21 fevereiro 2026

Porto Democrático

 

Porto Democrático 
Boletim da Associação Cul­tu­ral Amigos do Porto, 4.ª série, n.º 10, 2025, pp. 154-150

– Já muito se escreveu sobre o Porto do liberalismo monárquico e como isso se pode ver na toponímia da cidade, mas também há numerosos topónimos portuenses relacionados com o republicanismo, como há os que se referem aos descobrimentos e os que evocam figuras da nossa História…[*]

– É verdade. Temos, na nossa cidade, topónimos para todos os gostos.

– Isso parece mostrar um Porto tolerante…

– Claramente! É caso para dizer que liberalismo portuense, pelo menos desde a revolução do 24 de Agosto de 1820 [campo], na sua postura contra o absolutismo, acabou por deixar raízes duradouras.

– A que te referes?

– Refiro-me, desta vez, às muitas referências democráticas que há na cidade. O Porto grava nas paredes dos seus arruamentos, para memória futura, o nome de conhecidos lutadores contra a ditadura salazarista.

– Falas do coronel Helder Ribeiro (1883-1973) [rua] que foi ministro da I República e do general Sousa Dias (1865-1934) [rua] que logo em 3 de Fevereiro 1927 [largo] comandou a primeira tentativa de contrariar os propósitos do totalitarismo que viria a durar 48 anos?

– Sim, desses e de outros que eram seus contemporâneos, como aquele que também foi ministro republicano José Domingues dos Santos (1885-1958) [avenida], o historiador incansável Jaime Cortesão (1884-1960) [praceta], o advogado-síndico da Câmara Municipal doutor Melo Leote (1888-1955) [rua], o sapateiro e ativo cooperativista José da Silva (1894-1970) [rua].

– Mas há mais figuras democráticas. Desde logo, tiveram direito a placa toponímica vários escritores que se destacaram pela oposição ao antigo regime: o neorrealista Alves Redol (1911-1969) [rua], o fecundo romancista Aquilino Ribeiro (1885-1963) [alameda], o poeta da cidade Daniel Filipe (1925-1964) [rua], o autodidata Ferreira de Castro (1898-1974) [rua], o poeta militante José Gomes Ferreira (1900-1985) [rua], o nobelizado José Saramago (1922-2010) [rua], a mulher de combates Natália Correia (1923-1993) [rua], o escritor-operário Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) [rua] e a grande Sophia (1919-2004) [jardim] – a que havia de celebrizar “aquele dia inicial inteiro e limpo”…

– Não menos importantes, o Porto homenageia também outros intelectuais democratas de grandes méritos. Por exemplo, temos o ensaísta António Sérgio (1883-1969) [rua], o historiador de economia Armando de Castro (1918-1999) [rua], o matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) [rua], a jornalista pacifista Maria Lamas (1893-1983) [rua], o linguista Óscar Lopes (1917-2013) [rua].

– Para não falar nos cantores que animavam as reuniões mais ou menos legais, tantas vezes proibidas: Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) [rua], José Mário Branco (1942-2019) [rua] e Zeca Afonso (1929-1987) [rua].

– Estás a esquecer-te de altas figuras da Igreja Católica que desalinharam dos apoios dados à situação: o bispo do Porto D. António Ferreira Gomes (1906-1989) [rua] e o bispo da Beira D. Sebastião de Resende (1906-1967) [rua].

– Sabes, a oposição democrática, como a si mesma se classificava, era exercida por cidadãos interventivos oriundos de múltiplos setores. Muitos oposicionistas, contudo, não chegaram a viver o que veio depois da ditadura. As ruas do Porto lembram-nos o professor e artista Abel Salazar (1889-1946) [rua e largo], o cônsul desobediente Aristides Sousa Mendes (1885-1954) [rua], os corajosos advogados António Ramos de Almeida (1912-1961) [rua] e Carlos Cal Brandão (1906-1973) [rua], o médico Fernando Azeredo Antas (1897-1974) [alameda] a quem chamaram “barão vermelho”, o médico Eduardo Santos Silva (1879-1960) [rua] que foi ministro do último governo republicano, o tarrafalista Guilherme da Costa Carvalho (1921-1973) [rua], o desvairado Henrique Galvão (1895-1970) [rua], o engenheiro republicano Mem Verdial (1887-1974) [rua], o jornalista irreverente Rocha Martins (1879-1952) [rua], o professor primário Rodolfo de Abreu (1903-1966) [rua], o audaz aviador Sarmento de Beires (1892-1974) [rua], o rebelde tenente Vidal Pinheiro (1903-1950) [rua].

– De facto, 48 anos foi muito tempo, mas felizmente houve destacados oposicionistas que, já em democracia, tiveram oportunidade e mérito para figurarem na galeria toponímica portuense. Recordo o deputado da Ala Liberal do parlamento marcelista, o advogado Francisco Sá Carneiro (1934-1980) [praça] que foi primeiro-ministro do VI Governo Constitucional e o membro da LUAR, embaixador José Augusto Seabra (1937-2004) [rua] que foi depois ministro da Educação do IX Governo Constitucional.

– Por falar na LUAR, há no largo Soares dos Reis um busto de Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), seu destacado dirigente. Nesse largo, fronteiro às instalações da polícia política, há também outro busto de uma mulher – a destemida engenheira Virgínia de Moura (1915-1998) [rua].

– Ambos viveram os dias da libertação. Mas há mais que tiveram essa sorte: a doutora Adelaide Estrada (1900-1979) [rua] que foi assistente de Abel Salazar, os médicos Álvaro Ferreira Alves (1915-1992) [rua] que foi eminente ortopedista, Emílio Peres (1932-2003) [rua] que ficou conhecido como o “pai” dos nutricionistas e Guedes Pinheiro (1904-1997) [rua] que foi preso onze vezes. E também os advogados que vieram a ser deputados constituintes em 1975: António Macedo (1906-1989) [rua], José Luís Nunes (1941-2003) [praceta], Mário Cal Brandão (1910-1996) [rua], Raul Castro (1921-2004) [rua] e, ainda, Mário Soares (1924-2017) [parque urbano] – primeiro-ministro dos I, II e IX Governos Constitucionais e depois Presidente da República.

– A lista já vai grande, mas ainda podemos indicar os nomes dos arquitetos Artur de Andrade (1913-2005) [rua] e Lobão Vital (1911-1978) [rua], da professora Irene Castro (1895-1975) [praceta], dos homens do teatro Deniz-Jacinto (1915-1998) [rua] e João Guedes (1921-1983) [rua], dos matemáticos Luís Neves Real (1910-1985) [rua] e Ruy Luís Gomes (1905-1984) [alameda], do poeta Papiniano Carlos (1918-2012) [rua] e do publicista Pedro Veiga (1910-1987) [rua].

– Resta-nos mencionar dois militares: um que foi assassinado barbaramente pela PIDE, o general “sem medo” Humberto Delgado (1906-1965) [praça], e outro que foi essencial para as movimentações militares no 25 de Abril [avenida e alameda] e no 25 de Novembro [rua], o resoluto capitão Salgueiro Maia (1944-1992) [rua].

– Nos tempos que correm, completados 50 anos de Democracia, com todas as coisas boas e más que a têm pontuado, deixa-me que te diga que esta vista panorâmica da nossa cidade, este diálogo imaginado, deu-me ânimo e mostrou que vale a pena ser “Amigo do Porto”. <



[*] Veja-se o interessante artigo “Curiosidades sobre a nomenclatura das vias públicas do Porto”, de Manuel José de Almeida e Silva, publicado no Boletim desta Associação Cultural Amigos do Porto (4.ª série, n.º 2, 2017, pp 63-71), o qual tem aqui uma, entre outras, das possíveis continuações.


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