Os «tons de cinzento» da integridade na investigação: investigadores admitem práticas de investigação questionáveis que não consideram graves
Marta
Entradas, Yan
Feng, Inês Carneiro e Sousa
Tradução espontânea, para distribuição sem fins lucrativos, do resumo
e conclusões do artigo
publicado em 12.01.2026 na PLoS One – revista da Public Library of Science
Práticas de má conduta científica, como invenção, falsificação e plágio, constituem graves desvios da boa conduta científica, tendo suscitado a atenção da literatura devido aos danos que podem causar à ciência e à sociedade. No entanto, pouco se sabe sobre a zona cinzenta dos comportamentos dos investigadores que se desviam da conduta responsável em investigação, mas que não se enquadram nas práticas graves de má conduta na investigação. Estes comportamentos são conhecidos como práticas de investigação questionáveis (PIQ) e acredita-se que representem uma ameaça não menos grave à integridade da investigação e à ciência. Apesar do aumento da investigação sobre o tema, desconhece-se a extensão do problema em diferentes áreas de investigação e contextos. Utilizando uma amostra de investigadores que trabalham em universidades portuguesas em seis áreas principais de investigação (n = 1573), relatamos as PIQ que os investigadores admitem praticar e a gravidade que lhes atribuem, bem como os fatores preditivos do seu envolvimento em PIQ. Constatamos que as PIQ estão generalizadas em todas as áreas de investigação e níveis de antiguidade. No entanto, os investigadores mais jovens e prolíficos, bem como aqueles que menosprezam a gravidade das PIQ, admitiram ter praticado mais PIQ. Isto sugere que alguns grupos apresentam um risco mais elevado de má conduta e que é necessário estudar as motivações subjacentes aos grupos mais suscetíveis de se envolverem em PIQ.
[…]
Conclusão
Este estudo contribui para a literatura sobre
integridade na investigação, ao aprofundar a nossa compreensão das diferenças
individuais na adoção de práticas de investigação questionáveis e dos fatores que lhes estão associados,
em particular nesta comunidade.
A comunidade de investigadores que trabalha nas
universidades portuguesas revelou um padrão de envolvimento em PIQ que
se alinha com algumas culturas e comunidades científicas e contrasta com
outras. Os nossos dados levam-nos a pensar na integridade da investigação não
como uma característica da disciplina, mas sim como um perfil resultante de uma
combinação ordenada de fatores individuais e, possivelmente, contextuais.
Demonstramos que a gravidade percebida é um
preditor significativo do envolvimento em PIQ. Isto indica a importância
de os investigadores estarem conscientes do que implica a integridade da
investigação. Não podemos, no entanto, esperar que a consciência, por si só,
conduza a melhores práticas. O ambiente institucional pode facilitar ou impedir
a integridade dos seus investigadores.
Para compreender melhor os fatores que
impulsionam a má conduta, pode não ser suficiente considerar apenas fatores
individuais; o contexto pode desempenhar um papel no apoio aos investigadores [por exemplo, 49]. Os modelos futuros devem
ter em conta fatores contextuais, incluindo indicadores do ambiente
institucional e do seu apoio, mas também outros fatores individuais, tais como
o tipo de contrato com a instituição, a consciência da má conduta e os
princípios de integridade.
Estas conclusões chamam a
atenção para a necessidade de uma discussão mais ampla nas comunidades
científicas e instituições sobre o que implica a integridade na investigação e
a importância das instituições na orientação dos investigadores quanto aos seus
princípios éticos – por exemplo, através de: (i) a incorporação de treino e
formação abrangentes em integridade na investigação que vão além dos princípios
básicos de invenção, falsificação e plágio
e que tornem os investigadores mais conscientes das práticas perniciosas e das
suas consequências, reforçando simultaneamente a necessidade de seguir
cuidadosamente as etapas do processo de investigação e esclarecendo as regras
para a atribuição da autoria [cf. 50]; e (ii) a necessidade de repensar o sistema de avaliação do
desempenho dos investigadores, tendo em conta outros fatores para além das
métricas quantitativas de publicação, promovendo simultaneamente uma cultura de
rigor, transparência, abertura e responsabilidade ética na investigação [por exemplo, 51].
Limitações
A principal limitação deste estudo reside no
facto de se basear na admissão de comportamentos indevidos por parte dos
participantes. Tal pode estar sujeito a um viés de desejabilidade social, uma
vez que os participantes tendem a responder de forma a apresentar-se sob uma
luz favorável ou a alinhar-se com as normas sociais, em vez de refletirem com
veracidade o seu comportamento real. É possível que os participantes tenham
hesitado em admitir que praticam comportamentos indevidos. Além disso, foi
perguntado aos participantes, na mesma inquérito, com que frequência se
envolviam nas práticas listadas e qual a gravidade que atribuíam a cada uma
delas, o que pode refletir respostas enviesadas devido a preocupações com a
consistência das respostas (ou seja, viés de método comum). É, portanto,
possível que o envolvimento real em condutas indevidas seja superior ao
relatado pelos investigadores. O facto de os inquéritos terem sido anonimizados
pode, no entanto, diminuir este viés. Além disso, não se pode excluir a possibilidade
de o inquérito ter atraído pessoas mais propensas a responder a inquéritos ou
com interesse no tema.
O inquérito incluiu alguns comportamentos que
podem ser aceitáveis dependendo das especificidades do caso. Estudos futuros
devem dar aos inquiridos a oportunidade de esclarecer possíveis ambiguidades ou
justificar respostas, tendo em conta a variabilidade dos seus campos de
investigação, objetos de estudo ou fontes de dados. Da mesma forma, o conceito
de gravidade percebida permanece insuficientemente definido na literatura, uma
vez que não é claro quais as dimensões que os investigadores consideram ao avaliar
os PIQ. Por exemplo, avaliam a gravidade com base no potencial impacto
social da conduta indevida, nos danos à credibilidade e à imagem da ciência, ou
nas consequências pessoais que poderão enfrentar, tais como danos à reputação,
sanções legais ou disciplinares? A investigação futura pode centrar-se numa
compreensão mais clara dos critérios de avaliação subjacentes à gravidade
percebida.
A taxa de resposta (17,4%), apesar de baixa, é uma taxa aceitável
para estudos baseados em inquéritos. Os inquéritos a cientistas obtêm
frequentemente taxas de resposta mais baixas (muitos com 5-7%), com algumas exceções.
Apesar de a nossa amostra ser representativa de algumas das características
sociodemográficas da comunidade portuguesa de investigadores, devido a estes
possíveis enviesamentos, os dados devem ser interpretados com cautela. <
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