James Rachels
Capítulo 2 do livro A Companion to Bioethics (páginas
15-23)
Editado por Helga Kuhse e Peter Singer,
Blackwell Publishers. Oxford, 2001.
Blackwell Companions to Philosophy
ver tradução completa AQUI
James Rachels
Capítulo 2 do livro A Companion to Bioethics (páginas
15-23)
Editado por Helga Kuhse e Peter Singer,
Blackwell Publishers. Oxford, 2001.
Blackwell Companions to Philosophy
ver tradução completa AQUI
Adeus e felicidades! Gillian Bennett (*)
Tradução do depoimento Good bye & Good Luck!
18 de agosto de 2014 – A minha vida vai acabar hoje por volta de meio-dia. É a
hora. A demência está a tomar conta de mim e estou quase a perder. Estou quase
perdida mesmo com Jonathan, o mais firme e mais luminoso dos homens, ao meu
lado como testemunha amorosa.
Percebi que tenho demência, uma perda progressiva de
memória e de raciocínio, há cerca de três anos. É uma doença furtiva, obstinada
e muito conhecida. Preferia ter uma enfermidade bizarra com um nome muito
sonante, mas o que tenho é inteiramente banal. Acho que esta é uma doença muito
aborrecida e, apesar de a minha família ser tão gentil e bem-educada, estou
ciente de como eles a acham chata também. E é tão pesada para o meu marido,
Jonathan. Acho que só meu querido gato ainda não reparou, mas não tenho certeza
disso.
A demência não dá descanso e não admite discussões. A
investigação diz-nos que é uma “doença silenciosa” que se pode esconder durante
anos ou mesmo décadas antes de seus sintomas se tornarem óbvios. Gradualmente
no início, muito mais rapidamente depois, e eis-me transformada num vegetal. É
difícil lembrar-me se a minha neta chega daqui a três dias ou hoje. “Onde está
X?” (o café / a batedeira / a tecla de apagar no meu teclado / o livro que
estava a ler), estou sempre a perguntar. Tenho constantemente de verificar o
que digo para ver se não faço asneira.
Há um momento, no decurso da demência, em que se não é
mais capaz de tratar dos próprios assuntos. Espero que me possa aperceber da
situação ou consiga pôr termo à minha vida. Vai chegar o momento em que
simplesmente tenho de decidir perante a deterioração da minha saúde física. Não
gosto de hospitais – são locais sujos. Qualquer médico nos dirá que fiquemos
longe deles desde que possamos. Eu não quereria que uma queda, um acidente
vascular cerebral ou uma qualquer complicação imprevista atrapalhasse a minha
decisão de gastar o menos possível ao meu país nos meus anos de declínio.
Compreendam que não estou a desistir de nada por cometer
suicídio. Tudo o que perco é um número indeterminado de anos como vegetal num
ambiente hospitalar, a gastar o dinheiro do país mas sem ter a mínima ideia de
quem eu sou.
Cada um de nós é único ao nascer e ao morrer. Penso o
morrer como uma aventura final com um final previsível e abrupto. Sei quando é
hora de partir e isso não me assusta.
Há tantas coisas que nos preocupam durante a vida. Parece
que temos necessidade de fazer as coisas certas. Devemos levar uma garrafa de
vinho ou algumas flores para a festa? Visto uns jeans e calço as botas novas ou isso é demasiado informal? Como
hei de encontrar uma nova companhia?
Não falamos muito sobre a forma como vamos morrer.
Enfrentar a morte é, apesar disso, bastante interessante e desafiante. Tenho
escolhas sobre que meditei – algumas acolhi, outras rejeitei. Penso ter
encontrado a escolha certa para mim.
Falei sobre isso com amigos e familiares. Não é um tema
proibido. Antes pelo contrário.
***
Cada dia que passa perco pedaços de mim e é óbvio que
caminho em direção ao ponto onde todos os doentes com demência acabam por
chegar: não saber quem sou e necessitada de cuidados a tempo inteiro. Sei,
enquanto escrevo estas palavras, que dentro de seis ou nove ou doze meses, eu,
Gillian, já não estarei aqui. O que farão com o meu corpo? Ele estará
fisicamente vivo mas não haverá ninguém no seu interior.
Fiz o meu trabalho de casa. Estudei as minhas opções:
Ter cuidados que tratem do meu corpo sem mente. Isto
implica dificuldades financeiras para os que vêm depois de mim ou envolvê-los
numa freima aparentemente interminável de tarefas que poderá perturbar ainda
mais as suas recordações de mim.
1. Pedir qualquer tipo de cuidado que o governo possa
prestar. (Os serviços vão acolher o meu marido, filhos, netos, nas visitas em
que muitas vezes agradecerão aos profissionais quão bem olham pelo meu corpo.
Ainda bem, mas não é o que desejo à minha família.)
2. Terminar a minha própria vida tomando os barbitúricos
adequados antes que a minha mente totalmente se desvaneça. Eticamente,
parece-me a coisa certa a fazer.
Posso viver ou vegetar talvez uns dez anos no hospital a
expensas do Canadá, custando qualquer coisa entre 50.000 e 75.000 dólares por
ano. Mas isto é só o princípio do erro. Os enfermeiros, que pensam ingressar
numa carreira que tinha grande significado, acabam a mudar-me eternamente as
fraldas e a registar as mudanças físicas de uma carcaça vazia. É ridículo,
supérfluo e injusto.
Os meus familiares, que são todos racionais e também
divertidos, não irão visitar-me no hospital, porque sabem que eu não o quero.
***
O mundo está pressionado pelo envelhecimento da
população. Estamos a viver mais tempo e a nossa esperança de vida continuam a
crescer. Em 2045, a proporção de cidadãos em idade de trabalhar face aos seus
dependentes idosos tornar-se-á cada vez mais onerosa em quase todo o mundo. No
Canadá e nos EUA, é esperado haver dezasseis trabalhadores por cada dez idosos
dependentes. É um desastre social e económico.
É assim mesmo que a maioria das pessoas diga que gostaria
de viver 90, 100 anos ou mesmo mais.
Há muitas questões éticas aqui: o prolongamento da vida
altera radicalmente a noção que as pessoas têm do que é um ser humano – e não
no melhor sentido. Como nós, os mais idosos, são submetidos a múltiplas
operações e degradam-se numa cama de hospital, enquanto os nossos netos veem
drasticamente esmagadas as suas oportunidades de escolaridade ou de educação
física e cultural.
O cerne do problema é aritmético: o Estado Social do após
II Guerra Mundial, criado quando os frutos da explosão demográfica ainda
estavam na barriga das suas mães, está construído sobre um esquema geracional
de tipo pirâmide. Com a expectativa de vida a aumentar e as taxas de natalidade
a baixar, a pirâmide populacional está a ficar invertida e em alguns países
está a provocar a ruína da economia.
***
Toda a gente mentalmente capaz, por volta dos cinquenta
anos de idade, devia fazer um Testamento Vital onde estabelecesse como deseja
morrer, as circunstâncias em que não deseja ser reanimado, etc. E acrescentar
uma declaração em que diga: “Se estiver doente e frágil, com uma pneumonia ou
outra infeção, não tentem restaurar-me a vida com antibióticos. Peço que me
deixem partir. Não dou a quaisquer familiares, ou a quaisquer médicos ou
psiquiatras, o direito de se oporem a esta decisão.” Os médicos assistentes,
clínicos gerais, deveriam ter uma cópia deste documento.
Legalmente, todos deviam ter a obrigação de fazer um
testamento que seja guardado eletronicamente, não possa ser apagado e fique
disponível automaticamente para qualquer hospital no mundo.
E se uma pessoa se recusar a fazer um testamento? Deveria
haver um testamento de recurso que se aplicasse a quem não cumpriu o seu dever
cívico. Não tenho todas as respostas, mas acho que estou a levantar questões
que precisam de ser levantadas.
Três grandes instituições – a profissão médica, a lei e a
Igreja – contestam e contrariam qualquer mudança transformadora. Mesmo assim,
todos nós ouvimos falar de alterações em cada uma delas que sugerem uma
abordagem empática mais ampla, orientada e informada. Espero que todas essas
instituições continuem a transformar-se e que a profissão médica permita,
segundo protocolos exigentes e apropriados, a administração de uma dose letal
que acabe com o sofrimento de um paciente terminal, de acordo com a sua vontade
antecipadamente manifestada.
***
A vida parece um pouco como uma festa onde fui parar. No
início, eu estava envergonhada e desajeitada e não conhecia as regras. Tinha
medo de fazer coisas erradas. Depois percebi que estava lá para me divertir e
não sabia o que fazer. Alguém simpático falou comigo e fez-me rir. Comecei a
perceber que realmente tinha de ter as minhas próprias regras e de viver com
elas.
Apercebi-me que precisava de saber quando sair e é agora.
Todos os membros da minha família imediata estão em
Vancouver: filha, filho, duas netas e quatro netos. Todos sabem que é
importante para mim não me tornar uma sobrecarga para eles ou para o Canadá.
Debati a minha situação com todos eles. Na nossa família reconhece-se a
qualquer adulto o direito de tomar as suas próprias decisões.
Caso alguém seja tentado a pensar que tenho de ter
coragem para acabar comigo, quero que saibam que sou uma grande chorona. Tenho
muito medo de ficar sozinha no escuro. Assusto-me com qualquer coisa. Não quero
morrer sozinha. Se o meu gato estivesse a fraquejar do mesmo modo que eu,
gostava de misturar alguns comprimidos para dormir num prato de carne da boa e,
quando estiver bem sonolento, levá-lo amorosamente para o jardim e fazer o
resto. Quem quer morrer rodeado por estranhos, mesmo sob cuidados competentes e
excelentes?
Tive um marido incomparável e filhos e netos que me
superaram largamente. Desde os sete anos tenho amigos maravilhosos, que adorei
e ainda adoro.
Tudo isto é muito mais difícil para o Jonathan do que
devia ser e não queria que ele tivesse de ficar sozinho junto do corpo da sua
esposa. A lei canadiana considera crime que qualquer pessoa ajude outra a
cometer suicídio, por isso Jonathan de modo algum vai ajudar. Os nossos filhos,
Sara e Guy, de bom grado ficarão com o seu pai, mas as leis são o que são e não
os vamos pôr em risco.
Hoje, agora, vou contente e agradecida para essa noite
boa. Jonathan, corajoso, dedicado, autêntico e amoroso, abraça-me com a sua
presença. Não preciso de mais.
É quase meio-dia.
(*) Gillian
Bennett, cujo apelido de solteira era Quentin-Baxter, nasceu em 1930 em
Christchurch, Nova Zelândia. Em Canterbury University, namorou com Jonathan
Bennett, colega como estudante de Filosofia. Em 1954, Gillian recebeu uma bolsa
para estudar em Bona, Alemanha. Jonathan e Gillian casaram em Cambridge,
Inglaterra, em 1957. A Nova Zelândia é um país de beleza selvagem e
profundidade infinita. Muitas vezes tiverem vontade de lá voltar mas, desde
cedo, aceitaram o que as suas carreiras determinaram e o regresso foi sempre
adiado. “Like a toi toi arrow
shot in the air. Never no more. Never no more.” Nos quarenta anos seguintes, Gillian e Jonathan viveram
em Cambridge (Inglaterra), Vancouver (Canadá) e Siracusa (EUA). Em Siracusa,
Gillian fez formação como psicanalista e depois exerceu e ensinou terapia de
grupo e individual. Os principais mentores de Gillian foram Richard Erskine e
Rebecca Trautmann. Em 1996, Gillian e Jonathan, depois de aposentados, foram
para Bowen Island, perto da costa da Colúmbia Britânica. Tiveram dois filhos,
seis netos e dois bisnetos, felizmente todos bem-sucedidos. Gillian Bennett pôs
termo à vida às 11 horas do dia 18 de agosto de 2014.
Xavier Symons: Na sua opinião, quais são os principais
conceitos filosóficos que os bioeticistas tendem a entender mal?
David S. Oderberg: Há
muitos mal-entendidos na indústria bioética (porque tem algo de indústria),
embora prefira chamar-lhes simplesmente erros ou confusões. Não creio que a
maioria dos bioeticistas não compreenda aquilo em que acredita ou que recomenda
nas suas posições, pois a maioria tem uma agenda óbvia, a qual consiste em acabar
com tantos “tabus” quanto possível, isto é, proibições tradicionais do bom
senso.
Muitas vezes, os fins justificam os meios na medida em
que os bioeticistas hão de usar qualquer argumento que tenham à mão, seja bom,
mau ou indiferente, para cumprir uma agenda predefinida. Nesse sentido, suponho
que se pode dizer que eles entendem mal que a função do argumento, ou seja
alcançar a verdade, não é chegar a uma posição previamente adotada.
Lembro-me de ter lido, há alguns anos, um relatório da
Autoridade Britânica para a Fertilização Humana e o Embrião, produzida por uma
mão-cheia de bioeticistas e dedicada a defender a experimentação com embriões humanos.
No relatório era muito claro que os autores (muitos dos quais nunca tinha
ouvido dizer que fossem filósofos de profissão) pretendiam recomendar ao
governo, como moralmente permissível, a experimentação com embriões e onde
usavam qualquer argumento ou “teoria” para a defender essa recomendação.
O resultado era um pouco de kantismo numa página, de
utilitarismo noutra, de teoria das virtudes mais adiante e um pouco de tudo e
mais alguma coisa de pensamento filosófico, sendo que a maioria era totalmente
incompatível entre si, tudo misturado para alcançar uma conclusão supostamente
racional que, inevitavelmente, não era mais do que um “tudo bem” à
experimentação com embriões, desde que haja cuidado.
Num nível mais conceptual, tenho visto várias confusões
significativas que aparecem recorrentemente. Uma é entre “matar” a doença e
matar o doente, como que pudéssemos curar uma pessoa do seu problema eliminando
a pessoa, por ex., pôr fim a uma dor, pondo fim ao doente. Pode fazer-se isso,
assim como se pode acabar com uma dor de cabeça degolando a pessoa. Mas não
pode chamar-se a isso curar ou cuidar de alguém, que são os deveres primordiais
dos profissionais de saúde.
Se os bioeticistas pensam que podem “curar” alguém dos
seus padecimentos pela eutanásia, então não estão realmente interessados na
cura (ou cuidado), mas em algum outro objetivo.
Isso faz-me pensar na confusão entre o que é bom para uma
pessoa e o que é bom para outrem, seja a sua família, a comunidade ou a
sociedade no seu todo. Dado que cuidar e curar são os deveres primordiais da
medicina e dos cuidados de saúde em geral, o que é melhor para alguém que não o
doente nunca pode ser o objetivo primordial do profissional de saúde enquanto
profissional de saúde.
A ideia de que um doente pode ser um “encargo” para a
sociedade, a sua existência “perturbadora” da sua família ou a sua provação uma
“avaria” do sistema de saúde, nunca pode prevalecer sobre o primordial dever de
cuidar, o que significa proteger o doente e curá-lo quando possível, ou então
dar tanto conforto quanto possível. Infelizmente, sob a influência malévola da
indústria da bioética, há demasiados doentes que são vistos como mercadorias ou
unidades de produção (não encontro tremo melhor) do sistema, tudo menos
indivíduos com direito à vida, a cuidados e à dignidade.
Se tivesse de escolher uma última confusão entre muitas,
seria a medicalização deliberada dos deveres normais de cuidar. O exemplo
clássico é a “hidratação e alimentação artificiais”, em tempos chamada comida e
água. Afinal, dar de comer a quem fome e de beber a quem tem sede era um bom e
antiquado dever humano. Mas desde que os bioeticistas e os seus crentes
colocados na política, na economia e na lei, o medicalizaram – na verdade, desde
que se tornou na sigla HAA – este simples dever humano escondeu-se num jargão e
assim podem debater friamente a “interrupção de HAA”, como se fosse um
procedimento médico e não um mero jejum.
Encontra-se o mesmo tipo de distanciamento no uso de
termos como “feto”, “conceptus”, “término”,
“eutanásia”, “estado vegetativo”, etc. A história está cheia de exemplos.
XS: Como relaciona a área da bioética com a da filosofia
moral?
Oderberg: Não há
bioética sem filosofia moral. A bioética não é mais do que a aplicação grosso
modo da filosofia moral, ou ética, aos problemas da vida e da
morte. Nesse sentido, não se pode conceber a bioética como uma disciplina
autónoma com os seus próprios peritos em princípios bioéticos sui
generis.
Sim, para ser bioeticista é preciso ter conhecimentos em
filosofia moral (algo que muito bioeticistas não têm) e domínio dos assuntos
médicos, científicos e técnicos específicos sobre que se pronunciem. De
preferência, deve ter experiência próxima desses assuntos e não ter uma mera “experiência”
de torre de marfim.
Para ser bioeticista, então, é preciso ser um filósofo
moral e para ser um filósofo moral é preciso ser um filósofo, capaz de
distinguir os bons dos maus argumentos, de separar pensamento justificado de
novidade, moda, pressão social, preconceito e políticas governamentais.
E para ser filósofo é preciso ser um ser humano, com
preocupações humanas, amor pelo próximo, preocupação pela sociedade e seu
futuro e, o que é o mais raro recurso, bom senso. Por outras palavras, a
bioética não é o que se faz quando se arranja um emprego na filosofia “real” e
se pode obter grandes verbas de fundações e grupos de reflexão [think
tanks].
XS: Que tipo de nova contribuição poderia resultar para a
bioética da chamada “abordagem da lei natural”?
Oderberg: Bem, a
bioética da lei natural não está bem desenvolvida, apesar de ser parcialmente
defendida em alguns círculos. Digamos que ser pró-vida não implica ser um
bioeticista da lei natural. Tão pouco preocupar-se com os desenvolvimentos
sinistros da biotecnologia ou com a “cultura da morte”.
Ser um bioeticista da lei natural significa ter um
conhecimento profundo de, e respeitar, a tradição de pensamento que vem dos
antigos Gregos e Romanos e que realça o papel que a natureza tem na orientação
da moralidade. Só sofistas ignorantes pensam que a ética da lei natural
significa que tudo o que é natural é bom ou certo e que tudo o que não é
natural é mau e errado. Pelo contrário, é sobre identificar o que cumpre à
nossa natureza humana, faz-nos ser o que é suposto sermos de acordo com a nossa
natureza de criaturas racionais, corpóreas, contudo finitas.
Penso que podemos estar certos de que, no que se refere
ao cumprimento da nossa natureza, ser assassinado geralmente não ajuda. Assim,
os ataques a vidas inocentes – vidas inocentes, não à vida dos que podiam
perder o ser direito devido aos danos causados a outros – estão proibidos pela
lei natural, independentemente de outras considerações.
Ainda estou para ver um bom argumento para sustentar que
a vida em si não é senão um meio para atingir outros bens e portanto perde o
seu valor quando alguém, digamos, está em coma ou estado vegetativo
persistente.
Quando chegamos a tópicos como a engenharia genética,
mães de substituição, “melhoramento” humano ou qualquer outro tema bioético e a
tecnologia se mostra perante os media, o que é
preciso é ter à mão uma análise cuidadosa e refinada da lei natural. A
orientação tem de vir do que é bom para a natureza humana individual e para a
natureza humana de grupos como a família, comunidade e Estado. Mas o que é bom
para um grupo de humanos depende totalmente do que mais propício à realização
de todos e de cada indivíduo, pelo que sacrificar uma vida inocente para
benefício de outros é errado. O que é bom para o grupo não é o mesmo que o “melhor
resultado” de uma ponderação utilitária ou consequencialista dos bons e maus
efeitos de alguns comportamentos.
Nesse contexto, a teoria da lei natural não pode e não
tem de trabalhar no vácuo: tem de estar informada por trabalho empírico
credível e autêntico sobre a natureza humana e o bem comum, tudo
contrabalançado pelo bom senso. Para dar um exemplo, a automutilação que dá
pelo nome de “cirurgia estética”, quando se não destina a remediar um defeito
que impede a função natural do corpo humano (e talvez também funções humanas
naturais como a amizade e as relações sociais), é muito provavelmente
moralmente errada em qualquer caso.
Hoje, não é isso que faz uma coisa ser “antinatural”, em
sentido lato, mas aquilo que é, só por si, uma inversão antinatural da devida
hierarquia dos valores humanos: a elevação do aperfeiçoamento corporal acima da
aceitação da inevitável imperfeição própria do tipo de criatura que somos – pôr
o bem corporal acima do chamado bem psíquico.
XS: Um conjunto de eticistas católicos (Grisez, Finnis,
George) tentou aplicar uma Nova Teoria da Lei Natural aos modernos problemas da
bioética. Concorda com a abordagem da Nova Lei Natural?
Oderberg: Bem, no geral
não estou de acordo com a abordagem, mas concordo com muitas das posições
éticas, embora nem todas (nem eles defendem todos as mesmas posições éticas). A
abordagem da “nova lei natural” surgiu da revolução cultural dos anos 60,
quando alguns filósofos católicos, considerando muitas das posições contemporâneas
e não-tradicionais de então (muitas das quais persistem), decidiram que a
antiquada metafísica aristotélica-tomista já não “servia” para nada.
Nós, os modernos, por outras palavras, poderíamos ver nas
conceções de Aristóteles e Tomás de Aquino (e seus seguidores) e nos seus “preconceitos”
metafísicos, a perspetiva de que realmente existe uma coisa chamada natureza humana,
e que da natureza humana se pode filosoficamente defender um sistema ético.
Assim, a metafísica da natureza humana, assim como tudo o que a acompanha, foi
lançada pela janela a favor de um foco no ponto de vista subjetivo, da primeira
pessoa, na perspetiva do agente que pensa sobre o que fazer e sobre o que é bom
ou mau.
Ora, como que por milagre, os teóricos da Nova Lei
Natural conseguiram, pelo seu método completamente novo e até aí desconhecido,
chegar a um conjunto de posições largamente coincidentes com as que pretendiam
afirmar. Mesmo assim, tanto quanto posso dizer, as únicas vezes em que pareciam
ter uma posição assente num argumento inatacável e talvez plausível foi quando
aparentemente recorreram à tal metafísica “desatualizada” que pretendiam
condenar.
Assim, a meu ver, o projeto da Nova Lei Natural é, sempre
foi, um falhanço: nunca por nunca persuadiu os bioeticistas liberais a
abandonar uma única das suas posições, seja sobre aborto, eutanásia,
maternidade de substituição, “casamento homossexual”, ou outra qualquer.
Note-se que eu não digo que a abordagem tradicional, metafisicamente orientada,
seja, psicologicamente falando, mais fácil para convencer os bioeticistas
liberais; mas penso que é a única que, intelectualmente falando, dá alguma
esperança de o fazer.
XS: Como vê, nas próximas décadas, o rumo da bioética?
Oderberg: Bem, não
seguirá uma direção nova e maravilhosa em que a ciência e a tecnologia sejam
postas no seu lugar e os valores humanos autênticos voltem a dominar, em que a
sociedade e o governo apenas permitam crescimentos que genuinamente beneficiem
os indivíduos e o bem comum. De facto, as minhas previsões são bastante apocalípticas
a esse respeito, mas não quero ir por aí.
O que digo é que o futuro da bioética está fortemente
ligado ao futuro da sociedade (ou sociedades). Não é de esperar que os
bioeticistas assumam a liderança da recuperação da sanidade de uma sociedade
que no restante está louca. De facto, não espero que os filósofos o façam.
São as forças culturais que dirigem os desenvolvimentos
futuros e, apesar de ser verdade que os bioeticistas têm estado na vanguarda,
eles não são os seus condutores. Temos de olhar para a sociedade num sentido
mais amplo: para onde vai? Como será, digamos, daqui a trinta anos? Responda-se
a esta pergunta e saberemos o que será a bioética.
Estou mais do que ligeiramente preocupado, embora mais
por causa dos meus filhos do que por mim. Se todos mantiverem os seus filhos a
salvo dos efeitos da lavagem ao cérebro dos media e dos amplificadores biotecnológicos (como lhes chama o
grande Wesley Smith), a bioética acabará por se mostrar muito diferente.
A saúde em tempo de crise (um diálogo do autor consigo mesmo)
in Sobre Saúde, pp. 191-6, ed. APASD, Universidade Fernando Pessoa (2015)
– Afinal o racionamento e ou não é justo?
– Sabes, todas as perguntas podem ter várias respostas.
– Dependem do contexto, claro.
– Não te esqueças que quem quer polemizar costuma usar
apenas uma face ou um aspeto da questão e, focando-se só nisso, tenta
argumentar escamoteando outras perspetivas. Todas as questões podem ser analisadas
de vários ângulos.
– No “caso do racionamento” trata-se, essencialmente, de
saber, havendo poucos recursos, como se deve fazer para que o acesso a cuidados
de saúde respeite o princípio da justiça.
– O problema é um pouco mais vasto e pode ser visto
respondendo a seguinte pergunta: sendo a saúde das pessoas um bem que importa
promover e os cuidados de saúde prestados (e/ou pagos) pelo Estado de acordo
com as necessidades dos cidadãos, como garantir que todos tem acesso aos
melhores cuidados se não há verba para os custear?
– Está bem, mas o princípio da justiça diz isso mesmo (Beauchamp,
TL and Childress, JF. Principles
of Biomedical Ethics. 4th ed, Oxford University Press, 1994): se os recursos são limitados (e são-no
sempre), podem/devem adotar-se medidas cuja aplicação não discrimine com base em
condicionalismos que não dependem da vontade das pessoas.
– A que te referes?
– É injusto que certos cuidados de saúde dispendiosos só
sejam prestados a pessoas que tem maior capacidade económica, por exemplo. É insustentável
que se faca depender a comparticipação estatal nos custos de certos fármacos da
etnia do doente, da sua idade ou mesmo da área da sua residência. É uma questão de equidade. (Daniels, N. Equity and population
health – Toward a broader Bioethics Agenda. Hastings Center Report 36, 2006 Jul-Aug:
22-35)
– Esses exemplos parecem óbvios, sobretudo nos tempos
atuais e numa sociedade democrática. Deixa-me usar outro exemplo. É justo que
se gastem avultadas verbas no tratamento de pessoas que não zelam pela sua própria
saúde, causando dificuldades orçamentais a outros programas destinados, por
exemplo, a vítimas de epidemias ou catástrofes naturais?
– Compreendo que essa é uma questão de difícil resposta,
mas, do modo como a apresentas, parece que estás a sugerir que pode
justificar-se um Estado policial que, antes de tratar quem precisa, classifica
o doente de acordo com o grau de culpa pelas suas doenças. Seria um Estado
moralista, higiénico e até eugénico com consequências que podemos antever
perigosas e, portanto, injustas à partida.
– Mas se não há dinheiro...
– Se não há dinheiro, o que importa é encontrar um
sistema que assegure que as decisões, pois tem de haver decisões por mais difíceis
ou impopulares, sejam as mais justas que é possível.
– Lá vem a conversa da transparência…
– Absolutamente. Essa é uma condição prévia essencial. As
decisões que aparecem do nada são, naturalmente, suspeitas, mesmo que sejam
boas. O simples facto de ser pública a identidade de quem decide, bem como as
razões por que assim se decide, condiciona positivamente a qualidade da decisão.
Mas não basta que o processo de decisão seja transparente…
– Pois, pode haver malvadez transparente e não deixa de
ser malvadez…
– É. A outra condição que ajuda a que se tomem medidas
justas é a existência de regras previamente conhecidas e que seja possível
verificar se foram seguidas.
– Referes-te ao oposto da arbitrariedade?
– Exatamente. Quando um decisor, quer a título individual
ou quer o consideremos como uma entidade (como por exemplo uma comissão de farmácia
hospitalar), opta por um ou por outro fármaco que é necessário disponibilizar
na sua instituição, é forçoso que o faça de acordo com normativos
estabelecidos, legitimamente aprovados e consensualmente aceites. E o primado
da publicidade e da previsibilidade. Há de ser assim que devem fixar-se as
prioridades, os critérios de admissão a certos tratamentos. E que, sendo conhecidos
e fundamentados, não estão feridos de caráter discriminatório – se estiverem
estabelecidos quais os critérios clínicos para as listas de espera de
transplantes, por exemplo, todos compreenderão que não é só a data de inscrição
que conta. Ou, noutro exemplo, não há óbice ético considerar-se que, para colocação
de pontes coronárias, os não fumadores tenham prioridade quando haja igualdade
de outras circunstâncias.
– Então, se há normas, não são precisas comissões –
apliquem-se as normas…
– Não te esqueças que as normas, por mais perfeitas que
sejam, nunca preveem todas as situações e há sempre escolhas a fazer. Não há só
branco e preto, como se costuma dizer. E ainda bem que é assim. Aliás, as
normas, que são adotadas em abstrato para serem aplicadas em concreto,
devem/deveriam ter sempre uma cláusula que permita que, desde que devidamente
fundamentadas, possa haver exceções.
– Mas isso está a um passo da arbitrariedade.
– Não, arbitrárias são as decisões que se tomam sem explicações.
Falamos de razoabilidade (Mitton, CR et al. Centralized
drug review processes: Are they fair? Soc Sci Med. 2006, Jul;63(1):200-11) ou de bom senso, se quiseres.
– E não temes que se abuse do recurso a exceção?
– Pode acontecer, mas chamo a tua atenção para uma outra condição-base para que o princípio da justiça seja respeitado. Refiro-me a
responsabilidade.
– Responsabilidade? Não estou a perceber. Ouço
frequentemente que uma coisa boa e a preservar é os juízes serem irresponsáveis
quando decidem.
– Não confundas! Claro que todos os juízes tem de ter
toda a liberdade para decidir, em sua consciência, o teor das sentenças
proferidas e não podem ser responsabilizados pelas consequências das suas condenações
ou absolvições. Embora, claro, se possam enganar e haja o direito de recurso. A
responsabilidade a que me estava a referir não é do mesmo tipo, pois, quando alguém
decide, a título de exceção, sobre um tratamento que custa milhares de euros
por mês para ser usado numa determinada situação clínica (Bach,
PB et al.
In
Cancer Care, Cost Matters. The New
York Times, 2012, Out) mas, afinal, há um consenso científico que considera
haver uma opção francamente mais barata e igualmente eficaz, o responsável por
essa decisão tem de prestar contas.
– Accountability
– e o
que queres dizer?
– É isso, mas a palavra portuguesa é também
responsabilidade. Os defensores da independência técnica dos prestadores, que é
uma coisa boa em si mesma, não o podem/não o devem fazer, esquecendo a correspondente
responsabilidade.
– Estás a dizer que um médico que invoca uma exceção e
fundamenta mal a decisão deve ser punido?
– Não excluo essa hipótese mas não te esqueças que o
mesmo se aplica também a quem redija as tais normas orientadoras. Todos temos
de responder pelas nossas decisões. Por outro lado, as punições em sede de apuramento
de responsabilidade disciplinar profissional tem muitas cambiantes. Desde logo
pode nem haver processos disciplinares para falarmos em prestação de contas – é o caso das chamadas de atenção próprias das hierarquias técnicas.
– Essas regras ou normas de que falas são muitas vezes
consideradas limitadoras da liberdade técnica. Há quem receie que juízes,
inspetores ou instrutores de processos de averiguações, ou mesmo jornalistas, considerem
sempre que é errado tudo que não esteja contemplado nas normas, contribuindo
assim para que os prescritores se tornem acríticos e as apliquem cegamente.
– É por essas e outras que se costuma dizer que isto não é fácil. Quem escolheu ser profissional de saúde – médico, enfermeiro, psicólogo
ou qualquer outro – pensando que não tinha de, constantemente e para o resto
das suas vidas, estar sempre a tomar decisões difíceis enganou-se.
– Esta conversa está interessante mas ainda não te
referiste abertamente ao polémico Parecer n.º 64 do Conselho Nacional de Ética
para as Ciências da Vida que dizem que aprova o racionamento em saúde. (Parecer
sobre um modelo de deliberação para financiamento do custo dos medicamentos, Parecer
n.º 64/CNECV/2012)
– Esse Parecer foi, de facto, centro de uma polémica
acesa mas felizmente, como sempre, as coisas acalmaram e, fora do “barulho das
luzes”, começa a emergir racionalidade onde ela faltou. O que o Parecer apontou
foi um modelo de apoio a decisões justas em matéria de escolhas difíceis.
– Mas não era sobre as compras de medicamentos inovadores
em oncologia e outras doenças crónicas?
– Era mas não foi. Tudo começou com um pedido do Ministro
da Saude (o CNECV é um órgão criado exatamente para responder a perguntas dos órgãos
de soberania). Sabia-se que 14 hospitais públicos tinham decidido juntar esforços
para reduzir custos na compra de certos medicamentos e que acordaram numa lista
que passaria a conter os únicos medicamentos que os respetivos conselhos de administração
admitiam poderem ser prescritos nas suas instituições.
– A pergunta do Ministro da Saude era para saber se essa decisão
estava eticamente sustentada já que acreditava que favorecia a sustentabilidade
económica do Serviço Nacional de Saúde.
– Exatamente. Contudo, o CNECV não conseguiu em tempo útil
conhecer os fundamentos das escolhas terapêuticas adotadas pelos 14 hospitais.
Decidiu, em alternativa a uma apreciação desses fundamentos, redigir uma
proposta de modelo ético para a decisão. Considerou que, a ser seguido o modelo
proposto, se garantia a justiça das medidas. Considerou, na sua perspetiva, que
as administrações hospitalares, no exercício dos seus poderes de gestão,
podiam/deviam fazer escolhas responsáveis desde que fossem transparentes,
baseadas em pareceres técnicos conhecidos e publicitados, elaborados por
pessoas conhecidas e sem conflitos de interesse. Tais escolhas deveriam, em última
análise, incidir sobre os “mais baratos dos melhores” fármacos em presença no mercado e não sobre os “melhores dos mais baratos”.
– Esse modelo recebeu elogios de gestores hospitalares, não
foi?
– Foi. Ao contrário dos mais altos responsáveis da Ordem
dos Médicos, os gestores hospitalares que se pronunciaram consideraram que a
proposta do CNECV deveria ser seguida.
– Tanto quanto me lembro, a Ordem dos Médicos não só
contestou o modelo, como o considerou perverso, de tal modo que ainda se falou
em averiguar se os membros médicos do CNECV deveriam ser alvo de procedimento
disciplinar para que respondessem pelas suas opiniões. (Conselho
Nacional Executivo da Ordem dos Médicos, Nota
informativa do CNE sobre o parecer 64/2012 do CNECV.
Revista da Ordem dos Médicos, 2012 Out; 134: 57-58 // Silva, JM. A ética teoriza-se, mas também se deve praticar! Revista
da Ordem do Médicos, 2013 Jan-Fev;137:6-9)
– O CNECV reagiu a essas apreciações mas efetivamente não
alcançou o mesmo impacto publico que os seus críticos. As ameaças de perseguição
por delito de opinião acabaram esquecidas e os argumentos ficaram com quem os
enunciou.
– Mas o Parecer defendia o racionamento?
– Quem o ler com isenção e livre de julgamentos
preconceituosos verá que não trata de defender o racionamento. A referência a
esse termo vem a propósito de se considerar que o racionamento, se tiver de ocorrer,
deve ser explicito e não implícito. Explicito e “transparente, em diálogo com os cidadãos que
devem ser informados (porque nada substitui a
participação democrática), que mantenha intacta a confiança dos doentes nos profissionais de saúde e no SNS e maximize a
responsabilidade dos decisores”. A tónica do Parecer é contra o “racionamento” no
sentido aviltante de sistema de distribuição de recursos que afeta a todos
independentemente das suas condições. Tudo no Parecer é a favor de um sistema
racional, adaptativo, fundamentado técnica e cientificamente e… transparente (Tilburt,
JC and Cassel, CK. Why the ethics of parsimonious
medicine is not the ethics of
rationing. JAMA. 2013 Jun 5;309(21):2212).
– Se os gestores apoiaram o modelo, quer dizerem que o
aplicam?
– Não estou certo disso. Na verdade, quando, meses depois
de aprovado o Parecer, se leram os critérios que os 14 hospitais assinaram, a
desapontamento foi grande. Não tinham fundamento técnico ou científico conhecido
ou publicitado, não se conheciam os seus autores ou interesses, não se
compreendia por que se escolheram certos fármacos e não outros, a não ser com
base no preço.
– Então, para ver se compreendo, nos hospitais públicos o
melhor tratamento é o que é posto a disposição de quem dele necessita? As restrições
orçamentais levam a que alguns não sejam tratados como deveriam ser? Havendo limitações,
as escolhas que se fazem tem sustentação ética? Há equidade face à idade, local
de residência, condição patológica?
– Não sei responder. Como no início deste diálogo imaginário,
dir-te-ei que todas as perguntas podem ter várias respostas.
– E não podes tentar dar algumas?
– Estou certo de que, de vários modos e por várias
razoes, haverá quem sofra na pele, melhor dizendo, na sua saúde, as consequências
da crise. Por mais que queiramos que isso não aconteça, muitas pessoas acabam por
não se tratar devidamente em consequência das dificuldades económicas que elas próprias
e as instituições atravessam. Admito que algumas instituições de saúde não
conseguem já dispor de meios suficientes para atender adequadamente a todas as
necessidades e daí só podem resultar iniquidades. Acredito, quero acreditar,
que algumas decisões, apesar de opacas, são as melhores mas este “sentimento” não
serve para as isentar da tal transparência, antes pelo contrário. Entendo que
um órgão consultivo como o CNECV não pode transformar-se num fiscal de boas
práticas já que lhe esta cometida “apenas” a função de dar opiniões. Contudo, não
poderá deixar de as dar mesmo que não lhas peçam ou nem sempre sejam seguidas
ou bem interpretadas. Nesta dinâmica multifatorial, em que tantas decisões se
interinfluenciam, não podemos esperar que todos compreendam todos. Apesar
disso, podemos esperar que todos procurem compreender todos. Seja como for,
convenhamos, há muito a fazer para alcançar melhorias no desempenho tanto das instituições
como dos profissionais individualmente considerados, quando falamos do real
respeito pela dignidade da pessoa doente e vulnerável. E, por maioria de razão,
tudo isto é especialmente importante em tempos de crise económica e social com
a dimensão da que estamos a viver em Portugal.
A Morte da Carta do Médico
Melissa
Walton-Shirley
Tradução espontânea do texto
The Death of thePhysician Letter
"O maior problema da Comunicação é a ilusão de que ela ocupa espaço." - William H. Whyte [*]
Depois de perguntar à doente
porque tinha vindo, percorri seis quadros com alíneas e subalíneas, sem que
nenhum de nós percebesse por que razão ela me fora encaminhada. Relidas as seis
páginas daquela informação, apercebi-me de que a doente não se sentia ameaçada
nem fora agredida em casa, tinha feito o teste cutâneo da tuberculose há pouco
tempo e tinha sido aconselhada a fazer a vacina da pneumonia. Da lista de
medicamentos presumi pelo menos algumas das suas doenças, o que, no final da
consulta, confirmou que eu conservava intactas as minhas capacidades de
telepatia médica. Impressionou-me que ela tivesse uma carta feita há 2 semanas,
mas não percebi porquê. Deve ter durado uns 15 a 30 minutos a fazer e não
mostra nada a não ser que o seu autor é um fantástico escriba.
Embora haja montes de artigos
sobre as falhas de comunicação entre médicos e doentes e entre médicos e
médicos em ambiente hospitalar, há poucos dados objetivos sobre o impacto dessa
falha de comunicação no caso das consultas externas. Os doentes internados
representam uma fração da população geral de doentes; todavia, não tenho
dúvidas de que as falhas de comunicação representam custos de milhões em exames
desnecessários, faltas ao trabalho e diagnósticos errados. Um dos objetivos
primários do Affordable Care Act [Obamacare] era melhorar a
partilha de informações, mas em vez disso criou-se uma enorme “fadiga de
informação” que enche os processos clínicos de tralha inútil. Provocou a maior
perturbação na comunicação entre médicos que o mundo das consultas alguma vez
teve.
Antigamente (e no tempo das
boas comunicações antes do Registos Clínicos Eletrónicos), eu recebia cartas
como esta:
Hoje, não há tempo para ser
expressivo e há pouca motivação para ser informativo. Só quando pensamos que
acabamos a grande tarefa de preencher os dados (ignorando a ridícula quantidade
de tempo que isso roubou ao doente), é que nós carregamos na tecla de submissão
transformando o último calhamaço do dia num complicado quebra-cabeças de informação
inútil como os que os decifradores tanto gostam. Os tipos do Canal de Vendas
por Cabo devem estar invejosos ao verem o tempo que gastamos a dizer a sempre
mesma coisa sobre a mesma coisa.
Os clínicos são empurrados para
milhões de direções diferentes. Como profissionais estamos desencorajados e
desgastados, mas temos de lutar arduamente para não nos tornarmos naquilo que o
nosso governo quer. Soubemos o suficiente para entrar na faculdade,
sobrevivemos à dureza dos internatos, conseguimos um lugar e sabemos o que
fazer para ultrapassar obstáculos que há entre nós e os cuidados aos doentes.
O modo mais eficaz de afastar a
nuvem negra que cobre as comunicações entre médicos é ressuscitar a carta do
médico. Não temos de escrever como o Padre António Vieira ou produzir prosas
elegantes. Bastam umas linhas que contenham o essencial das nossas preocupações/dúvidas
e alguns factos relevantes da história do doente. Demora pouco mais de dois
minutos para que o nosso destinatário, o nosso consultor ou os nossos doentes
percebam que não alinhamos nas falhas da moderna comunicação. Estes
constrangimentos caíram em cima de nós sem que o permitíssemos. Com melhor
comunicação podemos fazer a nossa profissão regressar aos tempos em que
importava haver coordenação de pensamentos, ideias e factos e os doentes
sentiam que eram, eles também, importantes.
______
[*] Whyte WH. "Is anybody listening?" Fortune 1950; 42:77-83.
A questão de saber se os doentes gravemente
doentes têm direito à ajuda de um médico para acabar com o seu sofrimento,
pondo fim às suas vidas, tem sido debatida desde a antiguidade. O Juramento
Hipocrático sugeriu que isto estava fora das responsabilidades profissionais do
médico, mas mesmo nessa altura houve um desacordo considerável. Na era moderna,
há provas consistentes de uma prática secreta da morte medicamente ajudada (MMA)
nos países ocidentais onde é proibida. A profissão médica e a lei tendem a
olhar para o outro lado, desde que não se torne pública (“Don’t ask, don’t
tell” – “Não pergunte, não diga”). Esta prática secreta foi revelada nos
anos 90 quando Jack Kevorkian ajudou na morte de aproximadamente 150 doentes.
Embora tenha perdido a sua licença profissional no processo (era patologista,
não clínico), não foi processado com sucesso até que praticou eutanásia ativa a
pedido de um doente e foi subsequentemente preso durante mais de oito anos.
Nos Estados Unidos, na maioria
das jurisdições, proíbe-se os médicos de ajudar à morte seja em diplomas legais
específicos, seja pela aplicação judicial de leis gerais. Tem havido tentativas
de alterar a lei através de diversos métodos:
·
Petições legais federais sobre
a constitucionalidade das proibições, sem vencimento, nomeadamente em dois
casos no Supremo Tribunal tratados em conjunto (Washington vs. Glucksberg e Quill vs. Vacco). O Supremo Tribunal dos EUA, embora não tenha
reconhecido qualquer direito constitucional à MMA, sugeriu que este assunto
deveria ser decidido ao nível dos Estados.
·
Referendo estadual – enquanto
vários desafios às proibições da MMA falharam, a Morte com Dignidade foi
decretada no Oregon em 1997 e no Estado de Washington em 2008. Ambas as leis
sobreviveram a uma variedade de recursos legais.
- Ação
legislativa: Vermont (2013), Califórnia (2015), Colorado (2016), o Distrito de
Colúmbia (2017), Havai (2018) e New Jersey (2019) aprovaram leis que legalizam
a MMA através de iniciativas legislativas.
- Há recursos constitucionais estatais a
correr em vários tribunais estaduais, mas nenhum foi bem-sucedido na sua
legalização.
Persiste alguma controvérsia sobre como
designar essa prática. O entendimento comum da palavra suicídio equipara-a a
doença mental e comportamento irracional e a obrigação médica seria, portanto,
prevenir estes atos, se possível. Os doentes prestes a morrer que veem as suas
vidas serem destruídas pela doença tendem, por vezes, a considerar a morte como
a única forma de escapar ao seu sofrimento e, portanto, a vê-la como um meio de
autopreservação – o oposto do suicídio. Os Estados onde foi legalizado
chamam-lhe agora morte ajudada por médico, ajuda médica, ou assistência médica
ao morrer.
O público continua profundamente dividido
sobre a questão de saber se deve permitir legalmente a MMA. Na maioria dos
inquéritos, aproximadamente dois terços da população dos EUA aprovam-no como
uma opção para doentes terminais com sofrimento intratável. Mas quando a
questão da legalização chega a uma votação, os resultados são normalmente mais
próximos de 50/50. Esta divisão reflete as tensões inerentes ao debate. Por um
lado, muitas pessoas conhecem casos de sofrimento grave, mesmo com excelentes
cuidados paliativos, onde a necessidade de alguma fuga previsível é mais
convincente. Por outro lado, teme-se que a MMA possa ser utilizada como um
desvio que evite cuidados paliativos eficazes ou como uma forma de eliminar o
sofrimento de doentes vulneráveis, eliminando quem sofre. Do mesmo modo, a
maioria dos médicos está a favor do acesso legal à MMA, mas apenas uns 30%
estariam dispostos a prestar diretamente essa ajuda, mesmo que legalmente
permitida.
Morte medicamente ajudada na
prática
Os cuidados
paliativos – incluindo a melhor gestão da dor e dos sintomas, o apoio
psicossocial aos doentes e famílias, e assistência nas decisões difíceis –
devem fazer parte do padrão de cuidados para todos as pessoas gravemente
doentes. Muitos estudos demonstraram uma
lacuna significativa entre o potencial dos tratamentos paliativos no alívio do
sofrimento e a prática real. Se alguém considerar a MMA, o primeiro passo deve
ser que os médicos garantam que o doente está a receber o tratamento paliativo
ideal. Mas mesmo com os melhores cuidados paliativos e apoio possíveis, haverá
provavelmente uma pequena percentagem de casos em que os sintomas se tornam
intratáveis, apesar dos esforços mais competentes para ajudar. Além disso, o
sofrimento do doente não pode ser limitado ao domínio físico e deve incluir
dimensões psicológicas, sociais, existenciais e espirituais. A profissão médica
reconhece que esse sofrimento inaceitável existe por vezes quando os médicos
falam com os doentes sobre a paragem dos suportes de vida, mas quando não há
suporte de vida para parar, a profissão médica pode assumir que tanto o doente
como o médico não se esforçaram o suficiente com medidas paliativas padrão.
Quanto mais predomina o sofrimento não-físico, menos consenso existe sobre o
direito do doente a seguramente morrer.
Em circunstâncias de sofrimento intratável, há provas de que alguns
médicos nos EUA por vezes ajudam na morte dos doentes. Isto não é facilmente estudado porque, para
reconhecer a participação, o médico teria de admitir um crime na maioria das
jurisdições. No entanto, vários estudos imperfeitos da prática nos EUA sugerem
que, em estados onde é ilegal, a MMA pode ser responsável por cerca de 1-2% das
mortes.
A prática legítima da
MMA nos EUA está mais bem estudada no Oregon, onde é legal desde 1997 para
doentes terminais com capacidade de decisão que têm um sofrimento inaceitável.
Os dados recolhidos pelo Departamento de Saúde do Oregon mostram que a prática
aumentou ao longo desse tempo de aproximadamente 1 em 1000 mortes para
aproximadamente 1 em 300 mortes. Cerca de 2/3 dos doentes que recebem uma
prescrição potencialmente letal morrem depois de a tomarem, enquanto cerca de
um terço não toma a sua prescrição letal e morre por outras causas. Embora a MMA seja responsável por uma
percentagem relativamente pequena de mortes no Oregon, aproximadamente 1 em
cada 50 doentes fala com os seus médicos sobre a opção e 1 em cada 6 fala com
as suas famílias sobre a possibilidade. Sabemos também que a gestão da dor e a
utilização de hospícios melhoraram no Oregon desde a aprovação da Lei de Morte
com Dignidade, e existe um programa de âmbito estadual para registar as
vontades dos doentes sobre reanimação cardiopulmonar e outras intervenções
médicas (Patients Orders for Life Sustaining Therapy, ou POLST).
Nos Países Baixos, a
MMA e a eutanásia ativa voluntária eram abertamente autorizadas durante mais de
30 anos antes de terem sido legalizadas em 2002. As práticas foram objeto de
vários estudos importantes, que mostraram taxas relativamente estáveis de MMA
(0,2-0,3%) e de eutanásia ativa voluntária (1,8-2,5%), bem como o aumento da
informação pública ao longo do tempo (agora mais de 50%). As conclusões mais
controversas têm sido um número pequeno mas persistente de "atos que terminam
com a vida sem pedidos explícitos" (0,7-0,8%). Tem havido muita discussão sobre estes casos.
Os defensores argumentam que os doentes estavam em fase terminal, que estavam com
um sofrimento intratável, que tinham perdido capacidade de decisão e que os
seus médicos tinham agido adequadamente para acabar com o sofrimento. Os
críticos sugerem que estes casos são provas claras da rampa escorregadia de uma
prática fora de controlo. Os críticos
também têm visto perigos de uma rampa escorregadia na aceitação de diagnósticos
psicossociais vagos (por ex. "cansado de viver") como justificação
para a eutanásia ativa voluntária e MMA.
Nos Países Baixos, existe um preconceito cultural de que a
responsabilidade de conter o sofrimento de um doente individual supera a
obrigação de obedecer à lei nestes casos difíceis ("força maior").
Legalizar a morte
medicamente ajudada
Proponentes e
críticos da MMA têm diferentes razões éticas para defender as suas posições. Os
principais argumentos a favor da legalização são:
A autonomia do doente. Um doente deve ter
o direito de controlar as circunstâncias da sua própria morte e de determinar
quanto sofrimento é demasiado.
Misericórdia. Se a dor e o
sofrimento de um doente não puderem ser suficientemente aliviados com cuidados
paliativos de última geração, então o médico tem a obrigação de fazer tudo o
que estiver ao seu alcance para aliviar esse sofrimento, até ao ponto de
apressar a morte se não houver alternativas realistas aceitáveis para o doente.
Não abandono. A obrigação do
médico para com o seu doente e a sua família de acompanhar o processo de morte
e de ser o mais atencioso possível, prevalece sobre outras obrigações e
restrições nestas circunstâncias preocupantes.
Os principais
argumentos contra permitir o acesso legal ao DAP são:
Matar é um erro. Ajudar
propositadamente um doente a morrer é categoricamente errado em quaisquer
circunstâncias; os cuidados paliativos excelentes não incluem a MMA.
Integridade do médico. Os médicos fazem o
juramento sagrado de nunca prejudicar intencionalmente um doente, e a MMA
violaria as normas profissionais e minaria a confiança entre o médico e o
doente.
Risco de abuso (rampa
escorregadia). Permitir a MMA representa um risco demasiado elevado para os
doentes vulneráveis. As suas vidas poderiam eventualmente acabar contra a sua
vontade ou ainda que havendo abordagens alternativas para aliviar o sofrimento
poderiam ser dispendiosas ou o sofrimento fosse difícil de tratar.
Enquanto a maioria
dos clínicos experientes reconhece que há casos relativamente raros que podem
justificar a MMA, há duas questões empíricas principais sobre o efeito da
legalização. Será que uma abordagem aberta e regulamentada legalmente tornaria
a prática da MMA mais segura, mais previsível e relativamente rara (como parece
ser o caso até agora no Oregon)? Ou será que corroeria os ganhos obtidos nos
cuidados paliativos e hospitalares, tornando o ambiente mais arriscado e
assustador para os nossos doentes mais vulneráveis (como os casos de eutanásia
involuntária e de eutanásia voluntária para uma vaga aflição psicossocial na
Holanda parecem sugerir)?
Glossário da
Morte Medicamente Ajudada
Morte
ajudada por médico: a prática de um médico que proporciona os meios a uma pessoa com
capacidade de decisão para possa terminar a sua própria vida, geralmente com
uma prescrição de barbitúricos com que o doente se suicida; por vezes também
chamada de suicídio ajudado por médico, ajuda médica e morte antecipada por
administração pelo doente)
Eutanásia: matar sem dor ou
permitir a morte de indivíduos que estão doentes ou feridos sem esperança de
recuperação.
Eutanásia
ativa voluntária: apressar a própria morte através do uso de fármacos ou outros meios, com
a ajuda direta de um médico.
Eutanásia
passiva:
apressar a morte, retirando o tratamento que sustenta a vida e deixando a
natureza seguir o seu curso
Eutanásia
involuntária: causar ou apressar a morte de alguém que não tenha pedido ajuda para
morrer, como por exemplo, um doente que perdeu a consciência e é pouco provável
que a recupere ou que carece de capacidade de decisão por outras razões.
Opções de Último
Recurso
Os cuidados paliativos de última geração continuam a
ser o padrão de cuidados para qualquer sofrimento em fim de vida e as opções de
último recurso só devem ser consideradas quando tais tratamentos são
ineficazes. Não estão disponíveis bons serviços de cuidados paliativos em todos
os locais; estão a ser feitos esforços para aumentar a educação e a
proliferação destes serviços por grupos médicos e outros grupos profissionais,
em iniciativas estaduais, sistemas inovadores de cuidados de saúde e por provedores
dos doentes.
Ao considerar casos de sofrimento intratável face a
excelentes cuidados paliativos, quer a MMA seja legal ou não, os clínicos devem
estar plenamente conscientes das opções alternativas de "último
recurso" que podem ser preferíveis e sobre as quais existe um maior
consenso moral. A prescrição de medicamentos para a gestão agressiva da dor e
outros sintomas, mesmo em doses que possam apressar involuntariamente a morte,
tem ampla aceitação ética, legal e profissional. Esta prática pode ser
justificada por razões éticas pela doutrina do duplo efeito, que defende que,
embora seja errado tirar intencionalmente a vida a alguém, pode ser admissível
correr o risco previsível de apressar a morte de alguém, desde que a intenção
seja aliviar o sofrimento.
Outra opção de último recurso com ampla aceitação é
que os doentes parem (ou não comecem) qualquer terapia potencialmente
sustentadora da vida se esta não atingir o seu objetivo, mesmo que o seu
objetivo na recusa de tratamento seja o de escapar ao sofrimento através de uma
morte mais precoce. A decisão dos doentes de parar voluntariamente de comer e
beber para escapar ao sofrimento intolerável é aceite por muitos hospícios e
tem um apoio ético e legal considerável. A justificação ética para estas opções
é que preservam o direito dos doentes à integridade corporal e à
autodeterminação – para dizerem o que querem que aconteça ao seu próprio corpo.
Uma resposta de último recurso para alguns dos casos
mais complexos e difíceis é a de os médicos sedarem um doente potencialmente ao
ponto de inconsciência para permitir que a pessoa escape ao sofrimento físico,
de outro modo intratável, no fim da vida. O apoio jurídico a esta prática
inclui as decisões do Supremo Tribunal de 1997 em Washington v. Glucksberg e
Quill v. Vacco, que reconheceram o direito a uma boa gestão da dor, mesmo que
esta requeira doses que possam apressar a morte. A justificação desta prática
invoca uma combinação da regra do duplo efeito e do direito à integridade
física. Em julho de 2008 a Associação Médica Americana declarou que "é
obrigação ética de um médico oferecer sedação paliativa até à inconsciência
como opção para o alívio de sintomas intratáveis" no final da vida quando
"os sintomas não podem ser diminuídos através de todos os outros meios de
paliação". [NT: ver sobre sedação paliativa a Lei
n.º 31/2018]
Dar aos médicos e doentes um acesso mais aberto e uma
maior consciência das opções de último recurso pode ter vários efeitos
benéficos. Um efeito potencial é uma maior oportunidade para os doentes obterem
segundas opiniões de clínicos qualificados em cuidados paliativos para terem a
certeza de que outras vias menos extremas para abordar o sofrimento
aparentemente intratável foram consideradas. Outro benefício é a garantia às
pessoas gravemente doentes que receiam ter sofrimentos em fim de vida de que
existem algumas vias de fuga que podem ser seguidas de forma aberta e
previsível. Estas outras opções de último recurso podem diminuir o desejo e a
necessidade da MMA. Alguns doentes no Oregon e nos Países Baixos estão a
escolher estas outras alternativas de último recurso, embora tenham acesso a
MMA porque, em algumas circunstâncias, estas abordagens são mais capazes de
responder às suas necessidades particulares e podem ser mais congruentes com os
seus valores pessoais. Finalmente, as alternativas acrescentadas aumentam a
consciência, tanto dos clínicos como da sociedade, da sua obrigação de lidar
com o sofrimento intolerável quando este se lhes depara.
Timothy
E. Quill, MD,
é o diretor fundador do Programa de Cuidados Paliativos no Centro
Médico da Universidade de Rochester.
Bernard
Sussman, MD, é membro do Programa de Cuidados
Paliativos e da Divisão de Humanidades Médicas e Bioética do Centro Médico da
Universidade de Rochester
.