01 fevereiro 2012

Não é bem isso qu’ela queria dizer: transcrição de uma dramatização pedagógica

Tradução de She Didn't Mean It: A Role-Play Transcript, páginas 253 a 272 do livro

Mediação bioética - Um guia para soluções partilhadas e modeladas” 

de Nancy Neveloff Dubler e Carol B. Liebman.
Vanderbilt University Press. Nashville. 2011

Personagens [NT: A opção por nomes portugueses, fictícios como no original, procura significar que, se nunca aconteceu, uma conversação similar pode acontecer entre nós]: 

Ana Silva, filha da doente
Beatriz Silva, filha da doente
Carla Cardoso, provedora da doente
Domingos Domingues, médico assistente
Eugénia Esteves, mediadora bioética

Contexto

A D. Florentina Silva, senhora com 87 anos, está muito doente com múltiplos problemas. Está internada na Unidade de Cuidados Intensivos. Está ligada a um ventilador e as suas tensões estão em queda, mesmo quando lhe são administradas vasopressinas, e está em insuficiência renal. Por uma vez, esteve em situação tal que a equipa admitiu a possibilidade de ter de tentar uma ressuscitação mas a doente estabilizou. A situação da D. Florentina continua muito instável.

A D. Florentina Silva fez um testamento vital há 10 anos, que mais tarde confirmou, declarando que, se ficasse em estado crítico e sem probabilidades de recuperar, não quereria fazer hemodiálise, ser ligada a um ventilador, ser hidratada ou alimentada e que queria que lhe afixassem uma Decisão de Não Reanimar (DNR). Também declarou que não queria ser um peso para a sua família. Nomeou o seu marido como Procurador de Cuidados de Saúde, o qual entretanto ficou gravemente demenciado, sendo que ela era o seu cuidador primário em casa. Os Silvas têm duas filhas adultas. Ana, que vive com eles, e Beatriz, uma profissional de sucesso com família constituída.

Há poucos dias o nefrologista levantou a questão da hemodiálise e Ana assinou um consentimento. Ana também se opôs à DNR. Beatriz zangou-se por o nefrologista ter estado a falar com ela mas ter pedido o consentimento à Ana para a diálise. Ela pensa que a sua mãe deve ser retirada do ventilador, que sempre recusou, não deve fazer diálise e deve ser afixada a DNR, conforme as suas firmes vontades declaradas.

Relato anotado

Mediadora: Boa tarde! Muito obrigado por arranjarem tempo para nos reunirmos hoje, pois sei que todos têm os dias muito ocupados e deve ter sido difícil para vós, o que agradeço. O meu nome é Eugénia Esteves. Pediram-me que vos ajudasse neste caso. Sou o que se chama uma mediadora. Sou frequentes vezes chamada a ajudar em casos em que há muitas decisões difíceis a tomar. Procuro que todos os envolvidos se pronunciem sobre as questões e que cheguem a conclusões.

A mediadora começou com fortes agradecimentos aos participantes. (Nunca deixe passar uma oportunidade para ser forte). A explicação da mediadora sobre o seu papel é um pouco fraca. Não explicou que trabalha para o hospital e que, neste caso, ela é neutral e não toma decisões mas apenas ajuda os participantes a tomá-las. É também útil que, nas palavras de abertura, se acentue o objetivo de alcançar boas decisões para a doente. Aqui a mediadora deveria ter dito: “Permitam-me que me apresente. O meu nome é Eugénia Esteves e sou diretora do serviço de consulta de ética clínica neste hospital. Sou funcionária do hospital e devo trabalhar para ajudar quando há diferenças de opinião sobre o plano de cuidados de um doente ou quando é preciso tomar decisões difíceis. Tento ajudar todos os envolvidos a entenderem-se e a aceitarem as decisões que sejam tomadas. Também tento que o doente seja parte da discussão, mesmo que não possa realmente estar presente, levantando questões sobre as suas vontades e valores, e faço-o porque o que queremos fazer por uma doente incapaz de participar a discussão é chegar ao que ela nos dos diria se o pudesse fazer, portanto tento ajudar a encontrar uma solução, um consenso, aceite por todos como pela mediadora. Conheço bem a maioria do pessoal no hospital mas nunca estive envolvido neste caso antes.

Podemos começar por nos apresentar? [Omitem-se as apresentações do Dr. Domingues, de Ana e Beatriz Silva e da advogada do doente.]

Mediadora: [dirigindo-se a Ana e Beatriz] Qual é o vosso parentesco com a doente?

Ana Silva: É minha mãe. É a minha mãe e eu tenho estado a cuidar dela há muito tempo.

Beatriz Silva: É minha mãe.

Mediadora: OK, obrigado. Então, sei pouco sobre a situação médica da D. Florentina. Assim, podemos começar com o Dr. Domingues. Não se importa de nos dizer, do seu ponto de vista, como estamos?

Os mediadores têm duas escolhas sobre o modo de começar um debate construtivo: uma, como a que a mediadora fez, é pedir a um médico para explicar os factos médicos, outra, é pedir à família para informar o mediador sobre a doente e as suas preocupações, ou seja, apresentar a doente ao grupo. Muitas vezes recomendamos que se comece por pedir aos membros da família para apresentarem a doente: “Ana e Beatriz, posso tratá-las pelo primeiro nome? Peço, para começar, que me falem sobre a vossa mãe. Eu vi-a nos Cuidados Intensivos e estive a ver o processo clínico – fiquei com a impressão de que, nesta altura, está muito mal. Contudo, não consigo saber quem era ela, como vivia, o que lhe interessava. Falem-me da vossa mãe”.

Uma das razões para iniciar com uma pergunta à família sobre o doente é situar num nível elevado o estatuto da família no debate. Os médicos são peritos em medicina, diagnóstico, prognóstico e possibilidades e probabilidades médicas, mas os membros da família são peritos na Mamã. Começar pela família dá-lhe um lugar na mesa que é significativo. Teria sido útil que, antes de dar primazia ao Dr. Domingues, a mediadora começasse com a família e depois recorresse a ele para explicar os factos médicos.

A mediadora não deve pedir à família que exponha o que pensa dos factos médicos antes de ouvir o médico. Se o fizer corre vários riscos, nomeadamente amarrar os familiares a visões inadequadas e promover reações defensivas quando a equipa médica tentar corrigir tais posições. A mediadora disse que “sei pouco sobre a situação médica da D. Florentina.” Mostraria transparência se acrescentasse como obteve essa informação – pela leitura do processo clínico ou por conversar com a equipa médica.

Dr. Domingues: Certamente. Temos uma senhora, a vossa mãe, que tem múltiplos problemas médicos, sendo os mais importantes a insuficiência cardíaca congestiva e a diabetes. Tem sido minha doente há vários anos. Ultimamente, com o declínio da sua saúde, foi internada em Cuidados Intensivos e ligada a um ventilador, as tensões arteriais baixaram e está sob medicação para tentar impedir que continuem a baixar. Parece estar estabilizada mas o problema mais recente foi o dos rins que começaram a funcionar mal, o que nos leva à importante questão do que fazer agora para a tratar. Temos assim a questão de saber se a diálise era o próximo passo e espero que possamos realmente distinguir o que é ou não é compatível com as vontades da D. Florentina.

Mediadora: OK.

O médico deu-nos uma valiosa apreciação dos factos sem cair em termos do jargão médico e evitou defender o tipo de tratamentos que recomenda. Mesmo assim, a mediadora precisa de resumir o que foi dito, por duas ordens de razões. Primeiro, resumir dá tempo aos familiares para captarem e começarem a aceitar as más notícias sobre a doença da mãe, sobretudo no caso de a mediadora se aperceber que uma das filhas tem dificuldade em aceitar que a sua mãe está a morrer. Resumir também permite que a mediadora reformule em linguagem de leigos alguns termos ou conceitos mais difíceis de compreender. Assim, ainda que possamos assumir que a maioria das pessoas que passou muito tempo no hospital saiba o que é um ventilador, a mediadora podia explicar: “E ela está ligada a um ventilador, ou seja, precisa de uma máquina que a ajude a respirar”. A mediadora pode prosseguir o seu resumo com perguntas que clarifiquem a condição médica, em especial aquelas que pense que a família receie fazer.

Beatriz Silva: A minha mãe tem uma diretiva antecipada de vontades muito clara e ela não queria qualquer espécie de medidas extremas. Ela disse especificamente que não desejava fazer diálise e outros tratamentos agressivos. Nunca quis ser um peso. Ela tomou conta do nosso pai doente durante anos. Foi sempre muito clara. Nem percebo por que estamos a ter esta discussão.

Ana Silva: Não penso que o que ela queria dizer seja o que está nesse papel. Não é dela, não faz qualquer sentido, ela não era assim, isto não está certo.

Mediadora: Sabemos quando foi que a vossa mãe fez essa diretiva antecipada?

Estamos a ver, pelo curso da mediação, os problemas criados quando um mediador avança demasiado depressa para uma discussão médica. Ela precisava, em primeiro lugar, de pedir às filhas que lhe falassem sobre a mãe. Como era ela? O que gostava de fazer? O papel do mediador é conduzir o debate como se a doente e os seus valores estivessem à mesa. Levar as filhas a falar sobre a mãe em situações neutrais – ir à igreja, tomar conta do pai, almoços de família – dá ocasião a desenhar o perfil da pessoa sem estar se constrangido pelas decisões que têm de ser tomadas. A mediadora deve desacelerar a discussão e desviar o foco com uma afirmação como: “Certamente falaremos sobre as vontades da vossa Mamã sobre os cuidados médicos; é por isso que estamos aqui, mas gostaria de conhecê-la um pouco melhor como pessoa antes de nos focarmos nela como doente”.

Além disso, a mediadora faz uma pergunta factual em vez de seguir os que Ana e Beatriz disseram. Fazer isso afasta a discussão das suas preocupações. A mediadora precisa, para começar, de resumir o que ouviu de Ana e Beatriz e depois clarificar o que Ana quis diz com «ela não era assim». Uma resposta possível da parte da mediadora seria: “Ana e Beatriz, agradeço por me permitirem perceber os vossos pontos de vista sobre o que a vossa mãe desejaria numa situação como esta. Entendi que ambas querem respeitar as vontades da vossa mãe, embora tenham diferentes entendimentos sobre como o fazer. A Beatriz sente que ela foi clara sobre não querer tratamentos e a Ana não está tão segura disso. Ana, pode dizer-nos algo mais sobre o que significa esse «ela não era assim»?

Beatriz Silva: A mãe fez o testamento vital logo que começou a sentir-se doente. Na verdade, atualizou o testamento vital uma série de vezes desde então, manteve-o atualizado e fez várias alterações.

Mediadora: Há quanto tempo foi a última alteração?

Beatriz Silva: Há cerca de quatro meses.

Mediadora: Muito bem.

Ana Silva: Penso que ela estava apenas pressionada e confusa, não era isso o que queria dizer, percebe? Tomava conta do Papá, era uma pessoa enérgica, nunca admitiria desistir, nunca queria desistir, não era isso que havia de querer.

Aqui a mediadora podia fazer uma pergunta clarificadora para perceber as preocupações subjacentes à posição de Ana, dizendo: “É interessante, Ana. Fale-me mais sobre a sua mãe e o seu caráter. Diz-nos que ela nunca queria desistir. Diga-me por que acha que era assim. Asseguro, a todos vós, que havemos de chegar às decisões médicas – é por isso que aqui estamos – mas preciso de conhecer mais a doente antes de continuarmos.”

Beatriz Silva: De que estás a falar? De qu’estás afinal a falar? Ela escreveu direitinho na sua diretiva antecipada o que queria. Como podemos não respeitar as suas vontades? Ela teve o cuidado de afirmar essas vontades.

Mediadora: OK.

A mediadora deveria aperceber-se da óbvia frustração de Beatriz, dizendo: “Percebo o que diz, Beatriz, e sei que é difícil para si mas mantenha-se firme connosco e verá que chegaremos ao que é importante”.

Dr. Domingues: Efetivamente posso atestar que ela falou sobre situações específicas relativas aos cuidados que queria ter quando falámos sobre o que era a hemodiálise e o que significava. Do mesmo modo, conversámos sobre ventiladores e o que faziam. Em termos do seu entendimento sobre o que estava a assinar, estou à vontade para dizer que ela sabia o que queria e percebia o que estava a assinar nesse tempo.

Eis uma mudança importante, a qual a mediadora necessita de resumir para ter a certeza de que tanto ela como os outros participantes compreenderam o que o Dr. Domingues está a dizer. “Dr. Domingues, deixe-me ver se percebi. Apresentou a possibilidade de uma diálise e do uso de ventilador à D. Florentina e ela foi categórica em dizer que não queria qualquer um desses tratamentos?”

Ana Silva: Ela não queria morrer, essa não era a sua intenção. Só queria ficar boa para tratar do Papá e estar disponível para nós.

Beatriz Silva: Isso é porque tu não querias tomar conta do Papá, onde tens estado? É com isso que te preocupas?

Mediadora: OK, vamos acalmar, vamos acalmar e tentar organizarmo-nos. Quero ter a certeza de estar a compreender o que cada um diz. No caso aqui do Dr. Domingues, julgo perceber que nos está a dizer que a D. Florentina está muito doente, que está a precisar de um conjunto de cuidados médicos imediatos, está entubada e ventilada, as tensões estão muito fraquinhas e precisa de medicações para as fazer subir, e estas coisas estão mais ou menos estáveis nesta altura, contudo os seus rins estão a falhar e é preciso decidir o que fazer agora.

Ana Silva: O médico dos rins disse que a diálise podia ajudar. Por isso temos de fazer o que possa ajudá-la. Foi o que ele disse e disse-o de forma clara,

Dr. Domingues: Gostaria de explicar essa afirmação quando achar que seja oportuno.

Mediadora: OK, muito obrigado. Já iremos ao que ponto do que a diálise pode fazer de bem ou de menos bem. Estou apenas a tentar equacionar o que foi dito agora, mas certamente discutiremos esse ponto. OK? Para mim, a Beatriz acredita que a sua mãe preencheu um testamento vital que, de certo modo, lhe diz o que ela queria fazer e o que não queria, e deseja poder ver as suas vontades respeitadas. Pensa que seguir as vontades expressas no testamento vital é o melhor para ela.

Beatriz Silva: Sim, é isso.

Mediadora: E a Ana, segundo entendi, está preocupada com as vontades da sua mãe e quer para ela o melhor. Pensa que o melhor para ela é proporcionar-lhe cuidados médicos pesados para tentar que melhore, porque, nas suas palavras, «ela é uma lutadora».

Ana Silva: Sim.

A mediadora reconhece que precisa de intervir, apercebe-se do que Ana, Beatriz e o Dr. Domingues disseram, baixou a tensão e recordou a Ana e a Beatriz o interesse comum referente às vontades da mãe e à procura do seu melhor interesse. Agora, quando o doente está a morrer – embora isso ainda não tenha sido dito especificamente – o seu melhor interesse é evitar que sofra durante o processo de morte. A mediadora usa o resumo da situação médica da D. Florentina para dar a cada um algum tempo para respirar.

A mediadora reconhece também parte do que Beatriz e Ana disseram mas ignora alguns pontos importantes. O comentário de Ana – «ela não queria morrer… queria ficar boa para tratar do Papá e disponível para nós» – também precisa de ser reconhecido. Podia ter dito: “E isto é difícil, Ana, porque para si se seguirmos as vontades como ela os expressou é como que dizer que ela escolheu a morte em vez de ficar a olhar pela vossa família. Ana e Beatriz, ambas se referiram ao vosso pai e à necessidade de pensar em como se cuidará dele no futuro. Como eu vos disse, precisamos de responder às perguntas de Ana sobre a razão por que os médicos têm diferentes opiniões no que toca a saber se a diálise será útil”. Este resumo reconhece tanto o que foi dito como dá início à definição de uma agenda para o resto do debate: que tipo de cuidados precisa o marido e qual a adequação da diálise.

Provedora do doente: Desculpem-me, por favor, mas gostaria de entrar no debate. Só queria dizer o que me parece importante agora. Na verdade, não se trata do que elas querem – é o que a doente quer. Se ela decidiu o que queria em termos de cuidados a receber no final da sua vida, temos de a respeitar pois as suas intenções eram claras no que assinou. Penso que temos a obrigação moral de respeitar e seguir o que subscreveu.

Mediadora: OK. Pois, estamos aqui para cumprir as vontades da D. Florentina, embora talvez não haja necessariamente um acordo sobre quais seriam exatamente essas vontades. Podemos explorar esse ponto específico. Mas antes de o fazermos, não sinto que conheça deveras a D. Florentina. Beatriz ou Ana, será que uma de vós poderia, em poucos momentos, dizer-me mais alguma coisa sobre a vossa mãe, que tipo de pessoa era?

A mediadora afasta a afirmação depreciativa e pouco útil da provedora da doente reconhecendo a ambas os objetivos de respeitar as vontades da D. Florentina e as diferentes perspetivas sobre quais são as suas vontades.

Embora a apresentação de um doente pelos familiares não lhe permita participar, é muitas vezes melhor que seja feita no início da mediação, este é um bom exemplo em como a mediação é um processo benévolo no qual uma apresentação tardia continua a ser útil.

Ana: Bem, a Mamã gostava de ser o centro das atenções. Gostava de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Tomava conta do Papá, ajudava toda a gente; era muito dramática – penso que ela nunca queria desistir. Se quisesse desistir, ela mesma poria fim à sua vida, cometeria suicídio, nunca iria recorrer a esses papéis legais extravagantes para decidir o que fazer. Ela queria estar aqui para o Papá. Queria ter a certeza de estaria pronta para cuidar dele e de que ele poderia chamá-la e vê-la. Nunca queria que alguém perdesse a esperança nela.

Mediadora: Ana, alguma vez falou com a sua mãe sobre decisões médicas?

Ana: Eu vivia com os meus pais.

Mediadora: Mas alguma vez falou com ela sobre decisões médicas? O que queria ela?

Ana: Falávamos todos os dias. Ela queria tomar conta das coisas e estava sempre pronta para qualquer um.

A mediadora fez uma pergunta teste da realidade: Ana debateu decisões médicas com a mãe? Ana evita a questão e a mediadora está atenta. Não é raro que um participante tente esquivar-se a perguntas difíceis e foi o que fez Ana, em vez de reconhecer que a sua leitura da situação pode ser inconsistente. Mas, como vemos, é provável que a pergunta teste da realidade ajude a pessoa a quem é dirigida a reconsiderar a sua posição.

Beatriz: Ela protegia-te. Não falava contigo sobre as suas inquietações. Tu vives num mundo quase imaginário. Não fazes ideia do que passa à tua volta.

Ana: Mas tu não vives com eles por isso penso que és tu quem não faz ideia.

Mediadora: OK. As pessoas têm relacionamentos diferentes dentro de uma família e podemos aprender certas coisas vivendo com as pessoas, assim como falando com as pessoas, por isso penso que há coisas em comum e que podemos continuar a falar, respeitando-nos mutuamente e tentando compreender melhor a D. Florentina já que, no fundo, é para isso que estamos aqui, ou seja, cumprir as vontades da D. Florentina. Parece-me que podemos ser cordiais e prosseguir ouvindo a Ana. Estava a dizer que a sua mãe era uma mulher muito enérgica, que gostava de ser o centro das atenções e que tinha feito muito pela família, como tomar conta do vosso pai, não era?

Foi apropriado que a mediadora interviesse interrompendo a desnecessária troca de palavras em escalada entre as irmãs, mas o tom foi um pouco de reprimenda. Seria mais útil que reconhecesse os seus sentimentos assim como as diferentes perspetivas sobre o que a mãe pensava sobre a sua doença e possível morte. Do mesmo modo, a mediadora precisa ter cuidado com o uso da palavra «nós». Parece correto dizer “podemos aprender certas coisas vivendo com as pessoas, assim como falando com as pessoas” mas já não tanto dizer “há coisas em comum e que podemos continuar a falar”.

Alguns mediadores podiam ainda ser mais diretos sobre a zanga e dizer: “Bem, vejo que estão ambas um bocado zangadas e seguras das suas versões sobre o que a D. Florentina havia de querer. Não me surpreende que as emoções se sobreponham, corremos esse risco, mas eu procurarei que cada uma diga o que tem a dizer de modo que possamos explorar todas as opções”.

Ana: Sim.

Mediadora: E isso é bastante importante nesta altura?

Ana: Sim.

Mediadora: Posso perguntar o que aconteceria ao seu pai se a mãe não tivesse condições de voltar a casa?

A mediadora foca-se nos receios de Ana sobre o modo como os cuidados do pai podem estar no centro da disputa e começa a fazer perguntas sobre isso.

Ana: Bem, creio que mesmo que ela tenha de ir para um lar, ou para outro lugar qualquer, isso seria aceitável porque ainda assim ela estaria presente para o Papá. Ele podia visitá-la e ambos podiam estar juntos.

Mediadora: Portanto é sobretudo a sua presença que a preocupa, não necessariamente que ela…

Ana: Ela queria ainda ficar connosco.

Mediadora: OK. Beatriz, não entendi bem como vê a sua mãe, quer dizer-nos?

Embora a mediadora tenha começado a focar-se no pai, apercebeu-se que a Beatriz precise de ter a sua oportunidade falar sobre a mãe.

Beatriz: Eu adoro a Mamã, quero o melhor para ela, e sinto como que entrasse no seu íntimo e o meu papel fosse garantir que as suas vontades sejam respeitadas. Não quero que ela morra, adoro-a, mas ela foi muito explícita, afirmou com clareza no seu testamento vital que não queria essas medidas extraordinárias. Parece que o médico falou com ela e ela sabia o que estava a assinar e o seu significado – como podemos não a respeitar?

Mediadora: Falou com a sua mãe sobre o testamento vital?

Beatriz: Sim. Estava bem par do que ela sentia. Não sei se concordo com ela ou não, mas isso não interessa, porque era o que ela desejava.

Beatriz acaba de dizer algo importante, distinguindo entre os seus próprios sentimentos e desejos e os da sua mãe e isso pode ajudar Ana a ouvi-la. Uma vez que as partes em disputa tendem a não se ouvir uma à outra, a mediadora precisava de melhorar a disposição de Ana para ouvir Beatriz, resumindo o que esta disse antes de avançar com mais perguntas.

Mediadora: OK. Sabem se ela teve alguma experiência pessoal relativa a estas decisões, alguma pessoa de família que a tenha motivado para estas escolhas?

Boa tentativa da mediadora para os fundamentos das escolhas da D. Florentina.

Dr. Domingues: Desconheço.

Beatriz: Penso que, quando o Papá começou a ficar doente – está demente e necessitado de muitos cuidados em casa – ela sentiu que queria manter a sua dignidade e não queria ser um peso para as pessoas,

Dr.ª Carla Cardoso: Julgo que, se virmos bem o que acontecia, ela não ia quer que lhe aconteça a si –

Ana: Ela queria estar presente para o Papá.

Dr.ª Carla Cardoso: Estamos a fazer com que aconteça isso agora. Ela não queria estar ligada a um ventilador mas está. Não queria ser um peso. Temos de decidir por ela, não contra ela. Não devíamos ignorar o seu testamento por os seus filhos estarem a vacilar sobre o ponto principal. O nosso trabalho é no seu interesse ou no nosso interesse?

Mediadora: Portanto, Dr.ª Carla Cardoso, julgo que levantou um ponto importante – segundo percebi o testamento vital da D. Florentina diz “não quero ser um peso para a minha família”.

A mediadora reconhece o ponto da provedora da doente mas necessita de fazer mais para a trazer para o campo das soluções em vez de incendiar a discussão, dizendo qualquer coisa como: “Vejo que está a fazer o seu papel de defensora da D. Florentina para que as suas vontades sejam respeitadas. Penso que é o que todos queremos mas queria ouvir da Ana se esse documento não contém todos os objetivos da D. Florentina. Vale a pena dedicarmos algum tempo a falar como podem ser apreciados.

Mediadora: [para Beatriz] Referiu que também ela não queria ser um peso para a família. Pode explicar-me qual o seu entendimento sobre o que ela queria dizer com “peso”?

Beatriz: Não queria ser ligada a máquinas, não queria perder o controlo sobre o que estaria a acontecer ao seu corpo, não queria ser um escoadouro financeiro. Queria ser independente e agora não pode ser independente.

Mediadora: O que acha, Ana? O que pensa que a sua mãe queria dizer com “peso”?

Ana: Bem, ela, não creio que fosse um peso. O que queria era estar presente para o meu pai e ele precisa dela. Ela queria ser o centro das atenções, amava as pessoas que a rodeavam e é a isso que ela tem direito agora. Portanto não vejo como isso possa ser um peso. Não faz sentido para mim e o nefrologista disse que esse tratamento a podia ajudar, portanto só temos de ajudar.

Mediadora: Compreendo que ache que a intervenção que foi proposta não seja um peso, mas posso perguntar- lhe o que seria então um peso, o que quereria ela significar com essa palavra?

Ana: Se morresse. Porque nesse caso não estaria presente para ninguém – que era o que entendia ser o seu papel. Então isso seria um peso para ela.

Esta resposta é tão estranha que tem de obrigar a mediadora perguntar-se o que mais acontecerá e a considerar se Ana tem dificuldades emocionais que impeçam qualquer solução. Mas tal resposta fora do normal pode também ser uma indicação de que Ana apreendeu a mensagem de que as orientações da sua mãe precisarão de ser seguidas embora ainda não esteja na altura de o reconhecer. A mediadora precisa pensar sobre como fazer com que Ana se sinta compreendida e aprovada.

Dr.ª Carla Cardoso: Ena! Isto é incrível, como podia ela –

Ana: Você não a conhece –

Dr.ª Carla Cardoso: Como pode ser um peso para si mesma quando estiver em repouso?

Eis um exemplo do princípio da mediação, segundo o qual, quando se quer esmagar um participante, se deve, em vez disso, tentar atacar com: “Provedora, sei que tem a função de defender a D. Florentina e que o está a fazer fortemente. Mas, sabe, uma das razões para termos esta reunião é que é nossa experiência que o que estamos a tratar é mais do que um pedaço de papel. Sabemos que, quando enfrentamos a decisão de continuar ou não um tratamento, é melhor para o doente se quem o ama e quem está envolvido nos seus cuidados se mostra de acordo com as opções a seguir. Por isso, muito obrigada por estar connosco, agradeço que seja uma boa provedora”. É uma boa maneira de ensinar a provedora da doente a ficar no seu lugar.

Ana: Ela não sabe do que está a falar.

Mediadora: Portanto, Ana, estava a dizer que enquanto a sua mãe for viva ela não é um peso para si? Parece que, para si, ser um peso deve ser diferente do que a sua mãe receava que fosse?

Ana: Talvez.

Mediadora: Portanto, Ana, a doença da sua mãe e o internamento deve ser bastante difícil para o seu pai? Como correm as coisas?

Ana: Sabe, o Papá depende dela e precisa realmente de a ver. E o médico, o médico dos rins, disse que, se fizéssemos essas coisas, isso ajudaria. E os outros médicos têm estado a fazer todo este esforço para a ajudar e portanto, sabe, estou muito preocupada com ela se não se fizer nada para a ajudar, por isso é o que devemos fazer.

Dr. Domingues: Posso clarificar o que a hemodiálise faria?

Mediadora: Com certeza.

Dr. Domingues: A hemodiálise seria um meio de pôr os rins da sua mãe a funcionar por pouco tempo mais…

Ana: Isso é bom.

Dr. Domingues: Bem, de facto é, mas não muda verdadeiramente todos os outros problemas que a afetam. Portanto, em termos de prognóstico, não é uma verdadeira alteração – pode prolongar a sua vida, mas não a tornará verdadeiramente melhor. Portanto não a tornará a pôr mais perto de tomar conta do seu pai e ficar perto dele. Parece-me que é isso – não quero dar-lhe falsas esperanças ou dizer que com a diálise vai poder tê-la de volta e viver a vida como fazia antes.

Ana: Mas ajudaria?

Mediadora: Portanto deixe-me ver se compreendi o que disse, Dr. Domingues. A diálise resolveria o problema dos rins temporariamente, durante um período –

Dr. Domingues: Não resolve mesmo o problema.

Mediadora: Ajudará no problema dos rins durante um período de tempo, mas apenas o que o problema dos rins está a causar. OK. Então pode dizer-me mais sobre o que causa o problema dos rins e o que significam para a D. Florentina, em termos de prognóstico, os próximos dias – ou o que espera que possa acontecer?

Dr. Domingues: De uma maneira geral, todos os órgãos da D. Florentina estão a começar a falhar. O seu coração não é mais capaz de bombear a tensão sanguínea por si só para levar o sangue a todo o lado. E são estas alterações tão dramáticas nas tensões que afetam o modo como os rins funcionam. Temos um círculo vicioso já que todos os diferentes órgãos não estão a funcionar bem – os rins continuam a dar diferentes alertas e, porque não funcionam bem, isso afeta todos os órgãos, levando a uma espiral de decadência onde a diálise nos permitia manter-lhe o equilíbrio de eletrólitos e algumas coisas normais para que pudesse ainda produzir alguma urina. Pode ainda eliminar algumas toxinas mas não faz realmente nada que ajude os outros órgãos que estão a falhar, por exemplo os seus pulmões e, como está liga ao ventilador, portanto…

Mediadora: Afinal o que está a fazer sofrer tanto a D. Florentina? Não há tratamento para ela, que corrija esse problema?

Dr. Domingues: Lamento muito dizê-lo, nesta altura, mas não há maneira de reverter o estado em que ela se encontra.

Mediadora: Portanto seria correto pensar que vê, na sua opinião profissional, o prognóstico da D. Florentina do igual modo, com ou sem diálise?

Dr. Domingues: Diria que com a hemodiálise ela pode viver mais tempo mas não recupera qualquer funcionalidade. Sem diálise o período do seu declínio e de desconforto será mais curto,

Mediadora: Portanto, OK. Compreendo que ela está muito doente e a sua insuficiência renal é mais uma espécie de sintoma da sua doença, que se pode aliviar um pouco o sintoma mas, no final, não se resolve a causa da falência renal.

A discussão sobre o prognóstico, que era necessária nesta altura da mediação, pode ter sido ainda mais útil do que se tivesse acontecido mais cedo. Todos têm estado a girar à volta do facto de a D. Florentina estar a morrer. O médico evitou repetidamente usar a palavra «morte». Quando o Dr. Domingues se referiu ao facto de o coração não ser capaz de bombear o sangue para os outros órgãos no início da sua fala, a mediadora precisava dizer: “nesse caso, Dr. Domingues, se bem percebi, o senhor pensa que a D. Florentina está a morrer e que não há nada que possa fazer para a melhorar”. Este é um dos momentos em que é crítico concentrarmo-nos no que implica a linguagem simples. Quando o médico, ou outros membros da equipa, e a família não conseguem introduzir a palavra «morte» na conversa, cabe ao mediador fazê-lo e tornar evidente para a discussão que o doente está a morrer.

Dr. Domingues: OK, é isso mesmo.

Ana: Mas nós não desistimos.

Dr. Domingues: Não desistimos. Estamos a fazer o que podemos mas penso que –

Ana: Penso que não devemos desistir.

Mediadora: O que quer dizer, para si, “desistir”?

Ana: Eu sei, a minha irmã pode querer desistir, mas eu não quero.

Mediadora: Estamos somente a falar do que sabemos e do que sentimos, contudo eu queria saber o que é desistir, o que significa “desistir”, na sua opinião?

É importante que a mediadora tente de novo obter de Ana uma clarificação da expressão “desistir”, mas isso podia ter acontecido quando da primeira vez que Ana enfrentou repetidamente Beatriz, realçando os seus interesses comuns: “Ana, eu percebi que quer fazer tudo o que for possível pela sua mãe. O que ouvi de si, Beatriz, foi que isto também é para si arrasador, mas que quer ser fiel ao que prometeu a sua mãe. Ambas tentam, à sua maneira, estar do lado vossa mãe”.

Ana: Qualquer coisa que possa mantê-la connosco – acho que não devemos desistir.

A mediadora podia também perguntar de novo o que Ana queria significar com “desistir”: “Ana, falou em desistir. Desistir de quê? O que quer dizer com ‘desistir’? Diga-me o que quer dizer de modo que possamos compreender o seu ponto de vista”.

Mediadora: Assim, seria correto dizer que, se uma intervenção na sua mãe representar uns minutos mais de tempo junto de vós ou uma poucas horas mais ou uns poucos dias mais, isso não faria diferença. É isso?

Ana: Sim.

Uma razão para que esta discussão se esteja a arrastar sem muitos progressos reside na incapacidade da mediadora, até agora, em reconhecer os sentimentos e medos de Ana. Quando ela o fizer, no seu próximo comentário, as partes entrarão no caminho de uma solução.

Mediadora: Ana e Beatriz, isto tem sido muito difícil para vós, com ambos os vossos pais tão doentes. Ana, deve ser especialmente difícil e triste para si por viver com eles. Entendo bem como está inquieta com o que acontecerá com o seu pai agora que a sua mãe não pode mais tomar conta dele. Deve ser mesmo difícil para si agora que a mãe não pode cuidar dele nem interagir com ele?

Ana: Sim. Estamos muito inquietas com o Papá e com o que vai acontecer com ele agora que a Mamã não pode estar com ele. Mesmo que ela estivesse num lar, o Papá poderia ir vê-la, ainda seria capaz de estar com ela e a Mamã com ele,

Mediadora: Portanto, o seu pai tem ido visitá-la ao hospital?

A mediadora percebe que Ana persiste na ideia de que, enquanto a sua mãe for viva, ainda que inconsciente, poderá evitar enfrentar a dolorosa realidade da sua vida sem ela. Para ajudar Ana a pensar no que precisa de acontecer, para que a sua vida se torne suportável, a mediadora faz um conjunto de perguntas teste da realidade.

Ana: Não, não, ele não tem sido capaz de vir ao hospital.

Mediadora: Percebo que está a dizer que pensa que seria útil que ele a visitasse, mas questiono-me sobre como reagiria ele. Disse que ele tem estado algo confuso. Como vai ele reagir se ela estiver fisicamente presente mas não interagir com ele?

Ana: Pois, mas é por isso que penso que – porque os médicos dizem que essas coisas a podem ajudar – penso que devíamos tentar.

Note-se que Ana pode ter acabado de oferecer uma solução para o conflito. Quer tentar coisas que possam “ajudar”. É possível que não insista em tratamentos que não levem à melhoria da condição da mãe ou que venha a concordar com a interrupção do tratamento ao fim de uma breve tentativa.

Mediadora: Então, a Ana acha que, se ajudasse, gostava que avançasse e que seu objetivo é que a sua mãe continue presente para vós? Qual é a sua ideia de quanto a diálise e outros tratamentos poderiam ajudar a sua mãe? Até onde poderia ir?

Ana: Bem, poderia estar presente para o Papá, para mim e poderia, bem vê, …

Mediadora: Consegue ver a sua mãe acordada e atenta?

Ana: Porque não poderia estar acordada?

Mediadora: O que percebi dos médicos é que eles não preveem que a sua mãe desperte.

Ana: Porque não poderia estar acordada? Eles disseram que fariam essas diferentes coisas e isso ajudá-la-ia. Mesmo que ela não regressasse a casa, poderíamos sempre visitá-la, portanto porque não estaria acordada?

A incapacidade de cada um usar a palavra «morte», falar no facto de a D. Florentina estar a morrer, leva a que Ana continue a evitar usar termos dessa triste realidade. Evitar falar de morte pode ser confortável para quem fala mas não é útil para Ana que está a lutar, aterrorizada e em dor. Não falar no que efetivamente vai acontecer apenas acrescenta terror. Além disso, a mediadora identificou corretamente as expectativas não realistas de Ana sobre a possibilidade de a diálise melhorar a condição de sua mãe, de modo a recuperar a consciência. Podia ser melhor perguntar ao médico sobre o impacto da diálise no nível de consciência da D. Florentina. Perguntar a Ana quais as suas expectativas é correr o risco de perder a face e de que ela se torne mais defensiva se lhe disserem que está errada.

Mediadora: Portanto, o que também entendi dos médicos foi que a doença da vossa mãe está a avançar rapidamente, causa uma série de lesões dispersas pelo seu corpo; o seu cérebro está atingido, os seus rins foram atingidos, e eles não veem como possa melhorar. Talvez possam atuar durante pouco tempo para que fique ao nível do que está atualmente mas não muito melhor. O modo como ela se debate agora, permanecendo no leito, incapaz de interagir convosco, é o melhor que conseguem. Foi o que percebi do que os médicos disseram. Perceberam algo de diferente?

Dr. Domingues: Detesto dizer isto mas não acredito que possa deixar o hospital e não gostaria de a ver sofrer desnecessariamente.

Esta é uma oportunidade real para a mediadora tomar conta da discussão e ajudar Ana a aceitar as consequências do que a doente e a família enfrentam: “Dr. Domingues, deixe-me ver se percebo, atendendo à falha de funcionamento do seu coração e dos seus rins e atendendo aos danos causados no seu cérebro, é possível que a D. Florentina desperte e ter alta do hospital? Entendi que nenhuma dessas hipóteses são possíveis, estou certa?

É também a altura para a mediadora explicar à Ana que continuar os tratamentos impõe uma carga sobre D. Florentina, fazendo perguntas tais como: “Dr. Domingues, ela está a sofrer?” “É possível que o ventilador lhe esteja a causar dores?” “Há alguma maneira de se saber que não está a ter dores?” O tema do sofrimento sem benefícios é um dos que a mediadora deveria realçar junto das filhas.

Dr.ª Carla Cardoso: Neste momento ela está ligada ao ventilador e com poucas probabilidades de poder ter alta de todo. Está gravemente doente, tem múltiplos problemas médicos e já foi reanimada uma vez.

Ana: É como diz. O seu coração parou e eles reanimaram-na, fizeram todas aquelas coisas e ela ainda está connosco. Por isso, não compreendo que …

Mediadora: Ela foi alvo de intervenções no hospital e isso tem levado a uma pausa na sua doença. Foi possível repor o batimento do seu coração que está a trabalhar assim [faz um gesto em que as mãos estão a uns doze centímetros uma da outra] e daqui a nada estará a trabalhar assim [as suas mãos estão a cinco centímetros apenas].

Ana: Portanto, se voltar a parar, podem voltar a pô-lo a bater de novo!

O problema com a dificuldade de cada um falar em que a D. Florentina estar a morrer e de usar palavra «morte» leva a que Ana continue a avançar com ideias não realistas.

Dr. Domingues: Não sei se voltaria a bater.

Ana: Se voltarem a atuar.

Mediadora: Cada vez que se cai um nível não se regressa ao nível anterior e cada vez que se fica mais doente e com mais danos, mais se avança para menos e menos funcionamento.

Bom uso de imagem: ainda melhor seria se a mediadora tivesse iniciado a afirmação sob a forma de pergunta: “Portanto, o doutor está a dizer que …”

Dr.ª Carla Cardoso: Ela terá dores? Estará a sofrer a esse ponto?

Ana: O que significa “menos e menos funcionamento”?

Mediadora: O que quis dizer é que, se dissermos que antes de ser internada, digamos, ela tinha um depósito, como um depósito de gasolina. Digamos que o depósito do seu coração estava cheio quando veio para o hospital, a sua doença esvaziou-o para uns 50%, digamos que perdeu metade, e não há maneira de o encher de novo. No próximo evento, a próxima vez que o coração parar, o depósito volta a esvaziar algo mais e, de novo, não há hipótese de o voltar a atestar. Os médicos estão preocupados, como sabe, se voltar a acontecer e não forem capazes de a manter pois cada vez a reserva estará mais em baixo.

Esta é uma metáfora eficaz para ajudar Ana a compreender que a sua mãe não vai melhorar mesmo que os médicos consigam manter o seu coração a bater.

Ana: Então como podemos ajudá-la, porque eu não quero abandoná-la. Sei que a Beatriz quer desistir, mas eu não quero desistir -

Beatriz: Não estás a ser justa. Sabes que eu amo a Mamã, não é justo.

Mediadora: Acho que ouvi a Beatriz dizer que não a quer abandonar, penso que não quer desistir dela. Julgo que vocês não estão necessariamente em desacordo. Ouvimos que ambas amam a vossa mãe e que querem ajudá-la e creio também ter percebido que, como a vossa mãe era quem tomava conta do vosso pai, o facto de ela não poder continuar a exercer esse papel torna tudo muito difícil para ambas. Há decisões muito difíceis a tomar por vós em conjunto sobre o vosso pai e a forma como cuidar dele. O que pensam ambas sobre – uma vez que a vossa mãe, viva mais um dia ou mais um ano, não vai estar, conforme dizem os médicos, acordada e no fundo capaz de participar como fazia antes – o que pensam sobre o que é preciso fazer pelo vosso pai?

A mediadora muda o foco do debate do que seria o tratamento adicional da D. Florentina para o problema de arranjar serviços para o pai. É um movimento crítico (e algo que poderia ter sido feito mais cedo).

Beatriz: Que vamos fazer, Ana? Que vamos fazer com o Papá?

Ana: Acho que com a Mamã, a Mamã tomava conta dele e a ela está aí e o Papá precisa da Mamã.

Beatriz: Mas não me parece que vá poder tomar conta dele do mesmo modo que fazia, por isso o que faremos com o Papá? Temos de ter a certeza de que o Papá fica bem e que tomamos conta dele como deve ser.

Ana: Eu sei.

Quando a mediadora levantou a questão dos cuidados com o pai como um problema que tinham de partilhar o tom da discussão abrandou e as irmãs, pela primeira vez na mediação, começaram a falar uma com a outra.

Dr. Domingues: A vossa mãe está nos Cuidados Intensivos há coisa de um mês – quem tem tomado conta dele?

Ana: Eu tenho feito o que posso porque o Papá, a Mamã e eu vivemos juntos.

Mediadora: Está a trabalhar, Ana?

Ana: Por vezes, sim.

Mediadora: Portanto, o peso tem recaído todo sobre si neste mês ao mesmo tempo que olha pela sua mãe no hospital – isso deve estar a ser realmente muito difícil.

Este reconhecimento dos esforços de Ana e do peso que tem suportado é importante para se chegar a uma solução.

Ana: É muito difícil.

Mediadora: Como estar a conseguir lidar com isso?

Ana: Têm sido de facto uns tempos muito duros.

Mediadora: O que poderia ajudá-la?

Ana: Não sei, é por isso que temos de …, não posso desistir da Mamã.

Mediadora: Portanto o que está a dizer é que está bastante sobrecarregada com isto?

Ana: É muito difícil.

Mediadora: É difícil. É realmente difícil. A Beatriz não tem estado cá e por isso –

Beatriz: Não, acho que não tenho sequer pensado sobre isso. Acho que deixei que tomasses conta do Papá e penso que precisamos de agir em conjunto. Precisamos de fazer planos em conjunto para tomar conta do Papá de modo que não caia tudo sobre ti. Não me parece justo, por isso desculpa, peço muita desculpa. Nunca disse nada porque assumia que tudo estava bem. Lamento tanto. Que posso fazer para ajudar?

Ana: De facto nem sei.

Mediadora: Não podemos, quem dera que pudéssemos, mas não podemos mudar a realidade de que a vossa mãe está a morrer, mas uma das coisas que podemos fazer é chamar a nossa equipa do serviço social para falar convosco. Podemos marcar uma reunião de modo que se inicie um plano e se veja o que precisam para lidar com a situação na falta da vossa mãe. Parece-lhes uma boa ideia?

Ana: Eu gostaria de ser ajudada.

Mediadora: Muito bem. Portanto ambas irão trabalhar para chegar a um acordo que permita tomar conta do vosso pai. A assistente social certamente vos dará a conhecer os programas que temos e a assistência que poderemos oferecer para vos ajudar neste tipo de coisas.

Dr. Domingues: Acho que posso dizer, como médico assistente encarregado dos cuidados à vossa mãe, que sei que há um consentimento escrito no processo clínico para a diálise. Com todo o respeito, gostaria de saber se, sabem, posso prosseguir com os cuidados da vossa mãe de modo a dar-lhe todo o conforto ou se preciso tratar das coisas para que a diálise se inicie?

Mediadora: Portanto, Dr. Domingues, a diálise – o senhor diz que preferia não a fazer mas que não se opõe a que seja feita, e usou a palavra “conforto”?

Dr. Domingues: Sim.

Mediadora: Acredita que se ficar em diálise isso seria desconfortável para ela?

Dr. Domingues: Não creio que seja confortável. Acho que já o disse antes, sinto que apesar de tudo está a sofrer mais com os tratamentos do que a beneficiar deles. Penso que há dores que derivam das quedas de tensão e de todos os soros e da busca de lugares para encontrar veias. A diálise significa pôr-lhe mais uma série de tubos e eventualmente construir uma fístula no seu braço – todas essas coisas realmente invasivas e dolorosas mas efetivamente sem utilidade. São coisas que prolongam a sua morte e não estão realmente a dar-lhe nada de melhor. Penso na vossa mãe – preocupa-me por não estar a prestar o melhor serviço avançando para a hemodiálise.

Ana: Então isso não a vai ajudar?

Dr. Domingues: Não.

Ana: Então o que vamos fazer por ela?

Dr. Domingues: Vamos assegurar de que fica confortável e que vive o que resta da sua vida na maneira que ela queria. Ela foi muito clara sobre o que queria e o que não queria.

Ana: Às vezes penso que a respeitamos fazendo isso.

Mediadora: Muitas vezes, com doentes em fim de vida, os médicos são capazes de deixar de fazer procedimentos desnecessários para passarem a garantir que ficam confortáveis durante o tempo que lhes resta, não é assim?

Eis um bom resumo do desvio de foco dos cuidados da D. Florentina, mas teria sido útil reconhecer o quanto Ana mudou de posição: “Ana, quero fazer uma pausa breve para reconhecer como esta conversa está a ser difícil para si e como tem sido uma filha realmente devotada e grande defensora da sua mãe. Sabemos que ambas amam a vossa mãe e o vosso pai, mas, como disse a Beatriz, você apanhou com o maior peso neste último mês. Manteve-se fiel à sua mãe procurando sempre o que seria melhor para ela. Foi realmente forte na defesa da sua vida. Mas agora, estando todos de acordo em que ela está a morrer, você foi capaz de ver o que é melhor para ela, e isso é muito duro. Agradeço-lhe sinceramente por ser assim para a sua mãe.”

Dr. Domingues: É exatamente como diz.

Mediadora: Que lhes parece?

Ana: Beatriz, então podemos ir vê-la e o Papá pode vir.

Beatriz: Claro.

[As conclusões e os agradecimentos às partes foram omitidos.]

Debate adicional

Este caso contém um problema que não é raro: apesar de a D. Florentina ter passado a escrito as suas vontades com clareza (apenas cerca de 15% da população passa a escrito as suas vontades antecipadas ou testamentos vitais), ela apenas debateu as suas vontades com uma das suas filhas. O resultado é que a melhor maneira de resolver conflitos intrafamiliares não é por recurso a autoridades legais mas através de uma mediação onde os receios e sofrimentos subjacentes dos filhos podem ser devidamente tratados.

O conflito foi agudizado porque Ana, a filha adulta que vivia em casa, foi sobrecarregada e ficou cheia de dúvidas sobre como poderia organizar a sua vida com um pai demente depois da morte da mãe. Outra fonte de conflitos foi o nefrologista que criou um problema dando a Ana a falsa esperança ou, pelo menos, usando uma linguagem que permitiu essa interpretação e um mal-entendido que, na verdade, não foram muito úteis.

A mediadora deste caso foi, assim, levada a demorar demasiado tempo a chegar à palavra «morte» e a dizer o que todos estavam a contornar – que a D. Florentina estava a morrer. Só mesmo na fase final da mediação é que o Dr. Domingues reformulou o ponto em que prolongar a sua vida era prolongar o seu morrer. Pode muitas vezes ser útil ao mediador, precocemente, dizer qualquer coisa como: “Portanto, caro doutor, o senhor está a dizer que a D. Florentina está a morrer e que começar uma diálise não vai melhorar a sua vida mas apenas acrescentar desconforto e prolongar o seu morrer?” Note-se como esta forte mudança de atitude da mediadora, usando perguntas, a suaviza e dá espaço a que os familiares façam também perguntas e tenham tempo para amadurecer as suas implicações.

É muito importante recordar que os familiares não estão acostumados com a linguagem, terminologia e conceitos da moderna medicina e provavelmente sentem-se confusos e afastados do debate. Mas falta um elemento mais nesta mediação – a noção de que a equipa de cuidados médicos tem de assumir a responsabilidade das decisões embora sem desvalorizar os familiares. Neste caso a mediadora necessitou de perguntar ao médico o que é que ele sugeria e porquê, numa forma de restabelecer a responsabilidade e a autoridade relativa a esta terrível decisão que significa a morte.

A mediadora podia ter dito: “Dr. Domingues, percebi que disse que a D. Florentina está a morrer e que o senhor ou qualquer intervenção médica no hospital não podem evitar isso. É assim? Também percebi que disse que essas intervenções, que não a podiam melhorar e levá-la ao estado em que estava antes, lhe podiam causar também dores e sofrimentos. Portanto, parece que o senhor pensa que o melhor para a D. Florentina é dirigir os nossos esforços para o seu conforto e que prolongar o funcionamento dos seus órgãos não a faz voltar para junto das filhas. Se é assim, então é justo dizer que sugere que o melhor para a D. Florentina é deixá-la morrer confortavelmente?” Se seguirmos esta lógica, as filhas compreendem a progressão e entendem a responsabilidade do médico nessa decisão. E não sentirão que são elas a causa da morte da sua mãe.

Este caso ilustra ainda um outro tema. Os testamentos vitais são importantes mas, no cerne de decisões difíceis, eles são apenas uma peça informativa a acrescentar a outras, as quais devem ser trabalhadas para se alcançar uma solução. Podia ter sido útil fazer, precocemente, citações do documento e perguntar porque é que Ana pensava que a sua mãe não queria dizer com o que lá estava. Mas o processo mostrou-se relevante na ajuda para as filhas compreenderem e chegarem a um acordo. Impor os ditames do testamento vital num caso como este acabaria por ser ineficaz e mesquinho. Não ajudaria estas filhas a lidar com a realidade com que se confrontavam ou com o futuro que elas necessitam viver juntas.

Estas eram as vontades da mãe e estavam definidas num documento legal. Muitos juristas perguntarão por que razão isso não acaba com a discussão? A resposta é que em cuidados médicos há obrigações éticas para todos quantos participam nas decisões. É por isso que falamos em soluções honrosas de conflitos. Havendo um testamento vital, não havia suporte legal para dar início à diálise naquela altura. Não podíamos argumentar que seria uma intervenção de curta duração que ela havia de querer para recuperar a sua saúde. Tratava-se de uma intervenção de longa duração que não iria possibilitar senão o prolongar do processo de morte. É por isso que neste caso, como em muitos outros, o conflito é um incentivo para se examinarem todos os dados, assim como a maneira de se chegar a um consenso que preencha as necessidades emocionais da família e se compatibilize com as vontades legalmente documentadas da doente.

O pessoal médico encara a morte como algo natural. Estão treinados para tratar destes casos com competência e sem excessivas emoções. O distanciamento que resulta da educação médica permite que o pessoal saiba lidar com situações mais emotivas. Os familiares não estão acostumados e os profissionais devem mitigar as suas sobrecargas de modo que possam desempenhar os seus papéis no seio da família e cumprir as suas responsabilidades depois de os entes queridos morrerem.

Uma gravidez de risco: transcrição de uma dramatização pedagógica (Mediação bioética)

Uma gravidez de risco: transcrição de uma dramatização pedagógica

Tradução de “An At-Risk pregnancy: A Role-Play Transcript”, páginas 215 a 226 do livro
Mediação bioética - Um guia para soluções partilhadas e modeladas” 
de Nancy Neveloff Dubler e Carol B. Liebman.
Vanderbilt University Press. Nashville. 2011

Personagens [NT: A opção por nomes portugueses, fictícios como no original, procura significar que, se nunca aconteceu, uma conversa similar pode acontecer entre nos.]

Óscar Oliveira, marido da doente

Dr. Rui Rocha, assistente graduado de obstetrícia

Dr.ª Luísa Lemos, obstetra do quadro

Mediador Bioético

Contexto

Odete Oliveira, uma senhora de 32 anos, está na 18.ª semana de gravidez. Ela e o seu marido, Óscar, têm uma filha, uma menina de 6 anos de idade. A D. Odete teve recentemente três abortamentos e tem estado apreensiva sobre a atual gravidez, receosa e fazendo muitas perguntas sobre dietas, sobre o local de trabalho do marido, sobre os cuidados médicos. A equipa médica que acompanha a D. Odete Oliveira considera a ansiedade excessiva, mesmo tendo em conta tantos abortamentos.

Na ecografia do feto, a Dr.ª Luísa Lemos, obstetra da D. Odete, verificou que a estrutura do coração fetal não parece estar bem. Tem dúvidas sobre se há efetivamente um problema ou se a aparência anormal do coração resulta do ângulo em que foi feita a ecografia. A Dr.ª Luísa quer repetir o exame e fazer um ecocardiograma para excluir um defeito cardíaco. A confirmação de um defeito na estrutura do coração poderia indicar não somente um sério problema cardíaco mas também uma anomalia cromossómica.

A Dr.ª Luísa tem sido consultada pela D. Odete e seu marido nos últimos sete anos, desde o nascimento da primeira criança e quando dos abortamentos. O relacionamento entre eles é muito caloroso. A Dr.ª Luísa, médica há 31 anos e mãe, acredita que partilhar com a D. Odete os achados do exame e as suas possíveis implicações, nesta altura, seria provocar-lhe uma preocupação enorme. Se as suspeitas da Dr.ª Luísa se não confirmarem, argumenta, a D. Odete evitara um sofrimento desnecessário. Se as suspeitas se confirmarem, haverá tempo para conversar com ela e o marido sobre as implicações.

O assistente graduado do serviço, Dr. Rui Rocha, tem acompanhado o caso da D. Odete desde o início desta gravidez. Está preocupado pois pensa que é inconcebível que um medico esconda do casal informações relativas a primeira ecografia. Esta posição nega a D. Odete o direito a informação completa sobre o seu bebé e o direito a decidir sobre a sua saúde e a do seu filho.

A Dr.ª Luísa pediu uma consulta de bioética para tentar resolver a questão de informar a D. Odete sobre as preocupações dos médicos.

Transcrição e notas

Reunião dos Dr.s Luísa Lemos e Rui Rocha com o Mediador Bioético.

Mediador Bioético: Ora vivam. Penso que aqui a Dr.ª Luísa já me conhece e sei que também conhece o Dr. Rocha. Dr. Rocha, eu sou membro da Comissão de Ética deste Hospital há seis anos. A Dr.ª Luísa convocou-me para esta reunião para que pudéssemos falar do caso de D. Odete Oliveira. Por isso, chamei ambos para depoimentos iniciais. Gostaria que explicassem quais as limitações médicas da Odete – quais as nossas possibilidades, as nossas obrigações de cuidados. No fundo, qual o melhor rumo a dar ao caso: se deve ser informada, o que se lhe deve dizer, e que tipo de apoio poderá necessitar se decidirmos informá-la. Portanto, Dr.ª Luísa, como conhece a D. Odete há mais tempo, julgo que poderia começar por nos dizer alguma coisa sobre a sua história e a situação.

O mediador começa com as apresentações. Faz o enquadramento do assunto centrado nas necessidades da doente mais do que no desacordo entre médicos e mantém esse foco ao pedir a Dr.ª Luísa que se pronuncie. Começando pela Dr.ª Luísa, escolheu seguir a hierarquia hospitalar. Esta abordagem parece apropriada, neste caso, como forma de obter informações sobre cuidados prestados e de ganhar a confiança da Dr.ª Luísa, que está a ser contestada pelo assistente do serviço. Noutros casos, o mediador pode também achar útil ir contra a estrutura de poder existente e começar por ouvir quem esteja em posição inferior na hierarquia para passar a mensagem de que durante a mediação todos os pontos de vista são importantes e devem ser tidos em conta.

O uso da palavra “convocar” (“a Dr.ª Luísa convocou-me” e “chamei ambos para”) pode ser mal interpretado. Em ambiente legal esta palavra pode ser um pouco intimidante. Em termos médicos, seria preferível usar o pedir de opinião sobre o caso. A linguagem em mediação tem muito a ver com as expectativas criadas sobre se o mediador está para dar opinião ou para decidir.

Dr.ª Luísa: Sou obstetra da Odete há sete anos. Ela tem uma criança com seis. Depois desse parto, teve três abortamentos. Está atualmente na 18.ª semana de gravidez. Fez uma ecografia na semana passada que revela uma anomalia – parece haver uma anomalia do coração do bebé. Não sei se é por causa de uma má posição da sonda ou se é efetivamente uma anomalia. Também queria mencionar que a Odete é uma pessoa muito ansiosa, nervosíssima; todos concordam que é excessivamente nervosa. O que gostaria de fazer era repetir esta ecografia para esclarecer se há ou não anomalia cardíaca. Gostaria também de ter um ecocardiograma. Contudo, considerando a história de ansiedade da Odete, não quero dizer o que vou fazer, ou melhor, não quero dizer-lhe que penso que pode haver uma anomalia cardíaca no feto. Quereria apenas dizer-lhe que as imagens não mostram nada e que gostava de as repetir. Esta é a minha posição. Sinto que para proteger o sossego da Odete seria melhor este caminho, obter novos e definitivos exames e se, então, se verificar que há um problema, conversar com ela sobre isso.

Mediador Bioético: Muito bem, e o marido ainda não sabe?

O mediador faz uma pergunta clarificadora.

Dr.ª Luísa: Nem a doente nem o marido.

Mediador Bioético: Dr. Rocha, fale-nos do seu contacto com a Odete – o que pensa de tudo isto?

Esta é uma pergunta aberta.

Dr. Rocha: Bom, eu sou o assistente graduado no serviço e tenho-a acompanhado desde o início da gravidez. Estou sabedor de todas as circunstâncias do caso. A ecografia que fizemos não confirmou o defeito cardíaco. O meu problema nesta altura é perceber que a doente não dispõe da informação de que dispomos. Por isso estou muito preocupado com a ocultação – que é o que estamos a fazer – ocultamos informação importante que a doente tem direito a conhecer.

Dr.ª Luísa: Tenho a impressão que se a informar vamos agravar o seu estado mental que é, atualmente, precário. Não se perde nada em só lhe dizer que precisamos repetir o exame, após o que lhe diremos o resultado final e lhe diremos o que for preciso. Perdemos apenas uma semana ou um par de dias.

Dr. Rocha: Há algumas coisas que eu sei desta doente, que ela tende a ser bastante ansiosa e está superatenta a quaisquer sinais de problemas. Se, creio eu, ela perceber que estamos a fazer mais exames, vai ter mais ansiedade do que teria se lhe dermos uma explicação razoável. Levar uma doente como esta a preparar-se para um novo exame, outra ecografia… estaríamos a enganá-la, na verdade a mentir-lhe, se disséssemos que as imagens nada mostram. Se lhe disser que vai fazer um ecocardiograma, isso será sempre, para uma doente como esta, o mesmo que dizer que há outros problemas. Penso que acabara igualmente num estado de grande ansiedade, talvez ainda pior, violando o direito da doente a conhecer a sua situação, além de que perdera a nossa confiança.

Mediador Bioético: Permitam que esclareça umas coisas. Ambos pensam que é uma doente ansiosa. Podiam explicar um pouco o que vos leva a acreditar que esta questão ira produzir mais ansiedade.

O mediador é transparente sobre o que está a fazer ao dizer “Permitam que esclareça umas coisas”. Realça uma zona em que ambos os médicos estado de acordo – trata-se de uma doente ansiosa – e passa a uma questão mais restrita, embora faça uma pergunta aberta ao procurar informação adicional.

Dr.ª Luísa: Bom, ela está sempre a questionar as indicações médicas que lhe dou, faz perguntas sobre a dieta, sobre o seu bem-estar, se o emprego do marido tem algo a ver com os abortamentos. Muito mais do que fazem outras doentes que acompanho e seguramente muito mais do que na sua primeira gravidez.

Mediador Bioético: Fez alguma coisa de pouco habitual? Pode descrever-nos um pouco mais o que faz? Como é que isso afeta a sua vida ou da sua família?

O mediador faz mais perguntas clarificadoras. Fazer múltiplas perguntas permite ao respondente falar sobre o que mais lhe agradar. Contudo, um inconveniente é o respondente escolher as perguntas que lhe possibilitem evitar falar de assuntos difíceis que precisem de ser debatidos.

Dr.ª Luísa: não sei de ações especiais que ela tenha praticado, apenas – sabem, é uma coisa prática, de todos os dias, penso eu – temos uma esposa e mãe que está num tal estado de ansiedade que se torna difícil para os outros membros da família.

Mediador Bioético: O marido falou disso consigo?

Dr.ª Luísa: Não.

Mediador Bioético: E falou com ele sobre isso?

Dr.ª Luísa: Não.

Mediador Bioético: OK. Pode dar-nos alguma informação mais sobre os abortamentos?

O mediador mudou de rumo procurando informações que provavelmente não ajudam a resolver o diferendo.

Dr.ª Luísa: Foram três abortamentos que aconteceram muito recentemente.

Mediador Bioético: Foi isso que...

Dr.ª Luísa: Não que eu tenha dado conta.

Mediador Bioético: Ambos viram a ecografia que mostra esse possível problema?

O mediador voltou aos carris, pedindo informações que podem ajudar a solução. Aqui assegura-se que ambos viram o exame e, portanto, estão a laborar sobre a mesma informação. Esta pergunta inicia uma serie de perguntas objetivas.

Dr. Rocha: Eu vi.

Dr.ª Luísa: Sim, eu também.

Mediador Bioético: Disse que é uma questão de dias.

Dr.ª Luísa: Sim.

Dr. Rocha: Sim, desde que se conseguisse fazer uma ecografia rapidamente.

Mediador Bioético: OK. Depois dessa ecografia e do cardiograma, acha que teremos um grau de certeza sobre aquilo que se pode dizer a doente?

Dr.ª Luísa: Maior do que temos hoje. Espero bem que saiba... obviamente, o bebé pode continuar a mexer-se e esconder-se no mesmo sítio. Mas penso que teremos uma certeza muito maior sobre se há alguma anomalia cardíaca.

Mediador Bioético: Mas é ainda possível que tenha de esperar mais algumas semanas para repetir o exame de novo, de modo a alcançar o grau de certeza que gostaria de ter.

Dr.ª Luísa: É possível. Espero que não aconteça.

Mediador Bioético: Dr. Rocha, ou melhor, talvez ambos possam falar sobre isto. Parece que, no melhor cenário, poderá demorar vários dias a ter este exame feito. Dr. Rocha, até que ponto são importantes estes dias, para si?

O mediador convida o Dr. Rocha, que não tem falado muito, a ser mais ativo na conversa.

Dr. Rocha: Estou muito preocupado que, se tivermos más notícias para a doente e ela tiver de considerar uma interrupção voluntaria da gravidez, esteja ultrapassado o prazo para o fazer. Não sei o que ela pensa sobre o assunto mas, como seu médico neste caso, tento perceber o ponto de vista da doente. é por isso que sou inflexível sobre o que os doentes precisam de saber. Isto é da maior importância para ela, para a sua família e para o futuro da criança. Penso que não é ético nada lhe dizer.

Mediador Bioético: O conhecimento sobre um possível defeito cardíaco é crucial?

Dr. Rocha: Creio bem que seja.

Mediador Bioético: Então a realização do exame depende da decisão dela?

Com esta e a pergunta anterior, o mediador muda o foco da discussão sobre princípios para aspetos práticos da situação.

Dr.ª Luísa: Mas ela tem muito tempo. Só esta na 18.ª semana da gravidez. Tem até ao fim do segundo trimestre, que é o outro… Sei que o risco aumenta com o decorrer das semanas mas ainda há muito tempo. Não estamos na 24.ª semana. [NT: No original está “27.ª semana”. No caso português, o Código Penal refere, no artigo 142.º, 1, que “Não é punível a interrupção da gravidez efetuada por médico, ou sob a sua direção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando:c) Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação congénita, e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, excecionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada a todo o tempo”.]

Dr. Rocha: Mas mesmo que não seja essa a consequência, a verdade é que temos informação sobre a doente que é muito critica e estamos a excluí-la dessa informação. Penso que a ética, no nosso caso, exige que partilhemos esta informação com esta doente. Não há razoes clínicas para reter esta informação.

Dr.ª Luísa: Há uma razão clínica. Ela está extremamente ansiosa e receio que… Se a informação fosse 100% certa, não teria problemas. Mas nestas condições, estou insegura sobre a nitidez das peliculas e temos uma doente que pode ser afetada negativamente, somente por lhe dizermos isso e depois fazê-la esperar.

Dr. Rocha: No entanto, isso é hipotético. Não sabemos. Não sabemos se o feto tem um defeito cardíaco e também não sabemos se a doente vai ficar mais ansiosa. Estamos perante uma impressão profissional. A doente nada fez que prove essa ansiedade.

Dr.ª Luísa: Bom, eu conheço-a há sete anos.

Dr. Rocha: Ela não teve…

Dr.ª Luísa: Na verdade, ela… Conheço-a muito melhor que o senhor. O Dr. Rocha só a conhece há seis meses.

Dr. Rocha: Mas é no tempo atual que eu a vejo. Os passados sete anos já passaram. E, de facto, nos passados sete anos, a senhora não foi capaz de mencionar que alguma vez a sua ansiedade a tenha posto em perigo.

Dr.ª Luísa: Bom, há o perigo físico e há o perigo mental. Aumentar o nível de ansiedade de uma pessoa é um perigo.

Dr. Rocha: Não temos opinião psiquiátrica ou informação de que a doente esteja extraordinariamente ansiosa com consequências sobre o seu presente…

Dr.ª Luísa: Mas estamos todos de acordo que ela tem ansiedade excessiva, mesmo tendo em conta os seus recentes abortamentos.

Dr. Rocha: Interrogo-me sobre se não será antes de uma ansiedade profissional que estamos a falar. Estamos a falar de opiniões dos profissionais. Não ouvimos o marido.

O mediador permitiu esta crescente troca de palavras entre os médicos e agora intervém com uma pergunta clarificadora.

Mediador Bioético: Deixem-me perguntar-lhes de novo. Acham que é muito importante relatar esta informação à doente logo que a equipa dela tem conhecimento?

Nesta altura seria útil fazer o ponto da situação antes de avançar com novas perguntas. Por exemplo: “Deixem-me gastar um minuto a sintetizar onde penso que estamos. Ambos concordaram que Odete Oliveira é uma doente ansiosa, embora divirjam sobre o que se deve concluir desse facto. Ambos viram a ecografia e concordam em que os resultados são inconclusivos mas que mostra um possível defeito cardíaco. Também concordam em que, se há esse defeito, a doente necessita ser informada pois ela e o marido podem querer tomar decisões difíceis. Parece ainda que ambos concordam em que o exame deve ser repetido e que isso pode ser feito nos próximos poucos dias”. Este resumo reduz as discordâncias e realça as zonas de acordo.

O mediador poderá então prosseguir agradecendo aos médicos as suas opiniões e interesse, fazendo uma declaração do género: “Parece claro que ambos estão ao lado da doente e preocupados com o seu bem-estar e que ambos têm opiniões sólidas sobre a forma como devem cuidar dela. Dr.ª Luísa, a senhora tem cuidado da Odete desde o nascimento do primeiro filho e quando dos subsequentes abortamentos e apercebeu-se do impacto dessas perdas, pelo que vejo que quer minimizar a tensão que acompanha esta gravidez. Dr. Rocha, o senhor é sensível à tensão da Odete mas preocupa-o que resguardá-la da informação acabe por agravar essa tensão no futuro, além de que vê aqui uma questão de princípio relativa ao direito à informação dos doentes”. O mediador, mostrando que compreende os sentimentos e interesses dos dois médicos, pode eliminar, ou pelo menos, reduzir a necessidade que eles sintam em continuar a luta. Pode então prosseguir partindo as diferenças em pedaços mais manuseáveis e dizendo: “Parece ainda que há dois pontos que precisamos de debater um pouco mais: o que deve ser dito à Odete sobre o motivo por que vamos repetir o exame e quando vamos informá-la≫. Esta formulação feita pelo mediador tornaria necessário resolver explicitamente estes pontos e centraria os médicos nos problemas que precisam ser resolvidos.

Mediador Bioético: [Para facilitar, repete a última declaração transcrita.] Deixe-me só perguntar-lhe novamente. Disse que é muito importante dar esta informação à doente logo que seja do conhecimento da equipa.

Dr. Rocha: Certo.

Mediador Bioético: Mas que o atraso de dois dias, de modo a haver informação mais conclusiva…

Dr.ª Luísa: Esse é o ponto. Penso que esta ideia de que os doentes têm de conhecer tudo o que nós sabemos logo que o sabemos, não está certa. Acho que tem de haver ponderação. Neste caso, entendo que a ponderação é justificada.

Mediador Bioético: Ha alguma decisão que a doente tomaria, ou que teria de tomar, que deveria ser tomada nos próximos dois dias, se lhe falássemos hoje?

Dr. Rocha: Bom, na minha maneira de ver, a doente precisa de ser informada sobre esses outros exames e ela teria de dar o seu consentimento informado. Sem informação adequada, ela não pode dar um consentimento válido para o ecocardiograma e a repetição da ecografia.

O Dr. Rocha volta ao ponto de partida. O mediador devia registar a resposta e valorizar o significado deste regresso. Não é raro vermos as partes voltarem aos estádios iniciais da mediação, nomeadamente se lhes são pedidas opções.

Mediador Bioético: Que lhes parece a hipótese de se envolver o marido na decisão? Como ele lida com a doente, pode ser que tenha uma perceção da sua situação mental. O que acham disso?

O mediador faz uma proposta. O fundamento para esta proposta, contudo, não é claro. Precisa, previamente, reunir mais informação sobre o marido, o seu papel no tratamento da esposa, o relacionamento entre ambos.

Dr. Rocha: Eu seria muito relutante em fazer isso. Penso que isso poria uma responsabilidade muito grande no marido – dar-lhe uma informação dizendo-lhe que não a pode transmitir a sua mulher. É um presente envenenado. Não o faria. Nem penso que seja bom para a Odete.

Mediador Bioético: Bom, mas não se esqueça que só estamos a falar de dois dias.

O mediador parece querer impor a ideia que teve de envolver o marido.

Dr. Rocha: Não me importa que sejam dois dias ou vinte minutos. Simplesmente penso que não e correto fazer isso. Não me parece moralmente correto pedir a um membro do casal para ocultar uma informação.

Dr.ª Luísa: Concordo com o meu colega mas por razões diferentes. Parece-me que estamos a falar de confidencialidade e não devemos ir junto do não-doente dar-lhe informação que diz respeito ao doente. Não é uma questão de tempo. Penso que a questão é exatamente a omissão de informação.

Ambos os médicos rejeitam a proposta do mediador. Note-se que ele fez a proposta no âmbito de uma pergunta pelo que é natural que as partes a não aceitem.

Dr.ª Luísa: Penso que o tempo é um aspeto absolutamente central. Esperamos 48 horas, conseguimos a informação definitiva e então… Pode mesmo acontecer que nem tenhamos de dizer nada a Odete sobre o coração, que o coração do bebé seja perfeito, que o problema nem exista.

Dr. Rocha: O problema existe, pois estamos mesmo a esconder da doente uma situação, uma possível doença do seu filho.

Dr.ª Luísa: Mas nos não sabemos com certeza que situação é.

Dr. Rocha: Então diga-me como vai obter consentimento informado para a doente fazer dois exames sem lhe dizer porquê?

Dr.ª Luísa: Pode dizer-lhe que...

No diálogo em curso, a discussão aquece à medida que os médicos repetem as suas diferentes posições. O Dr. Rocha levanta um problema muito importante mas expressa um desafio.

Mediador Bioético: Na verdade isto leva-me a minha pergunta seguinte, a qual, digamos, é sobre o que gostariam de dizer à doente antes de fazer estes novos exames. E como se proporiam responder-lhe se começasse a fazer perguntas sobre estas coisas?

O mediador intervém e reformula a pergunta de modo a retirar-lhe a carga de desafio. Note-se a escolha das palavras e o modo como divide o problema em pedaços. Desvia o assunto do modo como a Dr.ª Luísa obtém o consentimento informado para o que gostaria de dizer à Odete e o que lhe responderá.

Mediador Bioético: Diga-me como sente que seria razoável abordar a D. Odete, quando lhe pedir para fazer esses dois exames. Como o faria? Como deveria lidar com a situação se ela fizer perguntas embaraçosas?

O mediador clarifica um pouco mais e dá à Dr.ª Luísa oportunidade para mostrar como, efetivamente, seria a sua conversa com Odete.

Dr.ª Luísa: Começaria por lhe dizer que a ecografia foi feita de um ângulo errado e que há uma parte do coração do bebé que se não vê bem pelo que precisamos de repetir o exame para ver melhor.

Mediador Bioético: Fica confortável com esta explicação?

O mediador dirige-se ao Dr. Rocha.

Dr. Rocha: Penso que ficaria, porque parece que trata dos factos como os conhecemos. Não há distorção. É o que temos.

Mediador Bioético: OK. Bom, suponho que ela precisa também de fazer um ecocardiograma. O que lhe diria então?

O mediador volta a Dr.ª Luísa e continua a caminhar, passo-a-passo, no que acontecerá na conversa com a Odete. É uma maneira boa de verificar.

Dr.ª Luísa: Diria que vimos qualquer coisa nas películas que é algo anormal e que preciso de confirmar ou afastar essa dúvida fazendo um ecocardiograma.

Mediador Bioético: E como procederá se a Odete ficar muito perturbada com esse pedido? Acha que poderá haver algo que terá de lhe dizer nesse caso?

Mais um teste da realidade feito pelo mediador.

Dr.ª Luísa: Não sei. Vamos indo e vamos vendo. Não iria mentir, apenas não lhe oferecia a informação à partida. O teste da realidade, perguntando especificamente o que a Dr.ª Luísa diria se Odete fizesse perguntas, proporciona uma resposta que é muito diferente da posição anterior – que a Odete devia ser protegida.

Mediador Bioético: O que acha disto?

O mediador dirige-se ao Dr. Rocha.

Dr. Rocha: Afigura-se-me um pouco mais razoável. Não podemos mantê-la na ignorância absoluta de coisas que saibamos. A minha preocupação é fazê-la perceber que estes exames têm de ser feitos. Mas também receio pisar o risco no que se refere ao seu direito à informação.

O Dr. Rocha, ouvindo que a Dr.ª Luísa não pretende mentir a Odete, reconhece que a conversa proposta pela colega é “razoável” mas faz este reconhecimento mantendo a sua posição inicial. Nesta altura é importante que o mediador se fixe no acordo e deixe cair o resto da sua declaração. O Dr. Rocha também pode necessitar de tempo para se aperceber que a Dr.ª Luísa, efetivamente, não discorda quando se trata de questões práticas em vez de princípios.

Mediador Bioético: Então, vamos a ver se interpreto bem. Temos duas possibilidades. Uma é dizermos à Odete que a ecografia foi feita num ângulo errado pelo que deve repetir o exame e, só depois, daremos respostas seguras seja em que sentido for. A outra possibilidade seria que, no processo de esclarecimento da Odete, se ela fizer perguntas especificas, se tornaria necessário revelarmos as nossas preocupações atuais. Estou a interpretar bem? Há outras opções a encarar?

O mediador, em vez de confirmar o acordo, sintetiza as opções. Ao fazer isso, dá aos médicos tempo para se aperceberam das concessões significativas que cada um fez.

De notar que usa a palavra “nós”. Na segunda frase é adequado dizer “nós temos”, pois as opções são o resultado do debate entre o mediador e os médicos. Na terceira e quarta frases o uso de “nós” e “nossas” já não é tão adequado, pois o mediador não participará nas conversas com Odete.

Dr.ª Luísa: Por outras palavras, deixamos à doente a indicação do caminho que ela quer seguir. Se ela fizer mesmo perguntas sobre questões centrais nõs damos-lhe mais informações e não deixamos nada por dizer.

Dr. Rocha: Estamos obrigados a isso.

Mediador Bioético: Ora bem, tivemos em consideração o papel do marido neste processo? Há alguma coisa que quisessem dizer ao marido para ajudar a manter-se de fora, evitando que venha a fazer perguntas na vez dela? Querem partilhar com ele apenas o suficiente para que ele não levante as questões mais agudas?

Note-se que, no decurso da discussão, as questões ficaram menos pessoalizadas. Os médicos e o mediador deixaram de referir tantas vezes o nome da doente passando a falar em doente. Nesta intervenção do mediador, também Óscar Oliveira foi despersonalizado. E o “marido”. Desde o início da discussão, o mediador desviou o foco da luta entre médicos para as necessidades da doente e agora deveria voltar a centrar-se nas pessoas usando os seus nomes.

Dr.ª Luísa: Bom, desconfio que não poderemos falar à doente sem a presença do marido ou, pelo menos, sem que ela lhe transmita o que dissermos. Proponho, por isso, falar à doente e ao marido ao mesmo tempo. E se ele fizer as tais perguntas agudas, o que certamente acontecerá junto dela, teremos de responder.

Mediador Bioético: Acha então que não seria produtivo falar ao marido, chamá-lo a parte, e pedir-lhe que não faça muitas perguntas nesta fase?

O mediador esta a tentar vender a sua ideia ou a fixar-se na sua preocupação com o marido.

Dr. Rocha: Não. Pela mesma razão que eu disse antes, não creio que deva sobrecarregar-se uma das partes.

Dr.ª Luísa: É, de novo, uma questão ética. Trata-se de informação confidencial da doente. Eu acharia que devíamos dizer à doente que gostávamos de lhe explicar a ecografia, se ela quisesse, na presença do marido. Só desta maneira podemos lidar bem com o tema da confidencialidade. Como já disse, não podemos ocultar-lhe as coisas, ou esperar que ele não faça perguntas, porque é seu direito fazer perguntas e nossa responsabilidade responder-lhes.

Dr. Rocha: Concordo com isso.

Mediador Bioético: Então, se bem entendi, estamos de acordo que se vai marcar a ecografia, com ou sem ecocardiograma, para os próximos dois dias. Dirá à doente que, por causa da posição do bebé, o coração não pode ser bem visto e por isso tem de se repetir a ecografia. Que, se o bebé não se tiver deslocado da posição, então faremos um ecocardiograma para delimitar bem as divisões do coração. E que isto é necessário porque precisamos de verificar todos estes fatores, e um procedimento de rotina e quando terminar os exames teremos resultados para lhe comunicar.

Dr.ª Luísa: Sim.

Dr. Rocha: Concordo.

Mediador Bioético: Queria agradecer muito a ambos. E para mim evidente que estão ambos muito empenhados no bem da D. Odete e estou feliz que tenhamos chegado a acordo sobre o modo como prosseguir.

Comentários adicionais

Há alguns temas frequentes nesta mediação: o desejo por parte de alguns médicos de tomar decisões que lhes pareçam ser as melhores para o doente sem o envolver nem a sua família, e o choque cultural entre jovens médicos formados na era do consentimento informado e médicos seniores habituados a abordagens mais paternalistas.

Uma questão que não foi discutida nesta mediação, mas a que o mediador precisava estar atento, era a probabilidade de o Dr. Rocha se prejudicar profissionalmente se não houvesse uma saída para o confronto com o superior hierárquico, pois uma possibilidade não verbalizada pelo Dr. Rocha era recuar para salvar a face.

O guião para esta dramatização (Capítulo 11) foi escrito com o marido, Óscar Oliveira, a representar um dos papéis. Entrava para confrontar o mediador com as duas hipóteses: se o implicava e, caso afirmativo, quando. O mediador tomou a decisão de não falar com ele separadamente da mulher. Sentiu que o desacordo era entre os dois médicos e que devia tentar resolver o problema entre eles. Se conseguisse, não teria de lidar com a questão do envolvimento do marido. O mediador reconheceu que o marido não era uma parte no diferendo.

Mesmo que o mediador decidisse incluir o marido, em diferendos bioéticos, quando há falta de acordo entre membros das equipas terapêuticas, a boa pratica e o mediador reunir primeiro com a equipa, seja para resolver as suas diferenças, seja para clarificar as diferenças e decidir como devem ser apresentadas ao doente ou a família.

Uma família zangada atua contra o melhor interesse do doente (Mediação bioética)

  
Uma família zangada atua contra o melhor interesse do doente: o caso Clarence Corning 
in "Mediação bioética - Um guia para soluções partilhadas e modeladas" 

Nancy Neveloff Dubler e Carol B. Liebman.
Vanderbilt University Press. Nashville. 2011

Tradução das páginas 3 a 7
ver AQUI