As ameaças globais à saúde no
século XXI
não são o
que se pensa
J Stephen Morrison
*
Tradução espontânea
do texto
21st
century global threats to health are not what you think
publicado em 11/10/2026 na revista The Lancet, 2026; 408, 1533-1535
O relatório da Comissão Lancet
sobre as ameaças globais à saúde no século XXI, da autoria de Christopher J. L.
Murray e colegas, utiliza previsões baseadas nos anos de vida ajustados por
incapacidade (DALY = Disability-Adjusted Life Year) cumulativos
previsíveis para quantificar e comparar as ameaças entre 2025 e 2100.1
A intenção da Comissão é dotar os governos das ferramentas necessárias para
tomarem decisões inteligentes a longo prazo que reduzam o risco, com base numa
«avaliação sistemática e replicável dos riscos e num planeamento da
preparação», em oposição ao «curto prazo e ao localizado».
A Comissão avalia as ameaças de
extinção decorrentes de uma guerra nuclear e da utilização maliciosa da
inteligência artificial (IA), mas concentra a sua análise principalmente em 15
grandes ameaças catastróficas, um conjunto que agrupa ameaças que normalmente
não são comparadas quantitativamente entre si. Esse método invulgar e inovador
gera conclusões com algumas surpresas marcantes que irão suscitar debate e
poderão alterar a perspetiva futura dos decisores de alto nível.
No conjunto, nesta análise, a obesidade
destaca-se como o principal fator (23,1 mil milhões de DALY cumulativos
evitáveis para o período de 2025 a 2100), enquanto o baixo nível de
escolaridade (16,1 mil milhões de DALY) e a desigualdade de rendimentos
(13,8 mil milhões de DALY) constituem fatores de grande peso, particularmente
em África e no sul da Ásia. A saúde mental precária (9,35 mil milhões de
DALY), o envelhecimento pouco saudável (8,26 mil milhões de DALY), os conflitos
convencionais (7,71 mil milhões de DALY) e o tabagismo (7,06 mil
milhões de DALY) ocupam uma posição intermédia.1 Outras ameaças que
muitos especialistas e defensores provavelmente esperavam que tivessem um
impacto muito maior são a hipertensão arterial sistólica (4,79 mil
milhões de DALY), a resistência aos antimicrobianos (3,44 mil milhões de
DALY), as pandemias (2,39 mil milhões de DALY), o consumo excessivo
de álcool (2,35 mil milhões de DALY), as alterações climáticas (1,89
mil milhões de DALY), a poluição atmosférica (1,64 mil milhões de DALY),
o colapso da ajuda ao desenvolvimento na área da saúde (1,5 mil milhões
de DALY) e a desnutrição infantil (1,02 mil milhões de DALY).1
A análise tem cuidadosamente em conta variações importantes no seio dos países
e regiões, bem como entre estes. Estas classificações irão causar desconforto a
muitos grupos de interesse, que poderão contestar a metodologia subjacente e
questionar por que razão as principais ameaças não ocupam um lugar de destaque
nas recomendações da Comissão.
As recomendações da Comissão são
triplas e sensatas. Em primeiro lugar, os governos devem criar sistemas de
saúde preparados para fazer face a ameaças, nos quais uma unidade dedicada a
essas ameaças personalize as suas previsões, supervisionando simultaneamente os
cuidados de saúde primários, a preparação e os planos de mitigação, bem como
orçamentos que se alinhem com a combinação e a escala relativa das ameaças
estimadas. Em segundo lugar, os governos devem investir em inovações
revolucionárias a longo prazo (por exemplo, medicamentos orais contra a
obesidade, vacinas com múltiplas estirpes e novas classes de antibióticos)
através de parcerias público-privadas e da utilização da IA, incluindo um
destaque para a segurança e proteção da IA. Em terceiro lugar, deve ser lançado
um mecanismo de monitorização independente, o Monitor of 21st Century Global
Threats to Health, para proporcionar atualizações anuais à G20 Joint
Task Force on Finance and Health e a outros fóruns internacionais
importantes.
Há enormes dificuldades para
levar a análise da Comissão ao conhecimento de decisores de alto nível com
poder de decisão – especialmente aqueles que não pertencem ao setor da saúde,
como chefes de Estado e responsáveis pelas finanças e pela segurança – e conseguir
influenciar as suas decisões.
Vivemos tempos extremamente
difíceis e incertos, que dificilmente favorecem uma reflexão a longo prazo,
ponderada e integrada, ainda mais quando as decisões necessárias para avançar
com soluções dependem de ações multilaterais e de parcerias. Vários choques
continuam a acumular-se, gerando medo, incerteza e desorientação no seu
caminho. A pandemia da COVID-19 gerou uma reação política negativa, seguida de
amnésia e negligência, e acelerou uma erosão constante da confiança do público
nas instituições.2-7 Seguiu-se a interrupção da ajuda externa,
liderada no início de 2025 pelo presidente dos EUA, Donald Trump, mas à qual
também aderiram, de forma menos visível, outros doadores ricos.8-11 Essa
mudança provocou uma redução de mais de um terço no financiamento de base da
ajuda externa, perturbações generalizadas nos serviços de saúde a nível mundial
e uma crise de financiamento em muitas agências da ONU e organizações
internacionais de saúde global.12-15 Paralelamente, o agravamento da
fragmentação geopolítica está a enfraquecer gravemente as alianças, ao mesmo
tempo que a confiança na ação multilateral tem vindo a diminuir.16 A
guerra interminável da Rússia contra a Ucrânia, juntamente com a guerra dos EUA
e de Israel contra o Irão, levanta agora o espectro de um alargamento do teatro
de operações de um conflito armado perigoso. A opinião pública sobre a IA
tornou-se profundamente apreensiva em 2026, à medida que o potencial
desestabilizador de modelos de IA não regulamentados e fora de controlo se
tornou visível.17
Um desafio evidente é o facto de
o relatório da Comissão ser altamente técnico, denso, difícil de acompanhar e
pouco acessível a quem não é especialista. Na sua forma atual, os autores terão
dificuldade em convencer os decisores de alto nível fora da área da saúde a
investir tempo e energia para o assimilar e refletir sobre como o traduzir
eficazmente em ação. Qual é o caminho a seguir? Será essencial uma fase
dinâmica e proativa de divulgação direcionada para levar por diante a análise
da Comissão e as suas recomendações. Felizmente, isso não partirá do zero.
Christopher L. Murray, um dos copresidentes da Comissão, já testou as primeiras
versões do trabalho da Comissão na Conferência de Segurança de Munique e junto
do poder executivo e do Congresso dos EUA. Um documento de orientação
complementar, breve e conciso, redigido numa linguagem simples, será uma
ferramenta essencial de persuasão. O sucesso exige um quadro explícito que dê
prioridade às dimensões de segurança nacional das recomendações da Comissão,
incluindo a forma como estas moldam a confluência estratégica em torno das
infraestruturas críticas, a necessidade de disciplina orçamental para planear
investimentos a longo prazo e as oportunidades que o atual caos geopolítico e a
destruição de capacidades oferecem, paradoxalmente, para gerar novas ideias – desde
que haja liderança política suficiente.
Um público-alvo prioritário deve
ser a liderança dos países de rendimento baixo e de rendimento médio-baixo. No
âmbito da iniciativa Accra Reset, os países enfrentam o teste aos seus
compromissos políticos e financeiros para construir a segurança sanitária, nos
seus próprios termos soberanos, na sequência da rutura da ajuda externa
tradicional.18 Identificar e apoiar iniciativas-piloto promissoras,
numa fase inicial, contribuirá significativamente para comprovar a viabilidade
do conceito. É provável que o receio quanto à utilização maliciosa da IA
continue a intensificar-se. Infelizmente, isso poderá contribuir para aumentar
o interesse pela abordagem inovadora apresentada neste relatório impressionante
e oportuno da Comissão.
Os decisores políticos enfrentam
uma panóplia de riscos existenciais, agravados pelas alterações demográficas,
pela instabilidade global e pela dívida insustentável. Esta Comissão transmite
uma mensagem de esperança: as ameaças à saúde identificadas neste relatório, por
mais graves que sejam, podem ser mitigadas através de medidas políticas. Se os
dados aqui apresentados forem utilizados de forma estratégica, poderão ajudar
os decisores políticos a realizar investimentos inteligentes neste momento, de
modo a alterar radicalmente as perspetivas para 2100.<
_________
* Sou vice-presidente sénior e diretor do Centro de
Política de Saúde Global do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
Declaro não ter quaisquer conflitos de interesses.
Global Health Policy Center, Center for Strategic and International
Studies (CSIS), Washington, DC 20036, USA
1 Murray CJL, Kanem N, Abed S, et al. The Lancet Commission on
21st century global threats to health. Lancet 2026; published online Oct
11. https://doi. org/10.1016/S0140-6736(26)01714-9.
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3 Edelman. 2026 Edelman Trust Barometer: trust amid insularity. Jan 18,
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18 Accra Reset High-Level Panel on Reform of the Global Health
Architecture and Governance. A sovereign future for health: a report by the
Accra Reset High-Level Panel on Reform of the Global Health Architecture and
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(accessed Sept 25, 2026)
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