16 outubro 2026

AMEAÇAS GLOBAIS À SAÚDE NO SÉCULO XXI

As ameaças globais à saúde no século XXI não são o que se pensa

J Stephen Morrison *

Tradução espontânea do texto

21st century global threats to health are not what you think

publicado em 11/10/2026 na revista The Lancet, 2026; 408, 1533-1535 

O relatório da Comissão Lancet sobre as ameaças globais à saúde no século XXI, da autoria de Christopher J. L. Murray e colegas, utiliza previsões baseadas nos anos de vida ajustados por incapacidade (DALY = Disability-Adjusted Life Year) cumulativos previsíveis para quantificar e comparar as ameaças entre 2025 e 2100.1 A intenção da Comissão é dotar os governos das ferramentas necessárias para tomarem decisões inteligentes a longo prazo que reduzam o risco, com base numa «avaliação sistemática e replicável dos riscos e num planeamento da preparação», em oposição ao «curto prazo e ao localizado».

A Comissão avalia as ameaças de extinção decorrentes de uma guerra nuclear e da utilização maliciosa da inteligência artificial (IA), mas concentra a sua análise principalmente em 15 grandes ameaças catastróficas, um conjunto que agrupa ameaças que normalmente não são comparadas quantitativamente entre si. Esse método invulgar e inovador gera conclusões com algumas surpresas marcantes que irão suscitar debate e poderão alterar a perspetiva futura dos decisores de alto nível.

No conjunto, nesta análise, a obesidade destaca-se como o principal fator (23,1 mil milhões de DALY cumulativos evitáveis para o período de 2025 a 2100), enquanto o baixo nível de escolaridade (16,1 mil milhões de DALY) e a desigualdade de rendimentos (13,8 mil milhões de DALY) constituem fatores de grande peso, particularmente em África e no sul da Ásia. A saúde mental precária (9,35 mil milhões de DALY), o envelhecimento pouco saudável (8,26 mil milhões de DALY), os conflitos convencionais (7,71 mil milhões de DALY) e o tabagismo (7,06 mil milhões de DALY) ocupam uma posição intermédia.1 Outras ameaças que muitos especialistas e defensores provavelmente esperavam que tivessem um impacto muito maior são a hipertensão arterial sistólica (4,79 mil milhões de DALY), a resistência aos antimicrobianos (3,44 mil milhões de DALY), as pandemias (2,39 mil milhões de DALY), o consumo excessivo de álcool (2,35 mil milhões de DALY), as alterações climáticas (1,89 mil milhões de DALY), a poluição atmosférica (1,64 mil milhões de DALY), o colapso da ajuda ao desenvolvimento na área da saúde (1,5 mil milhões de DALY) e a desnutrição infantil (1,02 mil milhões de DALY).1 A análise tem cuidadosamente em conta variações importantes no seio dos países e regiões, bem como entre estes. Estas classificações irão causar desconforto a muitos grupos de interesse, que poderão contestar a metodologia subjacente e questionar por que razão as principais ameaças não ocupam um lugar de destaque nas recomendações da Comissão.

As recomendações da Comissão são triplas e sensatas. Em primeiro lugar, os governos devem criar sistemas de saúde preparados para fazer face a ameaças, nos quais uma unidade dedicada a essas ameaças personalize as suas previsões, supervisionando simultaneamente os cuidados de saúde primários, a preparação e os planos de mitigação, bem como orçamentos que se alinhem com a combinação e a escala relativa das ameaças estimadas. Em segundo lugar, os governos devem investir em inovações revolucionárias a longo prazo (por exemplo, medicamentos orais contra a obesidade, vacinas com múltiplas estirpes e novas classes de antibióticos) através de parcerias público-privadas e da utilização da IA, incluindo um destaque para a segurança e proteção da IA. Em terceiro lugar, deve ser lançado um mecanismo de monitorização independente, o Monitor of 21st Century Global Threats to Health, para proporcionar atualizações anuais à G20 Joint Task Force on Finance and Health e a outros fóruns internacionais importantes.

Há enormes dificuldades para levar a análise da Comissão ao conhecimento de decisores de alto nível com poder de decisão – especialmente aqueles que não pertencem ao setor da saúde, como chefes de Estado e responsáveis pelas finanças e pela segurança – e conseguir influenciar as suas decisões.

Vivemos tempos extremamente difíceis e incertos, que dificilmente favorecem uma reflexão a longo prazo, ponderada e integrada, ainda mais quando as decisões necessárias para avançar com soluções dependem de ações multilaterais e de parcerias. Vários choques continuam a acumular-se, gerando medo, incerteza e desorientação no seu caminho. A pandemia da COVID-19 gerou uma reação política negativa, seguida de amnésia e negligência, e acelerou uma erosão constante da confiança do público nas instituições.2-7 Seguiu-se a interrupção da ajuda externa, liderada no início de 2025 pelo presidente dos EUA, Donald Trump, mas à qual também aderiram, de forma menos visível, outros doadores ricos.8-11 Essa mudança provocou uma redução de mais de um terço no financiamento de base da ajuda externa, perturbações generalizadas nos serviços de saúde a nível mundial e uma crise de financiamento em muitas agências da ONU e organizações internacionais de saúde global.12-15 Paralelamente, o agravamento da fragmentação geopolítica está a enfraquecer gravemente as alianças, ao mesmo tempo que a confiança na ação multilateral tem vindo a diminuir.16 A guerra interminável da Rússia contra a Ucrânia, juntamente com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, levanta agora o espectro de um alargamento do teatro de operações de um conflito armado perigoso. A opinião pública sobre a IA tornou-se profundamente apreensiva em 2026, à medida que o potencial desestabilizador de modelos de IA não regulamentados e fora de controlo se tornou visível.17

Um desafio evidente é o facto de o relatório da Comissão ser altamente técnico, denso, difícil de acompanhar e pouco acessível a quem não é especialista. Na sua forma atual, os autores terão dificuldade em convencer os decisores de alto nível fora da área da saúde a investir tempo e energia para o assimilar e refletir sobre como o traduzir eficazmente em ação. Qual é o caminho a seguir? Será essencial uma fase dinâmica e proativa de divulgação direcionada para levar por diante a análise da Comissão e as suas recomendações. Felizmente, isso não partirá do zero. Christopher L. Murray, um dos copresidentes da Comissão, já testou as primeiras versões do trabalho da Comissão na Conferência de Segurança de Munique e junto do poder executivo e do Congresso dos EUA. Um documento de orientação complementar, breve e conciso, redigido numa linguagem simples, será uma ferramenta essencial de persuasão. O sucesso exige um quadro explícito que dê prioridade às dimensões de segurança nacional das recomendações da Comissão, incluindo a forma como estas moldam a confluência estratégica em torno das infraestruturas críticas, a necessidade de disciplina orçamental para planear investimentos a longo prazo e as oportunidades que o atual caos geopolítico e a destruição de capacidades oferecem, paradoxalmente, para gerar novas ideias – desde que haja liderança política suficiente.

Um público-alvo prioritário deve ser a liderança dos países de rendimento baixo e de rendimento médio-baixo. No âmbito da iniciativa Accra Reset, os países enfrentam o teste aos seus compromissos políticos e financeiros para construir a segurança sanitária, nos seus próprios termos soberanos, na sequência da rutura da ajuda externa tradicional.18 Identificar e apoiar iniciativas-piloto promissoras, numa fase inicial, contribuirá significativamente para comprovar a viabilidade do conceito. É provável que o receio quanto à utilização maliciosa da IA continue a intensificar-se. Infelizmente, isso poderá contribuir para aumentar o interesse pela abordagem inovadora apresentada neste relatório impressionante e oportuno da Comissão.

Os decisores políticos enfrentam uma panóplia de riscos existenciais, agravados pelas alterações demográficas, pela instabilidade global e pela dívida insustentável. Esta Comissão transmite uma mensagem de esperança: as ameaças à saúde identificadas neste relatório, por mais graves que sejam, podem ser mitigadas através de medidas políticas. Se os dados aqui apresentados forem utilizados de forma estratégica, poderão ajudar os decisores políticos a realizar investimentos inteligentes neste momento, de modo a alterar radicalmente as perspetivas para 2100.<

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* Sou vice-presidente sénior e diretor do Centro de Política de Saúde Global do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Declaro não ter quaisquer conflitos de interesses.

Global Health Policy Center, Center for Strategic and International Studies (CSIS), Washington, DC 20036, USA

1 Murray CJL, Kanem N, Abed S, et al. The Lancet Commission on 21st century global threats to health. Lancet 2026; published online Oct 11. https://doi. org/10.1016/S0140-6736(26)01714-9.

2 Pew Research Center. Public Trust in Government: 1958–2025. Dec 4, 2025. https://www.pewresearch.org/politics/2025/12/04/public-trust-in-government-1958-2025 (accessed Sept 25, 2026).

3 Edelman. 2026 Edelman Trust Barometer: trust amid insularity. Jan 18, 2026. https://www.edelman.com/trust/2026/trust-barometer (accessed Sept 25, 2026).

4 Edelman. 2025 Edelman Trust Barometer: special report: trust and health. April 22, 2026. https://www.edelman.com/trust/2026/trust-barometer/ special-report-health (accessed Sept 25, 2026).

5 Saad L. Confidence in US institutions remains near all-time low. Gallup. July 13, 2026. https://news.gallup.com/poll/712436/confidence-institutions-remains-near-time-low.aspx (accessed Sept 25, 2026).

6 Fidler DP. The polarized pandemic. Think Global Health. March 15, 2023. https://www.thinkglobalhealth.org/article/polarized-pandemic (accessed Sept 25, 2026).

7 Flores A, Cole JC, Dickert S, et al. Politicians polarize and experts depolarize public support for COVID-19 management policies across countries. Proc Natl Acad Sci USA 2022; 119: e2117543119.

8 The White House. Reevaluating and realigning United States foreign aid. Jan 20, 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/ reevaluating-and-realigning-united-states-foreign-aid (accessed Sept 25, 2026).

9 KFF. The Trump administration’s foreign aid review: reorganization of US global health programs. Aug 6, 2026. https://www.kff.org/global-health-policy/the-trump-administrations-foreign-aid-review-proposed-reorganization-of-u-s-global-health-programs (accessed Sept 25, 2026).

10 Organisation for Economic Co-operation and Development. International aid fell sharply in 2025, says OECD. April 9, 2026. https://www.oecd.org/ en/about/news/press-releases/2026/04/international-aid-fell-sharply-in- 2025-says-oecd.html (accessed Sept 25, 2026).

11 CSIS Global Development Department. The ground has shifted. Center for Strategic and International Studies. Nov 13, 2025. https://features.csis.org/ the-ground-has-shifted (accessed Sept 25, 2026).

12 Branoff S, Ngo TD, Engebretsen S, et al. Global health consequences of the 2025 US foreign aid freeze: rapid assessments in Colombia, Kenya and Nepal. BMJ Public Health 2026; 4: e004904.

13 Apeagyei A, Baris E, Dieleman J, et al. Financing global health 2025: cuts in aid and future outlook. Institute for Health Metrics and Evaluation. July 15, 2025. https://www.healthdata.org/research-analysis/library/financing-global-health-2025-cuts-aid-and-future-outlook (accessed Sept 25, 2026).

14 Feller E. The UN is facing a crisis of trust and possible bankruptcy. Its new leader will have an enormous challenge. The Conversation. Sept 23, 2026. https://theconversation.com/the-un-is-facing-a-crisis-of-trust-and-possible-bankruptcy-its-new-leader-will-have-an-enormous-challenge-290728 (accessed Sept 25, 2026).

15 Patric S, Zaritsky T. The UN isn’t declining. It’s decomposing. Carnegie Endowment for International Peace. Sept 17, 2026. https:// carnegieendowment.org/emissary/2026/09/un-declining-decomposing-trump-funding (accessed Sept 25, 2026).

16 Lukiv J. World’s rules-based order “no longer exists”, Germany’s Merz warns. BBC. Feb 13, 2026. https://www.bbc.com/news/articles/cy4wpv0wx43o (accessed Sept 25, 2026).

17 Doherty E. Poll: Americans say there’s a serious risk of AI destroying humanity. Politico. Sept 16, 2026. https://www.politico.com/ news/2026/09/16/poll-ai-technology-risks-humanity-trump-voters-01078087 (accessed Sept 25, 2026).

18 Accra Reset High-Level Panel on Reform of the Global Health Architecture and Governance. A sovereign future for health: a report by the Accra Reset High-Level Panel on Reform of the Global Health Architecture and Governance. September, 2026. https://www.accrareset.org/assets/unga81/ Accra_Reset_HLP_Report_Final_v6.pdf (accessed Sept 25, 2026)

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