A
morte saiu à rua
Acidentes,
Assassinatos, Mártires, Suicídios, Guerras
Boletim da Associação Cultural Amigos do Porto, 4.ª série, n.º 10, 2025, pp. 173-180
Não é sobre a bela canção de Zeca Afonso que tratam as palavras abaixo alinhadas. Também não pretendemos competir com certa imprensa especialista em desgraças.
Vamos, em vez disso, fazer uma viagem rápida pelas ruas que, no Porto, celebram pessoas que tiveram uma morte trágica ou, pelo menos, abrupta.
A homenagem que as cidades fazem ao fixarem certos nomes nas suas ruas deve-se, as mais das vezes, aos feitos que os homenageados alcançaram em vida. Aliás, tal como só tem direito a canonização quem já não está vivo, com a toponímia acontece o mesmo – os antrotopónimos morreram todos, sendo raríssimas as exceções.
Podemos também compreender que as mortes súbitas, prematuras ou acidentais têm um efeito quase santificador. Os lamentos gerados, nessas ocasiões, produzem frequentemente uma reação, generalizada entre os conviventes, que resulta num perdão natural de más ações, sobrelevando as boas. É um facto!
Uma pessoa que morre, afinal, não mais poderá fazer mal a ninguém. E, se essa pessoa teve uma vida mais ou menos íntegra, praticou mais ou menos o bem, as condolências passam sem dificuldade a elogios.
Os nomes que as cidades gravam nas paredes dos seus arruamentos representam, portanto, não só o reconhecimento da notoriedade, bondade ou excelência em vida mas são, também, a expressão da admiração relativa a topónimos que, não tendo demonstrado a plenitude das suas qualidades, as tinha certamente em potência.
No caso do Porto, identificámos topónimos que morreram antes de poderem demonstrar, sem razoáveis dúvidas, o quanto valiam e, ao mesmo tempo, outros, que mesmo morrendo tragicamente, já tinham reconhecimento público para “subirem” a essa condição.
Assassinatos.
Há, depois, um conjunto de topónimos que morreram de “morte matada”, por oposição a “morte morrida”. D. Carlos e o seu príncipe real Luís Filipe (1908) foram baleados num ato premonitório do fim da monarquia, mas a gadanha da morte voltou, pouco mais tarde, para apanhar o médico revolucionário Miguel Bombarda (1910) e ainda os ministros republicanos António Granjo e Carlos da Maia (1919), na chamada Noite Sangrenta.
Já antes, Agostinho José Freire (1836), militar, ministro várias vezes, par do reino e aliado de D. Pedro IV, fora abatido de surpresa por militares adversários no decurso da contrarrevolução conhecida por Belenzada.
Vítima também de morte violenta foi António José da Silva (1739), queimado num auto-de-fé, acusado de ser judeu. Assassinados, depois de perseguidos por polícias políticas, foram os generais Gomes Freire (1817), quando reinava em Portugal o britânico Beresford, e Humberto Delgado (1965), quando era outro o ditador de serviço. Entretanto, “felizmente há luar”!
A moda de assassinar pessoas parecia ter desaparecido nos nossos dias mas eis que, certo dia, uns vândalos decidiram torturar e eliminar a marginal Gisberta Salce Júnior (2006), aparentemente por mero ódio.
Mártires.
Em tempos mais recuados, em que os conflitos de base religiosas eram tão graves como agora parecem voltar a ser, houve figuras que foram classificadas como mártires – eis os topónimos que encontramos no Porto: Santa Catarina, Santa Luzia, São Bartolomeu, São Brás, São Crispim, São Dionísio, Beato Inácio de Azevedo, São João de Brito, São Sebastião, Santo Tirso, São Veríssimo, São Vicente, São Vítor – todos terão morrido seguros das suas convicções.
Suicídios.
Circunstâncias íntimas, doenças várias e condições sociais extremas levam, por vezes, ao suicídio – desfecho que alguns acham evitável, enquanto outros aceitam que pode ser atendível. Nunca saberemos as motivações últimas do socialista José Fontana (1876), do romancista Camilo Castelo Branco (1890), do poeta Antero de Quental (1891), do militar monárquico Mouzinho de Albuquerque (1902), do almirante republicano Cândido dos Reis (1910), do médico Manuel Laranjeira (1912) ou da poetisa Florbela Espanca (1930), para porem termo às suas vidas.
Guerras.
Nas guerras, é sabido, morre-se muito. Alguns combatentes morrem como heróis, outros como meras vítimas. Alguns heróis ficam na História, mesmo que a história possa ser lendária – vejam-se os casos de Gonçalo Nunes de Faria (1338), que defendeu o Castelo e o velho alcaide com a sua vida, e o de Duarte de Almeida (século XV), que foi alferes de D. Afonso V na Batalha de Toro e manteve erguida a sua bandeira mesmo sem mãos.
Ficou também na memória coletiva, o que aconteceu a Martim Moniz (1147), atravessado numa porta em Lisboa, e a D. Fernando, o Infante Santo (1443), que se finaram nas guerras com a moirama.
Também houve navegadores descobridores que não tiveram melhor sorte – foi o que aconteceu a Fernão de Magalhães (1521), emboscado nas Filipinas antes de circunvalar o mundo, e a Cristóvão da Gama (1542), filho, irmão e sobrinho de outros Gamas, degolado na Etiópia.
Na época em que os liberais e os absolutistas se digladiavam, numa Guerra Civil entre irmãos, falecia o coronel Pacheco (1833), ferido numa escaramuça com as tropas miguelistas na Areosa. Anos depois, houve ainda perdas de vidas em combate, como a do brigadeiro cartista, o Barão de S. Cosme (1837), durante a Revolta dos Marechais.
Na Primeira Grande Guerra, houve incontáveis mortos portugueses e as paredes do Porto, além de recordarem, na Arca d’Água, a tragédia de La Lys (1918), registam a baixa do soldado Avelino Ribeiro (191?), em África, e a do capitão-tenente Carvalho de Araújo (1918), comandante de um caça-minas que enfrentou um submarino alemão.
As guerras coloniais não ficaram de fora. Antes mesmo de se definirem como tal, os combates pela defesa do Império determinaram, entre outros, o abate do tenente Valadim (1890), que perdeu a cabeça num motim quando do içar da bandeira portuguesa algures em Moçambique, e do primeiro-tenente João Roby (1904), num confronto em Angola de que resultaram mais de duzentos mortos e desaparecidos.
Já quanto à Guerra Colonial, iniciada em 1961, o Porto tem a rua dos Heróis e Mártires de Angola, a dos Heróis de Mucaba e a praça da Pedra Verde, e destaca a título individual a valentia do furriel Guilherme Dantas (1962), em Angola, e do capitão Pinheiro Torres de Meireles (1965), na Guiné.
Remate.
Este texto pode,
por falha do seu autor, não incluir todos os topónimos portuenses falecidos
tragicamente, mas não quer deixar de ser uma modesta homenagem a todos e à
cidade que os recorda. <
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Fotos do autor: 1. Maurício Esteves Pereira Pinto, por Manuel Ventura Teixeira Lopes, 1976, praça da Corujeira; 2. Adelino Amaro da Costa, por Laureano Ribatua, 2003, Palácio de Cristal; 3. Francisco Sá Carneiro, por Gustavo Bastos, praça Velásquez; 4. D. Carlos, por Luís Valadares, 2008, Cascais; 5. António Granjo, por Hélder da Carvalho, Chaves; 6. Gomes Freire, por Francisco Simões, 2003, Lisboa; 7. Humberto Delgado, por José Rodrigues, 2008, praça Carlos Alberto; 8. José Fontana, por José Cutileiro, 1990, Lisboa; 9. Camilo Castelo Branco, por Henrique Moreira, 1925, avenida Camilo; 10. Antero de Quental, por António Teixeira Lopes, 1901, Gaia; 11. Mouzinho de Albuquerque, por Fernado Belo, 1997, Batalha; 12. Manual Laranjeira, por M. Carmo Jorge, Isabel Couto e Sandra Morais, Espinho; 13. Florbela Espanca, por Francisco Simões, 2003, Oeiras; 14. Gonçalo Nunes de Faria, 1973, Barcelos; 15. Infante Santo, por Laureano Ribatua, 2001, Rua Mota Pinto; 16. Fernão de Magalhães, por Guilherme Córdoba, 1950, Lisboa; 17. Cristóvão da Gama, por Leopoldo de Almeida, Lisboa; 18. Carvalho de Araújo, por Anjos Teixeira, 1924, Vila Real; 19. João Roby, por Zeferino Couto, 1955, Braga


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