01 maio 2005

Corino Andrade (1906-2005), um médico progressista

Quando estávamos nos preparativos finais do caderno sobre epilepsia que a Revista Portuguesa de Clínica Geral nos pedira, soube-se do falecimento do Dr. Corino Andrade e surgiu o convite para redigir, em cima da hora, um breve depoimento/testemunho sobre esse grande médico e a sua vida.

Este registo para «memória futura» sobre o Dr. Corino fundamenta-se nos idos de 1977 quando participei com ele e com Paula Coutinho numa viagem aos Açores para, por incumbência do Diretor Geral de Saúde Dr. Arnaldo Sampaio, se proceder ao levantamento das famílias afetadas pela novel doença de Machado-Joseph, descrita na América.

O Dr. Corino estava já aposentado da sua longa carreira hospitalar por ter atingido os 70 anos no ano anterior mas estava muito ativo e altamente envolvido na instalação e consolidação de uma escola médica de novo tipo no Porto – o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar crescia com a sua marca pessoal.

No Serviço de Neurologia do Hospital de Santo António, onde o conhecera como diretor, o Dr. Corino era um chefe respeitado (os mais velhos referiam-se a ele como «o patrão» – fosse dito à francesa ou à Porto). A sua fama de líder não resultava apenas de ser aparentemente austero ou mesmo severo mas, sobretudo, da estranha sensação que dele irradiava: parecia sempre saber tudo e ter sempre razão!

Dele se diz que descobriu uma doença nova mas essa é uma visão distorcida da realidade. A doença dos pezinhos, como todos os médicos sabem ou sabiam, «sempre» existiu (pelo menos desde a mutação genética inicial). O que Corino Andrade fez foi, simplesmente, reconhecê-la e estudá-la. Com metodologia científica da mais simples a que juntou os conhecimentos de neuropatologia microscópica que aprendera na sua estadia na França e na Alemanha nos anos 30, começou a estudar os nervos periféricos e definiu a paramiloidose amiloidótica familiar. Conseguiu assim estabelecer não só as bases que permitiram explicar a fisiopatologia e a genealogia desta doença como levou à criação de linhas de investigação que ainda hoje dão frutos.

Dele se diz que foi um dos fundadores da Neurologia em Portugal mas essa é uma visão redutora da realidade. Efetivamente, quando em 1938 decidiu radicar-se no Porto, a Neurologia não tinha ainda a sua autonomia como especialidade médica. É no decorrer do século XX que surgem os primeiros serviços dedicados às doenças orgânicas do sistema nervoso no seio dos hospitais gerais e deixam de estar anexos aos manicómios do século anterior. Mas o Dr. Corino não se satisfez em juntar colaboradores neurologistas. Graças ao seu empreendedorismo organizativo, atraiu para o Hospital as pessoas de que precisava para as outras vertentes de assistência aos doentes neurológicos. Criou as primeiras unidades de cuidados intensivos para traumatizados cranioencefálicos e de reanimação respiratória para as lesões vertebromedulares, facilitou o crescimento dos meios complementares de diagnóstico de que necessitava – na imagem (neurorradiologia) como na função (neurofisiologia), envolveu-se diretamente nos centros de estudos bioquímicos e neuropatológicos, abriu as portas à neurocirurgia. Em todas estas áreas estimulou estadias no estrangeiro que pôs a render nos respetivos regressos com elevada produtividade.

Com todo este passado o jovem interno que o acompanhou nessa viagem às ilhas de S. Miguel, Terceira, Graciosa e Flores, cumprindo as tarefas de motorista, porta-bagagens, tesoureiro e anotador das observações clínicas e das árvores genealógicas, sentia-se algo intimidado com a presença do Patrão. Durante aquelas três semanas, pude então aperceber-me da sua vastíssima cultura, sentir a sua simpatia protetora e reconhecer aquela personalidade que, a todos os títulos, cativava quem melhor o conhecia. Talvez influenciado pelos ventos frescos da jovem democracia portuguesa da época, sentia-me fascinado por conhecer, com alguma intimidade, um vulto da resistência aos anos cinzentos da ditadura. A verdade é que essa impressão se mantém passadas quase três décadas.

Estava perante alguém que resistira às adversidades com uma pertinácia ímpar, sem concessões facilitistas. Corino Andrade era a personificação mais clara e evidente do médico progressista. Poucos, como ele, terão contribuído tanto para o progresso do seu país, seja do ponto de vista científico como do social. No final da sua vida quase centenária, recordar o modo como desempenhou o seu papel de médico e de cidadão é um dever inultrapassável. A sua figura perdurará na nossa memória como o exemplo de como se pode transformar este concreto e admirável mundo novo.

A utilidade do EEG


[Adaptação em modelo FAQ («frequently asked questions») de palestra feita no «I Encontro de Epilepsia em Matosinhos» Hospital Pedro Hispano, em 18 de Fevereiro de 2005]

Na Prática Clínica,  o Eletroencefalograma (EEG) é muito ou pouco útil?

Como todos os exames complementares de diagnóstico, há situações em que o EEG é muito útil e outras em que pouco ajuda. O EEG é um exame que foi inventado em 1924 por Hans Berger (1873-1941)1 e desde então tem havido enormes desenvolvimentos tecnológicos na área eletrónica que têm revolucionado a capacidade de analisar a atividade elétrica do cérebro2. As indicações quotidianas deste estudo foram largamente ultrapassadas pelas suas potencialidades no campo da investigação.

O EEG, ao medir a atividade elétrica do cérebro, serve para avaliar as suas funções?

Infelizmente o EEG não consegue dar informações sobre a maior parte das funções cerebrais (pensamento, memória, linguagem, etc.) mas somente registar diferenças de potencial elétrico entre pontos do escalpe. Tem por isso muitas limitações. Desde logo espaciais pois, em condições habituais, não se coloca senão um número limitado de elétrodos e, por outro lado, por mais elétrodos que se coloquem não se consegue ter elétrodos suficientemente próximo das faces internas e inferiores dos hemisférios cerebrais. Acrescem limitações temporais já que as medições que se explicitam em gráficos de curvas sinusoidais com amplitudes e frequências variáveis apenas reproduzem dados que ocorrem durante o registo, deixando-nos sem informação sobre acontecimentos que possam acontecer noutras épocas. Existem também limitações técnicas, pois entre o cérebro e a pele do couro cabeludo interpõem-se várias camadas de tecidos que prejudicam a condução elétrica. Finalmente podemos considerar as limitações de significado – muito ainda está para descobrir para que possamos saber tudo o que corresponde efetivamente a uma determinada variação de sinal elétrico.

Então o EEG é um exame de fraca utilidade?

Se na prática clínica for seguido o princípio geral da medicina que é começar a abordagem do doente pela anamnese e levá-la até às suas últimas consequências, então o recurso a este como a outros exames complementares revela-se útil na medida em que conheçamos a sua sensibilidade e a sua especificidade. O EEG é muito útil na confirmação de diagnósticos clínicos de algumas epilepsias. É no manejo clínico das epilepsias que este exame conhece níveis de especificidade maiores, chegando a 78 ou 98% conforme os estudos. No entanto, como se pode depreender do que já foi dito acima, a sensibilidade do EEG é fraca, situando-se entre 25 e 50%3,4. Isto significa que tem poucos falsos positivos, ou seja, que quando se encontram certos elementos gráficos sugestivos de certos síndromos epiléticos a probabilidade de confirmar o diagnóstico é alta mas que, por outro lado, tem muitos falsos negativos, ou seja, quando um exame não revela anomalias isso não pode ser argumento para anular um diagnóstico baseado noutros elementos, em particular, na anamnese.

Um doente com epilepsia pode ter EEG sempre normais?

Sim. Embora seja incorreto usar apalavra normal neste contexto. O que se pode dizer é que um determinado EEG realizado numa determinada hora em determinadas condições não revelou anomalias gráficas que confirmem a hipótese diagnóstica.

O que significa um relatório de EEG que revela uma «hiperexcitabilidade cerebral generalizada»?

Esse conceito está hoje ultrapassado e deve ser evitado. A regularidade ou irregularidade elétrica de um exame tem, só por si, pouco significado específico. Há demasiadas influências externas, para além das limitações referidas acima, que impedem atribuir valor diagnóstico a variações dispersas de amplitude e frequência do sinal registado. Citam-se, entre essas influências, a glicemia, o equilíbrio hormonal, a proximidade maior ou menor do sono prévio, a temperatura, as medicações em uso e os seus níveis de circulação, o grau de atenção ou relaxamento mental durante o exame, etc. Não se pode também esquecer que os artefactos técnicos podem simular anomalias gráficas e por vezes são difíceis de eliminar. Finalmente, deve referir-se que em crianças e adolescentes os padrões de normalidade são diferentes do adulto, como, por exemplo, a resposta à ativação provocada pela alcalose respiratória forçada na hiperpneia solicitada durante o exame5.

Quais são as formas de epilepsia em que o EEG é específico?

Há várias. A mais vulgar é a epilepsia de ausências da infância que se manifesta por interrupções momentâneas (poucos segundos de duração) da consciência, por vezes com pestanejo ou automatismos gestuais breves, sem queda, com recuperação imediata, repetindo-se várias vezes ao dia. Este síndromo é muito facilmente diagnosticado em crianças na idade escolar (ciclo básico ou primeiros anos do secundário) e o EEG é típico – em cada ausência, surgem complexos de ponta-onda, a 3Hz, síncronos, simétricos e generalizados a todos os elétrodos colocados (Figura 1).Há também um síndromo bastante frequente que ocorre em crianças um pouco mais velhas, podendo iniciar-se antes da puberdade, em que ocorrem crises durante o sono. São crises de início focal (a maior parte das vezes com contrações de meia face ou sensações estranhas na boca acompanhadas de dificuldade em falar) seguindo-se, mas não sempre, uma convulsão generalizada. Um quadro destes configura o síndromo de epilepsia benigna da criança com paroxismos centro-temporais onde se detetam pontas nas derivações centrais ou temporais (Figura 2) num EEG realizado durante o sono. Estes elementos gráficos surgem por vezes mesmo com a criança acordada, assim como há casos em que não se consegue registá-los mas que cursam como os outros para uma cura espontânea ao fim de poucos meses ou anos6. Há outros síndromos em que os traçados de EEG muito ajudam ao diagnóstico. É o caso do Síndromo de West que ocorre em bebés com menos de um ano, com crises (espasmos infantis) em que a criança se contrai em flexão, em salvas, e se verifica uma paragem ou retrocesso do desenvolvimento psicomotor (deixa de sorrir ou de se sentar, por exemplo). O EEG que neste caso é considerado urgente apresenta um padrão de «tempestade» e falta de sincronização (hipsarritmia) que é típico. Também, sobretudo no adulto, se podem encontrar focos de ondas lentas persistentes que sugerem, de forma mais ou menos significativa, que uma região sofreu uma lesão e está disfuncional. Todavia, o EEG não é o exame indicado para confirmar lesões e muito menos para identificar a sua origem. Hoje, os exames de imagem cumprem essa tarefa com elevados graus de especificidade e sensibilidade. É frequente sermos «surpreendidos» por um EEG «normal» sobre um grande glioma.

A fotossensibilidade, enquanto perturbação que explica crises epiléticas desencadeadas pelos televisores e monitores de computadores, é detetada pelo EEG?

Algumas pessoas são sensíveis a estímulos luminosos repetidos, apresentando facilmente, perante certos «flashes», convulsões generalizadas, precedidas ou não de abalos mioclónicos, e de facto esse fenómeno pode ser detetado no EEG. Havendo casos de fotossensibilidade extrema que obrigam a medicação permanente, outros há em que basta tomar algumas precauções para evitar a repetição de crises: ver TV ou usar computadores não muito perto, não muito tempo, em ambiente não muito escuro e, sempre que possível, preferir monitores de 100 Hz ou LCD («liquid cristal display»). Seja como for, de novo a clínica, mais do que o EEG, leva a recomendar que, por melhores que sejam os monitores e por mais precauções que se tome, deve ser prestada a maior atenção às imagens visionadas – padrões de luminosidade forte em ciclos alternados – pelas pessoas fotossensíveis7. Por tal razão, a estimulação luminosa intermitente (ELI) é uma prova de ativação rotineira num EEG.

O EEG é útil à decisão quando se pretende descontinuar a medicação depois de obtido o controlo das crises?

O valor prognóstico do EEG é controverso. Quando persistem anomalias gráficas é difícil assumir a decisão de interrupção de medicamentos mas pode haver situações em que isso é possível. No entanto, está suficientemente comprovado que os fatores decisivos são essencialmente clínicos. A idade do início das crises, a existência ou não de anomalias estruturais do sistema nervoso central, o tipo de crises ou o síndromo epilético, a facilidade com que se obteve o controlo – tudo pesa, juntamente com os resultados do EEG e o tempo decorrido desde que o doente está sem crises8.

O EEG tem outras aplicações na epilepsia?

O EEG é da maior utilidade para o refinamento de localizações quando se seleciona um doente para a cirurgia, seja através de elétrodos no escalpe, seja através de elétrodos corticais colocados junto ao cérebro antes da intervenção cirúrgica propriamente dita. Além disso, têm sido desenvolvidas técnicas digitais de mapeamento e de reconstrução espacial, por vezes integrando dados de EEG e de imagem que são muito eficazes na identificação de focos epileptogénicos. Também a conjugação do EEG coma gravação videográfica do doente (vídeo-EEG) se revela da maior utilidade para estabelecer conexão entre as alterações elétricas do encéfalo e as manifestações clínicas, permitindo frequentemente obter bases sólidas para distinguir crises epiléticas de crises não epiléticas (sejam elas psicogénicas ou devidas a perturbações orgânicas de outras origens).

O EEG só serve para apurar o diagnóstico clínico das epilepsias?

É também utilizado com eficácia como complemento de diagnóstico na Doença de Creutzfeldt-Jakob, assim como na variante humana da encefalopatia espongiforme bovina visto que, nas doenças priónicas, existem sintomas (mioclonias) que são explicados por atividades elétricas periódicas com tradução no EEG9. A deteção de focos de atividade paroxística no lobo temporal pode pôr na pista de uma encefalite herpética se as manifestações clínicas forem consentâneas com essa hipótese diagnóstica. O EEG é igualmente útil no estudo do sono, em particular mas hipersónias diurnas e, associado ao registo de outros sinais (movimentos, ECG, oximetria, fluxos ventilatórios, etc.) funciona como um auxiliar precioso na caracterização dos quadros de apneias do sono e no diagnóstico de outras perturbações intrínsecas do sono, como por exemplo na narcolepsia.

Quais são as aplicações do EEG no campo da investigação científica?

O EEG é utilizado sobretudo na investigação do sono e das influências de novos fármacos tanto no sono como na eletrogénese. Existem também estudos e já algumas aplicações sobre o uso de métodos quantitativos para monitorização eletroencefalográfica de comas10 e de intervenções cirúrgicas com circulação extracorporal. Também os estudos de demências têm sido direcionados para avaliações quantitativas seriadas11,12.

O EEG é um exame que tem utilidade no rastreio de doenças quando há sintomas de provável compromisso cerebral?

O papel do EEG nesse campo é muito limitado. O recorrer sistematicamente a um exame como este a propósito decefaleias13,14, dificuldades escolares ou atrasos intelectuais15, depressões ou ansiedade, alterações de comportamento16, défices cognitivos ou motores, sequelas de traumatismos cranianos17 ou de infeções meníngeas é certamente uma má prática se não houver outras razões associadas. Uma perda de conhecimento não testemunhada e não explicada pode ser uma boa razão para pedir um EEG, conquanto que se esteja ciente de que um traçado normal nada acrescentará às conclusões. Nunca será demais chamar, por outro lado, a atenção para o conhecido «mandamento» da clínica: «não tratarás exames mas apenas doentes». O primado da anamnese, de novo, é a chave da questão.

Referências bibliográficos
1. Gerhard UJ, Schonberg A, Blanz B. “If Berger had survived the second world war – he certainly would have been a candidate for the Nobel Prize”. Hans Berger and the legend of the Nobel Prize]. Fortschr Neurol Psychiatr 2005Mar; 73(3): 156-60.
2. Niedermeyer E, Lopes da Silva F. Electroencephalography: Basic principles, clinical applications, and related fields. 3rd ed. Baltimore: Williams & Wilkins; 1993.
3. Nunes de Oliveira SN, Rosado P. Electroencefalograma interictal – sensibilidade e especificidade no diagnóstico de epilepsia. Acta Med Port 2004; 17: 465-470.
4. Clinical guidelines and evidence review for the epilepsies: diagnosis and management of the epilepsies in adults and children in primary and secondary care. Disponível em URL:http://www.nice.org.uk/pdf/CG020fullguide-line.pdf
5. Almeida R, Alves D, Guimarães J. Efeito da hiperpneia em adolescentes saudáveis. Boletim da Liga Portuguesa contra a Epilepsia,1986 (Supl. 2).
6. Shorvon S, Walker M. Understanding Epilepsy. London: British Medical Association;2004.
7. Harding GFA, Takahashi T. Regulations: What next? Epilepsia 2004; 45 Suppl 1: 46-7.
8. Medical Research Council Antiepileptic Drug Withdrawal Study Group. Prognostic index for recurrence of seizures after remission of epilepsy. BMJ 1993 May 22; 306(6889):1374-8.
9. Steinhoff BJ, Zerr I, Glatting M, Schulz-Schaeffer W, Poser S, Kretzschmar HA. Diagnostic value of periodic complexes in Creutzfeldt-Jakob disease. Ann Neurol 2004 Nov;56(5): 702-8.
10. Scheuer ML. Continuous EEG monitoring in the intensive care unit. Epilepsia 2002;43 Suppl 3: 114-27.
11. Coutin-Churchman P, Anez Y, Uzcategui M, Alvarez L, Vergara F, Mendez L, et al. Quantitative spectral analysis of EEG in psychiatry revisited. Clin Neurophysiol. 2003 Dec;114(12):2294-306.
12. Hughes JR, John ER. Conventional and quantitative electroencephalography in psychiatry. J Neuropsychiatry Clin Neurosci 1999 Spring; 11(2): 190-208.
13. Aguggia M. Neurophysiological tests in primary headaches. Neurol Sci 2004 Oct; 25Suppl 3: S203-5.
14. Lewis DW, Ashwal S, Dahl G, Dorbad D, Hirtz D, Prensky A, et al. Practice parameter: evaluation of children and adolescents with recurrent headaches. Neurology 2002 Aug 27;59(4): 490-8.
15. Aydin K, Okuyaz C, Serdaroglu A, Gucuyener K. Utility of EEG in the evaluation of common neurologic conditions in children. J Child Neurol 2003 Jun; 18(6): 394-6.
16. Gueguen B, Raynaud P, Guedj MJ. Indications de l’EEG dans les confusions mentales du comportement. Neurophysiol Clin 1998 May; 28(2): 134-43.
17. Korinthenberg R, Schreck J, Weser J, Lehmkuhl G. Post-traumatic syndrome after minor head injury cannot be predicted by neurological investigations. Brain Dev 2004 Mar;26(2): 113-7.

31 dezembro 2004

O p@pel do médico

o p@pel do médico

uma seleção de artigos, legislação, diretrizes, recomendações
&
um dicionário de siglas, acrónimos e abreviaturas

a partir do primeiro jornal médico da Internet
que esteve no "ar" (www.opapeldomedico.com) de 1999 a 2004

ver AQUI

30 dezembro 2004

A vida é bela!

Notícias da Epilepsia, 2004
Celebrando a criação da EPI - associação portuguesa de familiares, amigos e pessoas com epilepsia

A vida é bela. Quer dizer, a vida é mais bela se nós fizermos por isso. Por vezes, a vida fica feia e isso nem sempre depende só de nós mas viver com uma doença crónica, nem sempre significa que a vida não possa ser bela.

Muitas pessoas conseguem adotar posturas que lhes permitem suportar adversidades enormes, não deixando de ver o belo que há na vida. Na mais triste das vidas, há momentos e acontecimentos que nos enchem de alegria.

Alguns dirão que é mais fácil falar do que viver mas o exemplo de muitos ajuda-nos a compreender como é possível “fazer das tripas coração” ou, como também se diz, “dar a volta por cima”.

A epilepsia é, na maior parte dos casos, felizmente, uma adversidade suportável – seja porque se obtém um controlo razoável das crises, seja porque as crises apenas ocorrem em situações mais ou menos previsíveis. Acontece porém que a epilepsia está, em muitos outros casos, associada a gravosas condições, gerando vivências que só os próprios em boa verdade podem conhecer em todas as suas dimensões. No entanto, todos conhecemos pessoas e famílias que, mesmo no mais complexo dos cenários, conseguem encontrar formas positivas de encarar a vida.

Nos nossos dias cresce o movimento associativo das pessoas portadoras de doenças crónicas ou condições permanentes que de algum modo lhes provocam limitações, incapacidades ou mesmo deficiências. As associações de doentes, familiares e amigos são o terreno ideal para que os que conseguem “dar a volta por cima” se juntem aos que ainda o não conseguem fazer.

Encontrar o lado positivo das coisas não significa um conformismo passivo mas, sempre, um processo ativo de luta por direitos e de transformação da cultura dominante.

Mudar o mundo para melhor é, afinal, procurar que os outros mudem a forma como vêm as coisas e deixem de usar a dita cultura como desculpa para nada fazer e nada mudar.

As associações de doentes, para além da criação de serviços de utilidade para os seus associados, conseguem que os associados sintam que estão a melhorar o mundo e a ver o belo que há na vida.

É por isso que a ideia de fazer uma associação com os amigos, os familiares e as pessoas com epilepsia é duplamente feliz. Ou, como dizem os ingleses, é HappySeja FELIZ, seja EPI.

08 janeiro 2001

Os silêncios éticos da ética da investigação

VOL. 2, N° 2 | 2000

Os silêncios éticos da ética da investigação
Hubert Doucet
Diretor de Programas de Bioética e Professor nas 
Faculdades de Medicina e Teologia da Universidade de Montreal.


Resumo: Nos últimos anos, a ética da investigação tem verificado um crescimento considerável. Impôs-se como uma forma de regulação social exigida pelas autoridades públicas. Que forma de regulação é esta? A fim de responder a esta pergunta, o autor começa por dar uma história do desenvolvimento da ética da investigação, mostrando como esta tem evoluído desde o final da década de 1960. Em segundo lugar, mostra os limites do modelo canónico que, ao mesmo tempo que destaca um certo número de valores, ignora outros. Finalmente, propõe uma reanálise do conceito de ética da investigação para reintegrar uma série de valores fundamentais que foram descurados.

Nos últimos anos, a ética da investigação no Canadá, e particularmente no Québec, tem verificado um crescimento considerável.

A Declaração de Política dos Três Conselhos e o Plano de Ação Ministerial sobre Ética da investigação e Integridade Científica são um testemunho eloquente disto[1]. A situação canadiana não é, no entanto, uma situação isolada, uma vez que o mesmo fenómeno se encontra na maioria dos países industrializados. Os juristas e os eticistas estão assim a tornar-se especialistas essenciais devido ao trabalho de interpretação necessário que a multiplicação de normas exige. Quanto aos investigadores, como é que reagem?

Há algum tempo, encontrei-me com jovens investigadores na Universidade de Montreal que, na Faculdade de Medicina, realizaram projetos de investigação ao longo dos últimos cinco anos. O objetivo era falar com eles sobre a sua visão da ética da investigação. Todos eles me responderam em coro: “É a polícia!” Esta é a reação dos jovens investigadores, alguns dos quais são membros das comissões de ética na sua instituição, às normas e regulamentos a que devem aderir. A ética da investigação levanta assim questões e resistência por parte dos investigadores, mesmo os mais jovens, que se pensaria estarem mais abertos às questões humanas envolvidas na ciência biomédica e às pressões que caiem sobre os seus ombros. Esta reação espontânea convida-me a reexaminar a natureza da ética da investigação. Gostaria de o fazer de uma perspetiva histórica.

Assim farei, mostrando primeiro que o modelo de desenvolvimento da ética da investigação que se impôs rapidamente é um modelo de regulação tornado necessário pelo medo do escândalo, real ou inventado, ou pelo medo do risco. Este modelo impôs--se libertando-se de elementos que inicialmente o compunham. Num segundo passo, mostrarei que este modelo de desenvolvimento conduziu a uma forma canónica de ética da investigação que, ao mesmo tempo que destaca um certo número de valores, ignora outras questões. Finalmente, num terceiro passo, gostaria de sugerir a necessidade de reabrir o conceito de ética da investigação. De facto, nos documentos que mencionei, o conceito de ética da investigação parece-me ter-se tornado sinónimo daquela moral a que devemos pedir licença quando a ética passou a estar na moda.

Um modelo de desenvolvimento

Várias datas podem ser usadas para marcar o início da ética da investigação. Alguns apontam para 1947, quando o Código de Nuremberga foi promulgado, como um momento particularmente decisivo. Outros indicarão as normas que a Associação Médica Mundial começou a formular em 1949 e que tem revisto regularmente desde então. Estas normas, ao contrário do Código de Nuremberga, representam o compromisso moral das associações médicas nacionais. A sua natureza ética é assim fortemente enfatizada. Quanto a mim, prefiro apontar para meados da década de 1960; esse momento parece-me ser decisivo por uma dupla razão.

Por um lado, as revelações feitas por Henry Beecher e alguns outros investigadores na altura demonstram a natureza desumana de grande parte da investigação levada a cabo nos Estados Unidos. Elas puseram em causa aspetos fundamentais da ciência biomédica moderna e suscitaram um amplo debate público sobre a responsabilidade da sociedade quanto à prática da ciência. Esta tomada de consciência médica e coletiva foi a primeira fonte da ética da investigação que emergiu. Levou ao desenvolvimento de princípios e normas que rapidamente se tornaram tão importantes que foram referidos como princípios da bioética[2]. Por outro lado, ao mesmo tempo, teve lugar uma reflexão fundamental sobre biomedicina, sociedade e o futuro da humanidade. Esta reflexão visou estabelecer uma nova aliança entre ciência e cultura, entre biomedicina e ética. É a segunda fonte da ética da investigação. Infelizmente, parece-me que foi rapidamente posta de lado a favor da primeira.

Quando publicou “Ética e Investigação Clínica”[3] em 1966, Henry Beecher não estava tanto a tentar proteger os direitos do indivíduo em nome da sua autonomia, mas sim a promover abordagens científicas que respeitassem os sujeitos da investigação. As revelações de Beecher e de outros colegas atraíram a atenção dos meios de comunicação social e das autoridades políticas. Já em 1968, o Senado norte-americano começou a discutir a relevância da criação de uma comissão para estudar a proteção de sujeitos humanos na investigação biomédica. O projeto só se concretizou cinco anos mais tarde, atrasado pela forte resistência dos investigadores médicos, que protestaram contra a interferência de não-especialistas na orientação das investigações. Chegaram ao ponto de argumentar perante o Congresso que o papel do governo se limita a fornecer fundos aos investigadores, os únicos a determinar como os utilizar[4].

Só em 1973, e após três tentativas infrutíferas, Walter Mondale conseguiu aprovar legislação estabelecendo uma comissão para estudar as questões da experimentação em seres humanos. O senador Kennedy, que presidiu à subcomissão que estudava o projeto de lei, conseguiu tornar clara a urgência do assunto através da forma como estruturou as audições. A análise dos projetos de investigação apenas por colegas cientistas conduz a situações em que sujeitos mais vulneráveis (minorias, prisioneiros, pobres, crianças) são utilizados sem respeito pela dignidade humana. Os investigadores já não são, portanto, de confiança; já não são médicos no sentido tradicional da palavra, mas principalmente cientistas que trabalham na prossecução dos seus projetos e interesses. Na sua apresentação ao subcomité, Jay Katz, que presidira recentemente à subcomissão criada para estudar o caso Tuskegee (americanos negros com sífilis que foram conscientemente privados de penicilina), afirmou que “a comunidade científica não demonstrou qualquer vontade de impor normas significativas ou de discutir de forma séria os limites que poderiam ser estabelecidos na área da experimentação humana”. E acrescenta: “A regulamentação terá de vir de outro lugar”[5].

Para evitar escândalos de investigação, a preocupação de proteger aqueles que são os sujeitos da investigação requer regulamentação. A preocupação ética deu origem às instituições, princípios e normas que gradualmente se foram tornando inquestionáveis. “Os acontecimentos destes anos”, escreveu o historiador David J. Rothman, “ocorreram onde os ensaios de Nuremberga tinham falhado: trazer a ética da experimentação médica para o domínio público e mostrar as consequências de deixar as decisões sobre a investigação clínica para os investigadores individuais”[6].

A segunda fonte é a que deu origem ao que agora é chamado bioética. Alguns nomes devem ser lembrados: Daniel Callahan, fundador do Hastings Center, Paul Ramsey, autor de O Doente como Pessoa, e Hans Jonas, que em 1969 publicou um dos primeiros artigos filosóficos sobre a ética da investigação em humanos. Dois nomes são particularmente dignos de nota. São Van R. Potter, investigador em oncologia na Universidade de Wisconsin, em Madison, e André Hellegers, ginecologista e fundador do Kennedy Institute of Ethics da Universidade de Georgetown. Estes dois académicos tiveram como objetivo trazer para a mesa dois mundos que normalmente se ignoram mutuamente, a ciência e a ética, daí o termo bioética. Van R. Potter afirma ter sido o inventor do termo em 1971: “Criei uma nova palavra e uma nova disciplina académica cujo nome é bioética”, que pode ser definida como “a combinação de conhecimentos biológicos e valores humanos”[7]. De acordo com Warren Reich, André Hellegers também criou a palavra no mesmo ano. Ele descreveu a bioética como “uma disciplina única que reúne ciência e ética”[8]. O empreendimento intelectual que estes homens propuseram não foi apenas para resolver os dilemas levantados pela prática da medicina avançada, mas também para promover um novo tipo de reflexão sobre a biomedicina na medida em que transforma o ser humano e o seu mundo. O objetivo é, de certa forma, forjar uma nova aliança entre as “duas culturas”, a ciência e as humanidades, para usar a linguagem de Snow[9]. O projeto é de natureza antropológica e epistemológica.

Nesta interpretação, a ética da investigação que hoje conhecemos é apenas uma faceta de uma ética preocupada com as questões humanas levantadas pela investigação biomédica e pela ciência; está englobada numa visão muito mais ampla, uma visão humanista e global, que, no entanto, não se tem imposto. Talvez o projeto fosse utópico? De facto, rapidamente se dividiu em duas direções: ética clínica e ética da investigação. Esta última tornou-se uma instância de legitimação das regras necessárias para policiar as exigências “naturais” da investigação no contexto contemporâneo.

Os limites do modelo canónico da ética da investigação

Tudo isto não deve levar à conclusão de que a nossa ética da investigação não tem valor. Pelo contrário, os principais textos normativos destacam valores humanos da maior importância. Os textos canadianos e do Quebeque inspiram-se em numerosos documentos que surgiram desde Nuremberga e que testemunham a preocupação de respeitar a pessoa humana, especialmente a mais vulnerável. Autonomia, beneficência e justiça, estes três princípios do Relatório Belmont tornaram-se um bem comum da humanidade e representam uma realização assinalável. Refletem também valores fundamentais que têm marcado o desenvolvimento da ciência moderna. As limitações que gostaria de mencionar não estão relacionadas com os valores apresentados. Estão a outros níveis. A primeira limitação diz respeito aos requisitos dos textos regulamentares no contexto atual da investigação. A segunda são as muitas perguntas que não chegam a surgir.

No que diz respeito aos requisitos dos textos regulamentares, dois aspetos são dignos de menção: por um lado, os documentos que estabelecem as normas, e por outro, as comissões de ética que as devem aplicar, verificando se o investigador as cumpre.

De acordo com a Declaração da Política dos Três Conselhos, a ética da investigação “funciona de acordo com um mecanismo que surgiu nos últimos anos em muitos países e que inclui o estabelecimento de normas éticas nacionais aplicadas através de uma análise ética prévia dos projetos de investigação”[10]. Estas normas nacionais estão a tornar-se cada vez mais exigentes conforme o contexto socioeconómico em que a investigação tem lugar.

Ao mesmo tempo que as condições de vida dos investigadores se estão a tornar mais difíceis (concorrência, procura de fundos, investigação mais especializada, exigência de resultados práticos, dependência do financiamento privado e público, etc.), a sociedade está a tornar-se mais exigente em relação ao comportamento dos investigadores. Esta tendência é encontrada nos Estados Unidos como em qualquer outro lugar[11]. Como Antoine Garapon observa num texto intitulado “Direito e moral numa democracia de opinião”, “nunca a necessidade de normas foi tão grande, nem a suspeita de instituições foi tão forte”[12]. A multiplicação de normas parece-me fazer parte da atual tendência social para procurar um culpado, como ilustrado pelo debate sobre a monitorização contínua de projetos de investigação; queremos proteger-nos contra investigadores maus como o Dr. Roger Poisson, um famoso investigador do Hospital Saint-Luc em Montreal. Durante um período de mais de dez anos, este médico-investigador, entre outras falhas, recrutou uma centena de doentes para um estudo sobre o cancro da mama que eram inelegíveis. Não que uma monitorização contínua não faça sentido. O meu receio é que ao desejarmos que o investigador seja cada vez mais moral, estamos a tornar-lhe a vida cada vez mais difícil. A proclamação da prioridade que deve ser dada à ética corre o risco de mascarar uma boa dose de hipocrisia por parte das nossas sociedades.

O outro aspeto que gostaria de mencionar é o trabalho das comissões de ética da investigação [CEI]. Quando olho para o trabalho que as CEI fazem, vejo que a sua tarefa principal, se não a única, é avaliar protocolos de investigação. Exceto em algumas instituições onde uma comissão central de ética supervisiona as comissões setoriais e estabelece as regras gerais de funcionamento para o conjunto, o trabalho de uma CEI consiste em analisar os projetos para ver se cumprem as normas. Os estagiários do programa de bioética da Universidade de Montreal que participam pela primeira vez numa reunião da CEI ficam geralmente surpreendidos com o desenrolar da reunião. Esperavam discutir ética, valores e o impacto da tecnociência na vida humana. No entanto, nas CEI, não há tempo suficiente para analisar os numerosos e complexos protocolos, especialmente porque os investigadores têm outras preocupações. O objetivo da reunião é claro: aprovar ou rejeitar projetos, ou propor uma reavaliação. O objetivo é verificar a conformidade com as regras.

As comissões não estabelecem os princípios e valores pelos quais irão julgar a natureza ética de um projeto. Devem assegurar o cumprimento de requisitos éticos determinados algures. De certa forma, a comissão não escolhe a sua ética; são-lhe impostas por conselhos financiadores, ministérios, instituições. Nos Estados Unidos, começámos até a falar de ética federal para descrever este fenómeno. A norma é externa à “profissão” do investigador. Muitos sentem-se bastante desconfortáveis com a disciplina que lhes é imposta. Alguns jovens investigadores veem a regulação ética como um fenómeno policial.

Sem negar a dimensão ética no cerne do trabalho das CEI, e que está na sua origem, devemos no entanto reconhecer a sua profunda limitação. Por um lado, como observa George Annas, cada vez mais investigadores veem o papel das comissões como sendo tanto sobre a proteção do investigador e da sua instituição como sobre a proteção do próprio sujeito da investigação[13]. Esta é uma visão diferente da que deu origem ao trabalho na ética da investigação. Por outro lado, devido à tarefa que lhes é atribuída e aos meios que lhes são dados, as comissões não podem fomentar uma consciência ética criativa e crítica na comunidade. Os parâmetros 'éticos' são definidos antecipadamente e a carga de trabalho, que é particularmente pesada, não permite mais nada. Inspirando-me numa observação do sociólogo francês François Isambert sobre bioética, diria que a verdadeira tarefa das comissões de ética da investigação não é ética, mas uma forma de controlo pelos pares para incitar à prudência e à moderação[14].

A segunda limitação do modelo canónico de ética da investigação é que há muitas questões que não chegam a surgir, uma vez que a ética da investigação já não é uma preocupação primordial dos eticistas. Num artigo de 1997, Baruch Brody do Center for Medical Ethics and Health Policy do Baylor College of Medicine, em Houston, argumentou que “nos últimos dez a quinze anos, o mundo da bioética tem prestado pouca atenção a um conjunto de questões éticas de investigação que têm sido objeto de um debate significativo tanto entre os investigadores como entre os reguladores. Tendo conseguido promover, nos Estados Unidos e noutros países, um quadro geral para a proteção dos sujeitos humanos que participam na investigação (revisão independente dos protocolos de investigação, análise de risco-benefício, consentimento informado), voltou a sua atenção para outras áreas, ignorando virtualmente a ética da investigação”[15].

Baruch Brody argumenta que os bioeticistas não estão a dar o devido peso a algumas das questões fundamentais que devem ser abordadas na ética da investigação. O seu colega Harold Vanderpool, embora argumentando que a ética da investigação está menos doente do que Brody diz, reconhece que os eticistas perderam o interesse pelas questões fundamentais que surgem na ética da investigação. Confrontados com os problemas levantados pelo desenvolvimento da ciência, tais como a genética, contentam-se frequentemente em integrá-los no quadro estabelecido há quinze ou vinte anos[16].

A este respeito, duas observações merecem ser feitas, a primeira relativa ao silêncio dos especialistas em ética sobre o contexto atual da investigação científica e a segunda relativa a um certo número de questões que não parecem prender a atenção destes especialistas, embora digam respeito à própria natureza desta ética.

O silêncio dos eticistas da investigação sobre o contexto atual da investigação científica parece-me particularmente preocupante. Esta investigação, em que há predomínio de um ser vivo sobre outros, tornou-se numa grande empresa com consideráveis interesses económicos, políticos e sociais. O progresso do conhecimento e, consequentemente, o bem da humanidade, estes dois fundamentos da ciência moderna, são ensombrados pelas exigências da rendibilidade e do desempenho. O contexto atual, mesmo que preocupe muitos investigadores académicos, está a impor-se como uma vaga de fundo assustando todos no  seu caminho. Talvez isso se deva ao que é a ciência moderna? As ciências da vida caracterizam-se pelo domínio dos seres vivos e a biologia é inseparável das empresas biotecnológicas. Em resposta a alguns dos riscos que este novo contexto comporta, as universidades começam a impor regras à indústria; o seu objetivo é proteger a liberdade de publicação dos investigadores. Esta é uma resposta saudável. Mas quando falo do silêncio da ética da investigação no contexto atual, estou a falar de outra coisa. A ética da investigação, se está interessada na avaliação dos protocolos de investigação, não me parece suficientemente preocupada com os desafios dos desenvolvimentos científicos. A genética é um bom exemplo disso. Os princípios e normas que devem orientar a avaliação das comissões de ética são os que temos tido nos últimos vinte e cinco anos, embora tenham sido desenvolvidos num outro contexto. O nosso quadro de análise é demasiado restrito, uma vez que não inclui as consequências culturais e socioeconómicas destes desenvolvimentos. Não tem em conta o risco de apartheid que o Ocidente está a pôr em prática. A agricultura transgénica é um bom exemplo disso; os países emergentes permanecerão particularmente dependentes de grandes multinacionais ou excluídos do comércio internacional. O mesmo se aplica ao acesso aos cuidados de saúde. Os produtos de saúde que as biotecnologias tornarão possíveis “não serão obviamente acessíveis ao orçamento médio da saúde”. [...] Mas para assegurar a rendibilidade destes produtos de muito alta tecnologia, amanhã, pelo menos uma pequena fração da sociedade terá de ser capaz de investir dez vezes – talvez cem vezes – mais do que o orçamento médio de saúde per capita. [...] Para que isto funcione economicamente, será necessário criar ainda mais desigualdade”[17]. Sobre estas questões – podemos pensar nas enormes pressões que estas biotecnologias irão exercer sobre o sistema de saúde pública – a ética da investigação permanece silenciosa ou, talvez pior, impotente. O silêncio dos especialistas em ética da investigação é particularmente significativo.

O segundo ponto diz respeito a uma série de outras questões que parecem não receber atenção e que, no entanto, dizem respeito à própria natureza da ética da investigação. Entre outros, gostaria de mencionar a questão da representação pública nas CEI. Nos últimos anos, a importância da presença de um representante da comunidade tem sido reconhecida. Além da declaração de princípio, contudo, há pouco trabalho a analisar e especificar as condições para esta presença. Os especialistas em ética têm pouco a dizer sobre uma questão que diz respeito à dimensão democrática das nossas organizações. Há também questões que dizem respeito à aprovação de projetos de investigação e sobre as quais tem sido dada pouca atenção. Pensemos na aprovação mais rápida dos medicamentos ao mesmo tempo que exigimos segurança. Esta questão é uma questão de equilíbrio entre duas exigências legítimas. As respostas variam de país para país devido a diferentes pressupostos epistémicos. As reflexões éticas sobre esta questão são raras. Estes silêncios são particularmente marcados no Québec. Não parece haver um verdadeiro corpo de pensamento sobre ética da investigação no mundo universitário francófono.

Abrir o conceito de ética da investigação

Finalmente, penso que é importante reabrir o próprio conceito de ética da investigação. Não se trata de propor a abolição das CEI, a transformação do trabalho que realizam ou o questionamento de normas nacionais ou internacionais, mas sim de inscrever estes instrumentos regulamentares numa visão mais ampla, como foi o caso na origem da bioética.

De facto, parece-me que as comissões de ética da investigação são um bom exemplo do regresso da moral da qual tanto nos esforçámos por libertar. Se a moral corresponde aos princípios e normas que uma determinada comunidade estabelece para si própria, a fim de responder concretamente às suas próprias expectativas e objetivos, o trabalho das CEI está diretamente relacionado com isso.

Esta última afirmação é tanto mais necessária quanto os princípios e normas que regem o trabalho das CEI cristalizam os valores de uma determinada cultura ou comunidade, a do mundo da investigação, que está a tentar estabelecer os seus deveres para com os sujeitos da investigação, de acordo com as palavras de abertura da Declaração de Política dos Três Conselhos. Não poderemos objetar a esta posição que não se trata de uma questão de moral mas de deontologia? Uma análise mais aprofundada mostraria que se trata de facto de uma questão de moral. Ao ler os muitos textos dos últimos anos que sublinharam a distinção entre ética e moral, o leitor rapidamente se convence de que a ética da pesquisa tal como surgiu está mais do lado da moral que da ética.

Ao dizer isto, não pretendo denegrir os esforços feitos nos últimos anos no campo da ética da investigação, mas sim identificar o estado da situação em matéria de ética. É um convite ao reconhecimento das coisas pelo que são. Não nos iludamos: estabelecemos um código moral que, embora tendo em conta as sensibilidades contemporâneas sobre o respeito pelos direitos dos indivíduos, permite aos investigadores prosseguir os seus projetos. Para sermos éticos, precisamos de ir muito mais longe no nosso pensamento e nos nossos métodos.

Como é que isto poderia ser feito? Um primeiro compromisso seria o de expandir a formação oferecida àqueles que se especializam em ética da investigação. Não só precisam de se tornar competentes na regulamentação, o que lhes permite desempenhar o papel que se espera deles nas CEI, como também precisam de ser capazes de compreender a filosofia atual por detrás das CEI e as limitações desta abordagem. Uma segunda abordagem seria encorajar a reflexão comum entre os investigadores sobre o significado da ética da investigação. Devido às exigências do quadro normativo imposto, existe o perigo de que os especialistas em ética fiquem presos a ele. Só poderão desempenhar o seu papel de pensadores se forem capazes de se distanciar da sua prática, a fim de abordar toda a gama de questões humanas e sociais levantadas pela investigação. Mas como podem fazer isto sem o fazer refletir em alguma forma de trabalho conjunto? Um terceiro elemento seria o reconhecimento da dificuldade de fazer este tipo de reflexão. Com efeito, embarcar neste caminho é abrir a possibilidade de questionar verdades que são tidas como certas. Como é que, num tal contexto, pode o especialista em ética envolver-se num trabalho crítico quando o financiamento de que necessitaria provém de fontes que provavelmente não estão dispostas a ser questionadas? Isto levanta uma questão fundamental: o que se espera do especialista em ética? Que papel queremos que desempenhe na grande empresa em que a ética da investigação se tornou?

[1] Énoncé de politique des trois conseils. Éthique de la recherche avec des êtres humains, Ottawa, 1998;
  Ministère de la Santé et des Services sociaux, Plan d’action ministériel en éthique de la recherche et en intégrité scientifique, Québec, 1998.
[2] The National Commission for the Protection of Human Subjects on Biomedical and Behavioral Subjects, “Le Rapport Belmont. Principes d’éthique et lignes directrices pour la recherche faisant appel à des sujets humains”, Médecine et expérimentation, Sainte-Foy, Presses de l’université Laval, “Les cahiers de bioéthique”, 1982, p. 233-250.
[3] H. Beecher, “Ethics and Clinical Research”, The New England Journal of Medicine, vol. 274, 1966, p. 1354-1360.
[4] H. Doucet, Au pays de la bioéthique, Genève, Labor et Fides, 1996, p. 27-29.
[5] D. J. Rothman, Strangers at the Bedside, New York, Basic Books, 1991, p. 187.
[6] D. J. Rothman, “Human Experimentation and the Origins of Bioethics in the United States”, dans G. Weisz (dir.), Social Sciences Perspectives on Medical Ethics, Dordrecht, Kluwer, 1990, p. 190.
[7] V. R. Potter, “Bioethics for Whom?”, Annals of the New York Academy of Sciences, vol. 196, 1972, p. 201.
[8] W. T. Reich, “The Word ‘Bioethics’”, Kennedy Institute of Ethics Journal, vol. 4, 1994, p. 323;
  W. T. Reich, “The ‘Wider View’: André Hellegers’s Passionate, Integrating Intellect and the Creation of Bioethics”, Kennedy Institute of Ethics Journal, vol. 9, 1999, p. 25-51.
[9] C. P. Snow, The Two Cultures and a Second Look: An Expanded Version of The Two Cultures and the Scientific Revolution, Londres, Cambridge University Press, 1969.
[10] Énoncé de politique des trois conseilsop. cit., p. i.9.
[11] J. B. Moreno, “IRBs [institutional review boards] Under the Microscope”, Kennedy Institute of Ethics Journal, vol. 8, septembre 1998, p. 329-337.
[12] A. Garapon, La justice et le mal, Paris, Odile Jacob, “Opus”, 1997, p. 200.
[13] G. Annas, “Ethics Committees: From Ethical Comfort to Ethical Cover”, The Hastings Center Report, no 21, mai-juin 1991, p. 18-21.
[14] F. Isambert, “Révolution biologique ou réveil éthique”, Éthique et biologique, Cahiers STS [science, technologie, société], 1986, p. 23.
[15] B. Brody, “Whatever Happened to Research Ethics”, dans R. A. Carson et C. R. Burns (dir.), Philosophy of Medicine and Bioethics, Dordrecht, Kluwer, 1997, p. 275.
[16] H. Y. Vanderpool, “What’s Happening in Research Ethics? Commentary on Brody”, dans ibid., p. 288.
[17] J.-P. Papart, P. Chastonay et D. Froidevaux, “Biotechnologies à l’usage des riches”, Le Monde diplomatique, mars 1999, p. 29.