– Já muito se escreveu sobre o Porto do
liberalismo monárquico e como isso se pode ver na toponímia da cidade, mas
também há numerosos topónimos portuenses relacionados com o republicanismo,
como há os que se referem aos descobrimentos e os que evocam figuras da nossa
História…[*]
– É verdade. Temos, na nossa cidade, topónimos
para todos os gostos.
– Isso parece mostrar um Porto tolerante…
– Claramente! É caso para dizer que liberalismo
portuense, pelo menos desde a revolução do 24 de Agosto de 1820 [campo], na sua
postura contra o absolutismo, acabou por deixar raízes duradouras.
– A que te referes?
– Refiro-me, desta vez, às muitas referências democráticas
que há na cidade. O Porto grava nas paredes dos seus arruamentos, para memória
futura, o nome de conhecidos lutadores contra a ditadura salazarista.
– Falas do coronel Helder Ribeiro (1883-1973) [rua] que foi ministro da I República e do
general Sousa Dias (1865-1934)
[rua] que
logo em 3 de Fevereiro 1927 [largo] comandou a primeira tentativa de contrariar
os propósitos do totalitarismo que viria a durar 48 anos?
– Sim, desses e de outros que eram seus contemporâneos,
como aquele que também foi ministro republicano José Domingues dos Santos (1885-1958) [avenida], o historiador incansável Jaime
Cortesão (1884-1960) [praceta], o advogado-síndico
da Câmara Municipal doutor Melo Leote (1888-1955)
[rua], o
sapateiro e ativo cooperativista José da Silva (1894-1970) [rua].
– Mas há mais figuras democráticas. Desde logo,
tiveram direito a placa toponímica vários escritores que se destacaram pela
oposição ao antigo regime: o neorrealista Alves Redol (1911-1969) [rua], o fecundo romancista Aquilino
Ribeiro (1885-1963) [alameda], o poeta da
cidade Daniel Filipe (1925-1964)
[rua], o
autodidata Ferreira de Castro (1898-1974)
[rua], o
poeta militante José Gomes Ferreira (1900-1985)
[rua], o
nobelizado José Saramago (1922-2010)
[rua], a mulher
de combates Natália Correia (1923-1993)
[rua], o escritor-operário
Soeiro Pereira Gomes (1909-1949)
[rua] e a
grande Sophia (1919-2004) [jardim] – a que havia de
celebrizar “aquele dia inicial inteiro e limpo”…
– Não menos importantes, o Porto homenageia também
outros intelectuais democratas de grandes méritos. Por exemplo, temos o
ensaísta António Sérgio (1883-1969)
[rua], o historiador
de economia Armando de Castro (1918-1999)
[rua], o
matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948)
[rua], a
jornalista pacifista Maria Lamas (1893-1983)
[rua], o
linguista Óscar Lopes (1917-2013)
[rua].
– Para não falar nos cantores que animavam as
reuniões mais ou menos legais, tantas vezes proibidas: Adriano Correia de
Oliveira (1942-1982) [rua], José Mário Branco (1942-2019) [rua] e Zeca Afonso (1929-1987) [rua].
– Estás a esquecer-te de altas figuras da Igreja
Católica que desalinharam dos apoios dados à situação: o bispo do Porto D. António
Ferreira Gomes (1906-1989) [rua] e o bispo da Beira
D. Sebastião de Resende (1906-1967)
[rua].
– Sabes, a oposição democrática, como a si mesma
se classificava, era exercida por cidadãos interventivos oriundos de múltiplos
setores. Muitos oposicionistas, contudo, não chegaram a viver o que veio depois
da ditadura. As ruas do Porto lembram-nos o professor e artista Abel Salazar (1889-1946) [rua e largo], o cônsul desobediente Aristides
Sousa Mendes (1885-1954) [rua], os corajosos advogados
António Ramos de Almeida (1912-1961)
[rua] e Carlos
Cal Brandão (1906-1973) [rua], o médico Fernando
Azeredo Antas (1897-1974) [alameda] a quem chamaram
“barão vermelho”, o médico Eduardo Santos Silva (1879-1960) [rua] que foi ministro do último governo republicano, o
tarrafalista Guilherme da Costa Carvalho (1921-1973)
[rua], o
desvairado Henrique Galvão (1895-1970)
[rua], o engenheiro
republicano Mem Verdial (1887-1974)
[rua], o
jornalista irreverente Rocha Martins (1879-1952)
[rua], o professor
primário Rodolfo de Abreu (1903-1966)
[rua], o audaz
aviador Sarmento de Beires (1892-1974)
[rua], o rebelde
tenente Vidal Pinheiro (1903-1950)
[rua].
– De facto, 48 anos foi muito tempo, mas
felizmente houve destacados oposicionistas que, já em democracia, tiveram oportunidade
e mérito para figurarem na galeria toponímica portuense. Recordo o deputado da Ala
Liberal do parlamento marcelista, o advogado Francisco Sá Carneiro (1934-1980) [praça] que foi primeiro-ministro do VI
Governo Constitucional e o membro da LUAR, embaixador José Augusto Seabra (1937-2004) [rua] que foi depois ministro da Educação
do IX Governo Constitucional.
– Por falar na LUAR, há no largo Soares dos Reis
um busto de Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), seu destacado
dirigente. Nesse largo, fronteiro às instalações da polícia política, há também
outro busto de uma mulher – a destemida engenheira Virgínia de Moura (1915-1998) [rua].
– Ambos viveram os dias da libertação. Mas há
mais que tiveram essa sorte: a doutora Adelaide Estrada (1900-1979) [rua] que foi assistente de Abel Salazar, os
médicos Álvaro Ferreira Alves (1915-1992)
[rua] que
foi eminente ortopedista, Emílio Peres (1932-2003)
[rua] que ficou
conhecido como o “pai” dos nutricionistas e Guedes Pinheiro (1904-1997) [rua] que foi preso onze vezes. E também os
advogados que vieram a ser deputados constituintes em 1975: António Macedo (1906-1989) [rua], José Luís Nunes (1941-2003) [praceta], Mário Cal Brandão (1910-1996) [rua], Raul Castro (1921-2004) [rua] e, ainda, Mário Soares (1924-2017) [parque urbano] – primeiro-ministro dos I,
II e IX Governos Constitucionais e depois Presidente da República.
– A lista já vai grande, mas ainda podemos
indicar os nomes dos arquitetos Artur de Andrade (1913-2005) [rua] e Lobão Vital (1911-1978)
[rua], da
professora Irene Castro (1895-1975)
[praceta],
dos homens do teatro Deniz-Jacinto (1915-1998)
[rua] e João
Guedes (1921-1983) [rua], dos matemáticos
Luís Neves Real (1910-1985) [rua] e Ruy Luís Gomes (1905-1984) [alameda], do poeta Papiniano Carlos (1918-2012) [rua] e do publicista Pedro Veiga (1910-1987) [rua].
– Resta-nos mencionar dois militares: um que foi
assassinado barbaramente pela PIDE, o general “sem medo” Humberto Delgado (1906-1965) [praça], e outro que foi essencial para as
movimentações militares no 25 de Abril [avenida e alameda] e no 25 de Novembro
[rua], o resoluto capitão Salgueiro Maia (1944-1992)
[rua].
– Nos tempos que correm, completados 50 anos de Democracia, com todas as coisas boas e más que a têm pontuado, deixa-me que te diga que esta vista panorâmica da nossa cidade, este diálogo imaginado, deu-me ânimo e mostrou que vale a pena ser “Amigo do Porto”. <

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