. Pascoal decidiu não subscrever o Premium Plus e, em vez disso, marcou uma consulta com um neurologista, ao vivo e presencialmente. Com a cabeça cheia de perguntas, poderia facilmente ter recorrido a um chatbot, que, aparentemente, se tinha tornado suficientemente «inteligente» para diagnosticar as pessoas de forma adequada e rápida, mas o Sr. Pascoal sentiu que precisava de outra pessoa do outro lado dessa interação.

Na sala de espera, não lhe abriram a porta com a campainha, não lhe deram um bilhete nem lhe pediram para digitalizar um código QR, o que, apesar de antiquado, pareceu ao Sr. Pascoal uma mudança agradável. No final da consulta, e embora o exame presencial tivesse confirmado o que a consulta telefónica tinha sugerido, a conclusão não pareceu ao Sr. Pascoal assim tão grave. Havia algo no facto de ter outro ser humano do outro lado da conversa que tornava as más notícias mais suportáveis. O médico falou devagar enquanto discutia os possíveis tratamentos. Ao sair do consultório, o Sr. Pascoal questionou-se se, caso as diferentes opções de tratamento aparecessem simplesmente num ecrã e um drone entregasse o medicamento selecionado diretamente à sua porta, os comprimidos funcionariam na mesma. Mesmo que fosse esse o caso, ele não estava disposto a trocar a interação que acabara de viver por esse tipo de conveniência digital, e marcou uma consulta de acompanhamento presencial.<

 

21 junho 2026

Perversidade em Medicina


N Engl J Med 2026;394:2079-2081      DOI: 10.1056/NEJMp2602962


A PERVERSIDADE NA MEDICINA – 
QUANDO VOCAÇÃO E MERCANTILISMO ENTRAM EM CONFLITO
Louise Aronson 
Tradução espontânea para distribuição sem fins lucrativos do artigo
Perversity In Medicine — When Vocation And Corporatization Clash

Nesta era da medicina empresarial, em que os líderes dos sistemas de saúde afirmam: estamos a construir o novo hospital do futuro, a par de instalações de classe mundial para a investigação biomédica, o que ouço é: “estamos a apostar na vitória no nosso atual sistema médico, em vez de inovarmos para o melhorar, apesar de este estar a falhar aos doentes e a provocar um abandono sem precedentes das profissões da saúde”.1,2

E quando – apesar da complexidade da situação e das suas boas intenções – dizem: adquirimos mais dois hospitais locais de base comunitária, uma medida que nos permitirá atender mais doentes com necessidades médicas complexas no nosso campus principal, o que ouço é: “tendo já marginalizado os cuidados de saúde primários e a psiquiatria – serviços desesperadamente necessários, essenciais para a saúde e subfinanciados – para outro antigo hospital comunitário onde o nosso imperialismo cultural já se estabeleceu, continuamos a invadir territórios estranhos em busca de matérias-primas escassas a nível local e de mercados cativos significativos, deixando os colonizados literal e culturalmente empobrecidos, ao mesmo tempo que aumentamos a nossa própria riqueza e poder”.

Quando dizem: este processo levou tempo e exigiu esforços coletivos de muitos, não consigo deixar de ouvir: “sabemos que vocês – o corpo docente, o pessoal e os estudantes da organização – deixaram bem claro, há alguns anos, que se opunham a esta fusão-aquisição, mas esperamos que, agora que podemos impor as nossas crenças e tradições nestes locais, ignorem que, em vez de vos ouvirmos, encontrámos uma forma de contornar a vossa oposição”.

Quando dizem: estamos a alargar o acesso aos cuidados de saúde primários e secundários nos novos hospitais, aprendi, com base em relatos de aquisições semelhantes, tanto a nível local como nacional, a interpretar isso como: “não nos importamos realmente com a diluição da nossa cultura, dos nossos padrões e da nossa reputação, desde que esse enfraquecimento ocorra longe dos campus principais e das necessidades lucrativas de cuidados terciários que não tentamos impedir (incluindo nas novas instalações, onde, quase imediatamente, os cuidados primários serão eliminados dos planos)”.

Quando dizem: estamos ansiosos por dar as boas-vindas aos nossos novos colegas de equipa ao nosso sistema de saúde, o que eu ouço é: “já não fingimos que os cuidados de saúde sejam outra coisa senão um negócio, e vocês, «colegas de equipa», que queriam ajudar as pessoas e dar prioridade aos cuidados e à compaixão, são idealistas ingénuos com noções ultrapassadas de vocação e serviço”.

Quando dizem que “diretor executivo” é o cargo da pessoa que lidera a fusão com esta mais recente colónia, percebo que, embora possam existir algumas justificações válidas para estas medidas, as minhas suposições básicas sobre os seus principais motivos e objetivos estão corretas.3

E quando, apenas alguns meses após a fusão, dizem: temos planos ambiciosos para o futuro, incluindo o aumento do número de pacientes dos nossos dois hospitais recém-adquiridos nos próximos 2 anos, o que eu ouço é: “não estamos interessados em melhorar a saúde nas nossas comunidades nem em proporcionar acesso adequado aos cuidados de saúde primários que melhore os resultados de saúde, porque, no mundo real, não se ganha dinheiro com pessoas saudáveis”.

Quando dizem: médicos do corpo docente, juntem-se a nós para um café e bolos, o que eu ouço é: “vamos dar-vos dois medicamentos – um dos quais perturba o vosso microbioma, aumenta a dor, a depressão, a fadiga e contribui para a obesidade, a diabetes, o cancro e as doenças cardíacas4 – como forma de vos convencer a estar na mesma sala que nós, porque suspeitamos que estejam bem cientes de que um diagrama de Venn dos vossos valores e dos nossos mostraria uma interseção cada vez menor”.

Quando dizem: a equipa de direção do nosso sistema de saúde está empenhada numa comunicação atempada e transparente, o que eu ouço é: “as aulas na nossa escola de gestão ensinaram-nos que, se repetirmos isto vezes suficientes, vocês vão acreditar em nós, mesmo quando as nossas ações sugerem o contrário”.

Quando dizem que, todos os anos em agosto, à medida que a época da gripe se aproxima, nos esforçaremos novamente por manter toda a nossa comunidade saudável e que as clínicas de vacinação contra a gripe estarão abertas até setembro, o que eu ouço é: “embora estejamos cientes de que o momento ideal para a vacinação contra a gripe é normalmente em outubro, recolher dados que demonstrem uma vacinação generalizada do pessoal é mais importante para nós do que fazer o que as provas sugerem ser o melhor para a vossa saúde”.

Quando dizem: foi-lhe concedida autorização para codificação autónoma, o que eu ouço é: “aqui está mais uma tarefa fora do conjunto de competências que passaste anos a desenvolver e que esperamos que faças sem tempo nem remuneração adicionais, nos minutos já de si insuficientes que te atribuímos para as consultas dos teus doentes, mas que legiões de administradores irão monitorizar para avaliar a tua produtividade, porque nos preocupamos muito mais com a tua faturação do que com a tua capacidade de prestar os cuidados que os teus doentes merecem ou com o teu bem-estar enquanto profissional de saúde forçado a escolher entre fazer o que está certo e fazer o que exigimos”.

Quando dizem: estamos a gastar mais de 4 mil milhões de dólares para construir um dos hospitais mais avançados do país, o que eu ouço é: “estamos, mais uma vez, a contar com o facto de que aqueles de vós que trabalham em serviços ambulatórios degradados serão demasiado ambiciosos, apolíticos, ocupados, egocêntricos, endividados, avessos a conflitos, oprimidos ou submissos para se manifestarem, enquanto construímos mais e melhores instalações focadas em cuidados terciários e subespecialidades, ignorando os atuais tempos de espera de 5 a 10 meses para cuidados de subespecialidade e agravando a espiral de morte dos cuidados primários, em que a negligência sistemática leva à dependência de clínicos mais baratos e menos qualificados, o que conduz a cuidados de pior qualidade, o que leva a uma maior dependência de especialistas, o que leva a tempos de espera mais longos, o que leva a uma maior necessidade de cuidados para doenças em fase avançada, com os quais a nossa organização lucra”.5

Quando dizem: com estas múltiplas aquisições de elevado custo e planos de expansão, vamos promover a inovação clínica e reforçar os serviços e programas, o que eu ouço é: “se acham que as últimas interações dos vossos doentes com os serviços ambulatórios foram más, esperem só até encontrarmos mais formas de afastar ainda mais os doentes dos seus «prestadores de cuidados» – em breve, os doentes vão recordar com saudade a possibilidade de marcar uma consulta convosco com meses de antecedência para um problema que poderiam ter resolvido facilmente com um e-mail ou um telefonema, se a mensagem deles vos tivesse chegado – o que teria acontecido se valorizássemos suficientemente o atendimento ao doente para desenvolver sistemas que promovessem, em vez de desmantelarem, o tipo de relações entre doente e profissional de saúde que vos levou a seguir a medicina, no início.

Quando dizem: não estamos a fazer isto apenas para crescer, estamos a fazê-lo para posicionar a universidade de forma a tirar partido deste momento mágico na ciência e nos cuidados de saúde, o que ouço é: “estamos tão desligados da realidade que proferimos estas palavras precisamente no momento histórico em que os custos dos cuidados de saúde são a principal preocupação económica dos americanos e os principais meios de comunicação social declararam que o sistema de saúde dos EUA está falido e a piorar”.

Quando dizem que a satisfação dos médicos aumentou e as taxas de esgotamento diminuíram este ano, o que eu ouço é: “usamos os nossos conhecimentos de estatística apenas da forma que nos convém, e, neste caso, convém-nos ignorar o facto de que o denominador também mudou, tendo em conta todas as saídas da nossa instituição e da medicina clínica nos últimos anos e os muitos médicos que estão demasiado ocupados ou desiludidos para preencher os inquéritos.

Estas são apenas algumas das razões pelas quais, quando digo que a maioria das comunicações dos líderes do sistema de saúde me parece ser um «deitar sal na ferida», espero que compreendam o seguinte: “ignorei intencionalmente as complexidades indiscutíveis e os objetivos louváveis de alguns líderes empresariais, para vos transmitir a minha experiência emocional enquanto profissional de saúde, doente e cuidador familiar; e que, quando utilizo a palavra «perversidade» em referência à sua visão e às suas comunicações, faço-o no seu sentido fundamental – para sublinhar um desvio do que é certo e bom, ou seja, uma prioridade intencional aos valores empresariais em detrimento da missão principal da medicina e do próprio sucesso profissional dos líderes empresariais em detrimento de reformas potencialmente arriscadas, mas desesperadamente necessárias, que visam, acima de tudo, melhorar a saúde humana”. <

Referências 1. Blumenthal D, Gumas ED, Shah A, Gunja MZ, Williams RD II. Mirror, mirror 2024: a portrait of the failing U.S. health system — comparing performance in 10 nations. New York: Commonwealth Fund, September 19, 2024. 2. Kuchno K. 1 In 4 healthcare workers considering industry exit: indeed. Becker’s Hospital Review. November 13, 2025. 3. What is the role of the CMO? American Marketing Association, April 12, 2022. 4. Gearhardt AN, Brownell KD, Brandt AM. From tobacco to ultraprocessed food: how industry engineering fuels the epidemic of preventable disease. Milbank Q 2026 February 2 (Epub ahead of print). 5. Song Z, Zhu JM. Primary care — from common good to free-market commodity. N Engl J Med 2025;392:1977-1979.  

12 junho 2026

Efeméride - 12 de junho de 2015

Tu és Elsa! Tu és neta !
No dia dos teus anos
Tu és Elsa ! Tu és esperta!
com teus genes romanos

junto aos portugueses
Tu és Elsa! Tu és bela !
É por isso que às vezes
fazes versos à janela…

Tu é Elsa! Tu és marota!
Tuas quadras são afinal,
mesmo com alguma batota,
um modo e um sinal
de que, mesmo sendo a menor,
Tu és Elsa! Tu és a MAIOR !!!

🩷❤️🧡💛💚🩵💙💜🖤🩶🤍🤎

06 junho 2026

Efeméride - 6 de junho de 1916

Há 110 anos faleceu o oftalmologista Plácido da Costa (1848-1916), topónimo portuense.


«O instrumento de que me sirvo para a queratoscopia é formado por um disco delgado e leve, feito de qualquer substância – madeira, cartão, zinco, etc. – perfeitamente plano e de uma espessura uniforme. O seu diâmetro mede 23 cm. Sobre a mais plana das faces deste disco traço uma série de zonas, alternadamente brancas e pretas [...]» História do Ensino Médico no Porto, Maximiano Lemos. Editorial Enciclopédia Portuguesa, 1925, p. 234




10 maio 2026

Depressão em doenças neurológicas

Melhorar a identificação e o tratamento da depressão em doenças neurológicas: uma revisão narrativa e a perspetiva de especialistas

Tradução espontânea para distribuição sem fins lucrativos do resumo do artigo

Optimizing Identification and Management of Depression in Neurological Diseases: A Narrative Review and Expert Perspective

Lucie Bartova,1 Mara Lisa Beuster,2 Bruno Bonetti,3 Giuseppe Maina,4,5 Pedro Morgado,6 Johan Nyberg7

1 Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia, Divisão Clínica de Psiquiatria Geral e Centro Integral de Neurociências Clínicas e Saúde Mental, Universidade Médica de Viena, Viena, Áustria; 2 Inselspital, Hospital Universitário de Berna, Berna, Suíça; 3 Departamento de Neurociências, Centro Hospitalar Universitário Integrado de Verona, Verona, Itália; 4 Departamento de Neurociências «Rita Levi Montalcini», Universidade de Turim, Turim, Itália; 5 Departamento de Psiquiatria, Hospital Universitário San Luigi Gonzaga, Turim, Itália; 6 Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde, Universidade do Minho, Braga, Portugal; Centro Académico Clínico – Braga, Portugal; 7 Serviço de Neurologia de Stortorget, Helsingborg, Suécia

[para ler o artigo original completo, clicar AQUI]

Resumo

A saúde cerebral integral está a ser cada vez mais reconhecida como de importância crucial a nível mundial e integra elementos da saúde neurológica e psiquiátrica. Esta evolução na visão do bem-estar cerebral tem em conta os diversos fatores que podem afetar a saúde cerebral e a interconexão das condições que afetam este órgão. Essa interação entre doenças neurológicas e depressivas é destacada por observações de que estas condições partilham uma fisiopatologia subjacente e ocorrem frequentemente em simultâneo no mesmo doente. Uma revisão da literatura sobre a depressão no pós-AVC, na doença de Parkinson, na esclerose múltipla e na enxaqueca confirmou a elevada prevalência da depressão em doentes com doenças neurológicas, com aproximadamente um terço dos doentes com doenças neurológicas a sofrer de depressão. Os resultados do estudo também destacaram a importância da deteção precoce da depressão e que o tratamento adequado pode melhorar substancialmente os resultados tanto da depressão como da doença neurológica. No entanto, verificou-se uma disparidade na quantidade de literatura sobre depressão nas diferentes doenças neurológicas, com apenas três dos 80 artigos encontrados a referirem a enxaqueca e a depressão. A informação sobre cuidados multidisciplinares também foi limitada. As necessidades não satisfeitas no que diz respeito à gestão da depressão em doentes com doenças neurológicas incluem processos de rastreio eficazes que permitam diferenciar sintomas sobrepostos. Também há uma falta de diretrizes de tratamento claras e baseadas em provas. Com base na nossa experiência clínica, apresentamos recomendações para as melhores práticas de gestão da depressão em doentes com doenças neurológicas, incluindo entrevistas estruturadas aos doentes para auxiliar no diagnóstico da depressão, o envolvimento das famílias e amigos dos doentes quando relevante, cuidados multidisciplinares que incorporem tratamento personalizado com base nos sintomas específicos, comedicações e necessidades do doente, e acompanhamento e monitorização contínuos. Estão disponíveis opções de antidepressivos com diferentes mecanismos de ação e perfis de efeitos adversos. Em geral, os dados indicam que a depressão em doenças neurológicas é subdiagnosticada e subtratada. Sugerimos que o rastreio estruturado e os cuidados multidisciplinares personalizados podem melhorar os resultados. <